LUSOFONIA

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Brasil: 400 polícias, helicópteros, drones, pisteiros... há três semanas contra Lázaro armado e "com S. Cipriano" 29 Junho 2021

«’Serial killer’ faz polícias de Brasília e de Goiás ’quase como de bobas’». Títulos como este arrasam o trabalho dos agentes da ordem no país de Bolsonaro. É o vigésimo dia em que o Brasil segue a grande perseguição contra Lázaro Barbosa Sousa, de 32 anos, que no dia 9 matou quatro pessoas duma família durante um assalto a uma casa rural. E ao 20º dia, o vilão foi capturado, o fim da caçada foi festejada até pela repórter da TV Globo, que dançou em direto. Tudo terminou com a morte do vilão, soube-se minutos depois.

Brasil: 400 polícias, helicópteros, drones, pisteiros... há três semanas  contra Lázaro armado e

A fuga do indivíduo, a quem em 2013 os médicos diagnosticaram problemas mentais sérios, que já leva quase metade da sua vida no mundo do crime — aos 18 anos, foi preso na sua cidade natal, Barra do Mendes, Bahia por um duplo homicídio — é facilitada com o conhecimento que ele tem do mundo rural onde cresceu, filho de trabalhadores agrícolas.

Detido desde 2009 no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília — após a fuga da Bahia em 2007, dez dias depois da sua primeira detenção por homicídio. A sua recaptura deu-se após ter cometido novos crimes: "roubo, estupro e posse ilegal de arma", diz a sua cronologia criminosa de 2009.

Ao vigésimo dia da fuga, Lázaro continua solto. Escapa aos cercos da polícia. Invade as propriedades agrícolas chamadas chácaras. Os três colegas de prisão com quem se evadiu foram recapturados até ao terceiro dia. Lázaro escapa ao cerco de patrulhas contínuas pela área da mata. Os drones de busca e salvamento não o conseguem detetar.

"Não vamos descansar enquanto Lázaro estiver foragido. Alguns dos nossos policiais estão há três dias sem sequer tomar banho. Todos os nossos esforços estão voltados para esta missão", dizia o delegado na sua primeira entrevista há duas semanas.

Mas os dias passam e "comentadores oficiais" sem explicação para o insucesso da ciência policial acompanham a voz da superstição sobre o pacto diabólico do criminoso que carrega consigo o nefando ’Livro de São Cipriano’.

Mãe e padrasto de Lázaro trabalhavam na chácara de sogro do delegado-geral da PC-DF

O delegado-geral da Polícia Civil do DF-Distrito Federal, Robson Cândido, em conferência de imprensa admitiu a dificuldade na captura de Lázaro. No entanto acredita que a prisão do baiano — acusado de matar quatro pessoas de uma mesma família, balear agentes policiais e deixar um rasto de destruição por onde passa na região central do Brasil — é uma questão de tempo .

O chefe da Polícia Civil disse, em reação às notícias sobre o papel da família de Lázaro na sua conduta, que "não há nada que desabone" os familiares de Lázaro, que a mãe do criminoso lamentava o envolvimento do filho com crimes.

"Ele nasceu e foi criado em um ambiente de fazenda. Trabalhou e circulou a vida toda no mato. Conhece essa região como poucos. Em função dessa circunstância, ele tem conseguido se camuflar na mata, mas sem percorrer grandes distâncias. Capturá-lo será uma questão de tempo", disse o delegado que também se deslocou aos locais onde a polícia tem feito buscas intensificadas .

Em entrevista ao Metrópoles, Robson Cândido revelou que a mãe e o padrasto de Lázaro trabalhavam na chácara do seu sogro, até à semana anterior, quando Lázaro matou as quatro pessoas da mesma família.

"O próprio Lázaro fez trabalhos lá, de gado e de pasto. Realmente é um cara do mato, conhece bem toda a região, conhece detalhes. Parecia uma pessoa normal" nos contactos. Eva, mãe de Lázaro fazia queijos, a partir do leite das vacas criadas no local, e o padrasto ’Léin’ (alcunha) era o caseiro.

"Não há absolutamente nada que desabone a mãe e o padrasto de Lázaro. Mas o fa[c]to de conhecê-los, e também ao filho, me permite ter uma compreensão mais aguçada sobre o caso. Lázaro tem antecedentes e, ao que tudo indica, teve um surto psicótico", disse.

Segundo o delegado, após os crimes, a mãe de Lázaro foi ouvida pela polícia. Com medo de represálias, ela e o marido deixaram a região, e regressaram à Bahia.

"A mãe de Lázaro se queixava de o filho ter se enveredado para o caminho do crime. Mas nunca imaginou que ele seria capaz de tamanha barbaridade", disse Robson Cândido.

’Livro de São Cipriano’?

Quem na sociedade tradicional não ouviu falar no ’Livro de São Cipriano’? O livro que não se deve ler e que se intromete na conversa sempre que se trata de explicar o inexplicável, como por exemplo poderes extraordinários atribuídos a um indivíduo ligado ao crime.

No Brasil, o "livro das ciências demoníacas" tem sido evocado para explicar o insucesso de cães farejadores, como a famosa pisteira ’Melinda’ que até agora não conseguiu rastrear Lázaro.

A do infalível faro (canino, pois) só com Lázaro falhou, comenta-se nos social media mas também no meio mainstream, como a TV Recorde tem dado provas com os seus comentadores de serviço ad hoc.

Outras explicações, mais científicas e nada sacrílegas, começam a surgir. O criminoso estará a ser ajudado: entre os suspeitos estão um fazendeiro e o seu caseiro — detidos na última sexta-feira.

A provar a ineficácia do livro perante as armas está o caso noticiado pelo Correio Brasiliense. O criminoso invadiu uma propriedade onde o caseiro estava com outra pessoa. "Ouvimos um barulho e gritei com ele (o invasor)".

"Ele disse que entraria, mas o rapaz que estava comigo falou que ligaria para a polícia. Foi quando ele atirou, e nós revid[á]mos". O caseiro não ficou ferido e disse que ainda ouviu do suspeito: "Você me acertou, mas eu vou te matar". "Foi quando eu desliguei o relógio (de energia da casa) e falei que, se ele entrasse, eu o mataria", completou a vítima.

O perito em Segurança Pública Bene Barbosa (foto) apoia-se neste caso para defender o uso de armas: "se as chácaras estivessem armadas", o criminoso teria sido detido logo, acredita.

Força-tarefa. Desfecho

Vinte dias depois, mais de quatrocentos agentes das policias militar, civil e rodoviária federal continuavam a procurar Lázaro. Continuavam a percorrer estradas importantes da região, a montar grandes barreiras policiais. Continuaram a contar mais chácaras às 34 da última contagem, também para garantir a segurança dos moradores.

Vinte dias deu-se por fim o desfecho, que as autoridades juram que queriam que fosse a captura de Lázaro vivo.

Mas Lázaro continuou a desafiar a força-tarefa. Cercado na última casa onde procurou abrigar-se, a residência da ex-sogra, segundo a Record TV, em vez de entregar-se, disparou contra a polícia. A troca de tiros durou horas". E só terminou com o foragido ficou neutralizado.

Agora a vida normal pode voltar à vasta região onde durante longos dias a vida parou, com a atividade agrícola e pecuária paralisada porque as pessoas fugiram, as lojas fecharam "com medo da presença do criminoso".

Repórter dançou em direto

"A repórter Giovanna Dourado, da TV Globo, foi flagrada ao fundo de uma transmissão ao vivo da Record fazendo uma dancinha", relata a emissora.

Fontes: TV Recorde/Globo/Referidas. Fotos: Especialista em Segurança Pública, Bene Barbosa. Delegado-geral da Polícia Civil do DF-Distrito Federal, Robson Cândido. Ao centro, o ’serial killer’.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    publicidade

    Newsletter

    Abonnement

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project