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Brasil/Eleições: Sondagens não contaram com "efeito vergonha" dos eleitores - Seixas da Costa 03 Outubro 2022

O antigo embaixador de Portugal no Brasil Francisco Seixas da Costa considerou hoje que as sondagens no Brasil não tiveram em conta o "efeito vergonha" dos eleitores de assumirem o voto num candidato extremista.

Brasil/Eleições: Sondagens não contaram com

"Os especialistas em sondagens brasileiros não tiveram em conta, ou consideraram que não deviam ter em conta, aquilo que tinha acontecido", já nas eleições de 2018, em que o candidato Jair Bolsonaro "teve muito mais votos do que aquilo que as sondagens lhes davam", por causa do "efeito vergonha".

Mas, "o efeito vergonha" acontece quando há um candidato extremista em jogo, e "aparentemente continua a ser significativo", considerou o diplomata e analista em assuntos brasileiros, referindo que isto acontece quando o eleitor "é confrontado durante as sondagens" e não "quer dizer que vai votar" naquele candidato da extrema-direita.

Por isso, "o resultado de Lula [da Silva, candidato apurado para a segunda volta] mantém-se, embora numa escala inferior, mas dentro do que era previsível, 48,5%" e o do candidato Jair Bolsonaro "é muito superior e, em particular, também são muito inferiores os resultados dos dois candidatos imediatamente a seguir", Ciro Gomes e Simone Tebete.

Na sua opinião, "o efeito maior" terá sido no voto de Ciro Gomes, que "fez uma campanha um pouco desastrosa, muito pessoal e muito pouco flexível".

Assim, parte dos votos daquele candidato foram para Jair Bolsonaro, atual Presidente do país, e outros para o candidato, antigo chefe de Estado do Brasil, Luíz Inácio Lula da Silva.

Quanto à segunda volta das eleições, que será disputada por Lula da Silva e por Bolsonaro, em 30 de outubro, o embaixador não arrisca apostar numa possível vitória de qualquer um dos dois candidatos. "Tudo está em aberto", afirmou, e basta "um pequeno deslize" na campanha para um deles ganhar.

"Lula só precisa teoricamente de 1,5% de deslocação de voto daqueles que votaram [na primeira volta] em Tebete ou em Ciro Gomes” que representam um total de 8,5% do eleitorado, e “depois há cinco milhões de pessoas que ou votaram em branco ou se abstiveram, que é uma possibilidade na urna". Pelo que, no total, Seixas da Costa aponta para um universo total de 13 milhões de pessoas para o candidato ir buscar mais 1,5% dos votos.

Portanto, "teoricamente é possível" que Lula "consiga deslocar esse 1,5%", disse, mas alertou: "Nunca sabemos as dinâmicas de uma segunda volta".

Até porque, do outro lado, Bolsonaro joga com uma vantagem, tendo em atenção aquilo que é o posicionamento relativo dos partidos que o apoiam nos vários estados.

"Está muito mais à vontade para poder fazer uma campanha com o apoio de quem ganhou, por exemplo, no caso de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro", alguns dos estados e cidades mais importantes do país.

Na opinião do antigo embaixador de Portugal no Brasil, tudo vai depender muito dos debates, da campanha, "porque numa eleição que está tão próxima, tudo pode depender de um pequenino fator”.

Quanto aos apoios de outros candidatos da primeira volta a um ou outro candidato, só vê uma possibilidade, a de a senadora Simone "Tebete dizer que vai votar Lula", expressamente ou não. Fora disso, "grande parte do eleitorado do PDT, de Ciro Gomes, vai votar Lula", embora ressalve que alguns possam seguir o candidato do centro-esquerda “no seu ódio a Lula".

Para o diplomata há nesta segunda volta, no entanto, um fator "muito importante", que poderá complicar a tarefa dos candidatos, que é "o elevado grau de rejeição de ambos”, ou seja, há muita gente que diz que nunca votará em Lula e muitas pessoas que assumem que nunca votarão em Bolsonaro, "o que torna esses setores que estão muito radicalizados relativamente inamovíveis.

"Hoje Lula é um personagem muito mais polémico" do que era, porque passou-se o ‘Mensalão’ o ‘Petrolão’, a ‘Lava Jato’ e as prisões, disse, referindo-se aos processos que surgiram sobre a governação do antigo Presidente e em que este foi acusado de estar envolvido em esquemas de corrupção, enquanto "Bolsonaro nunca deixou de ser polémico", frisou.

Por outro lado, "vai ser muito difícil desmantelar o aparelho de apoio evangélico que Bolsonaro tem" ou Lula ir buscar votos a setores que tipicamente apoiam Bolsonaro, como o agronegócio.

"Uma coisa era Bolsonaro estar a 13 pontos de Lula”, porque as pessoas poderiam considerar que a sua possibilidade de ganhar seria baixa". Agora, no cenário atual "a probabilidade dele ganhar é tão alta quanto a de Lula", salientou.

Para já, o que se vê é que "hoje o espetro de votos dentro do Senado e da Câmara de Deputados é muito favorável a Bolsonaro, isto é, a direita ganhou muito fortemente e portanto as pessoas podem pensar que Bolsonaro para governar tem aqui uma capacidade extraordinária, porque tem muito mais deputados a seu favor", realçou.

Para o embaixador, "isso é verdade e não é". Porque se Lula ganhar as eleições "muitos desses deputados e partidos, que agora estão com Bolsonaro estarão com Lula".

Segundo os dados oficiais, Lula da Silva obteve 47,85% dos votos na primeira volta enquanto Bolsonaro teve 43,70%, quando estão contabilizadas 96,93% das secções eleitorais, obrigando a uma segunda volta. A Semana com Lusa

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