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Brasil: Militares "executaram" músico e catador com 82 tiros — Tribunal marcial condenou 8 a penas até 31,5 anos de prisão 14 Outubro 2021

O músico Evaldo Rosa dos Santos conduzia o carro onde estavam a esposa, o filho, o sogro e uma amiga, pelo bairro Guadalupe e de repente começaram os disparos. Um total de 82 tiros que mataram o músico e um transeunte que socorreu as vítimas e feriram o sogro. O transeunte era o catador Luciano Macedo que morreu após tirar o filho do músico do carro sob a intensa fuzilaria. Esta quinta-feira, 14, a Justiça Militar brasileira condenou oito militares do Exército – um segundo-tenente, um terceiro-sargento, dois cabos e oito soldados — a penas de 28 anos e 31 anos e meio, por homicídio qualificado, tentativa qualificada e omissão de socorro.

Brasil: Militares

À leitura hoje da sentença do julgamento — em tribunal militar de quatro juízes militares, mas presidido por um juiz civil — estiveram presentes os parentes das vítimas. Emocionados ouviram o tribunal "a fazer justiça", como disseram à imprensa.

O segundo-tenente — "que comandava o grupo" e foi o primeiro a atirar "sem se certificar de que a tropa sofria ameaça ou agressão" além de que foi o autor de "maior número de disparos" — foi condenado a 31 anos e seis meses de prisão enquanto outros sete militares foram condenados a 28 anos de prisão, "todos em regime fechado", além da expulsão das Forças Armadas.

Quatro militares foram absolvidos "porque não participaram dos disparos", repete a imprensa brasileira sem questionar. Algo estranho, já que dificilmente podiam escapar do crime de omissão de auxílio, de que a viúva falou: "Pedi socorro e eles ficaram debochando".

"Não há defesa para 82 tiros"

Ao referir-se aos dados periciais indicativos de que todos os projéteis vieram da parte de trás do automóvel, na posição onde se encontrava o grupo de militares, a uma distância de 43 metros, o procurador Luciano Gorrilhas afirmou que "os militares violaram regras de engajamento de Garantia da Lei e da Ordem (GLO)".

O procurador rebateu, um a um, os argumentos da defesa dos militares, que "se pauta num terreno movediço sem nenhum embasamento jurídico. Eles estão respondendo aqui à violação de norma de GLO, com duas mortes e uma tentativa de morte", disse.

Este magistrado militar considerou a ação como excesso de utilização dos meios. "Não há defesa para 82 tiros. Todos aderiram a uma mesma vontade. 82 tiros é execução", afirmou e considerou "um milagre os demais ocupantes do carro não terem sido atingidos".

O assistente de acusação destacou que não se tratava de sentimento de vingança, nem justiçamento contra os militares envolvidos. "Há de ter consequência, até para que a instituição [Exército] não seja maculada. Se esses oito rapazes forem absolvidos, estaremos assassinando novamente Evaldo e Luciano", disse.

Estranha defesa: "A bala nº 24 é de traficantes"

O advogado de defesa dos militares sustentou que ninguém negou que oito militares atiraram, mas "em três eventos distintos ao longo do dia, durante confrontos com traficantes de drogas da região".

"As munições compradas pelo Exército são encamisadas, revestidas de cobre", disse, alegando que o tiro que vitimou Evaldo na cabeça — a bala nº24 — seria de chumbo. "A ideia [da acusação] não é fazer justiça, mas sair daqui com um troféu, com a condenação indevida de oito militares", afirmou.

A defesa dos militares procurou inocentar os seus clientes tachando como traficante Luciano Macedo que foi saudado como herói nos noticiários. "O [catador] Luciano, não tenha dúvida, integrava o tráfico de drogas [da favela] do Muquiço", disse o advogado que, porém, não conseguiu convencer o tribunal.

Confundido com carro da secreta da PM

A Justiça Militar aceitou a denúncia do MPM-Ministério Público Militar no dia 11 de maio de 2019 e transformou em réus 12 integrantes do Exército no caso do carro em Guadalupe.

De acordo com o MPM, os militares buscavam autores de um roubo e dispararam contra o carro onde estava Evaldo, um Ford KA branco.

Luciano herói brasileiro

O catador Luciano (que morreu 11 dias depois no hospital) foi "ferido com três tiros nas costas" ao tentar socorrer Evaldo e a família. "Ouviu a esposa (na foto) a pedir socorro e tirou o menino de sete anos (foto) do carro", relata a irmã ao online Extra.

"Luciano tinha 27 anos, era catador de material reciclável e morava na rua com a mulher, Daiana Horrara". Este é um trecho do seu retrato, no online Extra.

A irmã mais velha, Lucimara Macedo, entrevistada pelo online, contou que "Luciano estava com a esposa Daiana numa rua de Guadalupe catando madeira para construir um barraco, a fim de poder oferecer um lar para o filho deles".

Lucimara acredita que "foi Deus que o pôs lá, para salvar a vida daquela família". Conta: "Meu irmão era atencioso, carinhoso. Só tínhamos nós dois de irmãos e mãe". O pai deixou-os órfãos ainda crianças, "em um acidente doméstico", e foram criados pela mãe, a auxiliar de serviços gerais Aparecida Macedo. O grito dela "O Exército matou meu filho" ecoou.

Exército errou três vezes

Carlos Costa, fundador da ONG Rio de Paz que organizou o peditório para fazer um funeral a Luciano e ajudar Daiana, expressou indignação com "o poder público que ignorou a vítima, não ajuda a família. Ninguém do Exército, do governo federal a procurou. Entendemos que o Exército errou em três ocasiões distintas: ao atirar em Luciano, ao não prestar socorro imediato, pois viu ele agonizando no chão, pedindo ajuda, e, por fim, ignoraram o drama da família durante esse período de internação. Se não é a mobilização da sociedade civil, a família, muito pobre por sinal, estaria só. Permita-me falar: só deram esse tratamento para a família porque ela é pobre", desabafou Costa ao Extra.

Fontes: Agência Brasil/Globo/Record/... Fotos: Rodeado de 4 familiares "salvos por milagre", o músico Edvaldo morreu no carro atingido por "80 dos 82 tiros" disparados pelos oito militares, segundo a Acusação. Baleado "com três tiros nas costas", o catador Luciano que o procurou socorrer morreu 11 dias depois no hospital. O vice-presidente Hamilton Mourão criticou a ação dos militares e Bolsonaro afirmou "esperar a apuração" e que "se for para condenar que se condenem os militares, porque o Exército não matou ninguém".

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