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Brasil é obstáculo na busca por justiça para adolescente morta pelo noivo em 1994 23 Novembro 2021

O colombiano Martín Mestre, agora com 79 anos, volta aos noticiários este mês, depois da campanha de 2020 na sua longa luta desde 1994 por justiça para a filha, Nancy Mariana Mestre Vargas. Entrevistado por ’El País’ revela mais detalhes da sua longa busca por justiça para a Nancy.

Brasil é obstáculo na busca por justiça para adolescente morta pelo noivo em 1994

Segundo Martín revelou ao diário El País (edição da segunda-feira passada), desde a violação e morte da filha Nancy Mariana aos 18 anos em Barranquilla, na Colômbia, ele e a esposa Nancy Vargas nunca desistiram de procurar justiça.

O arquiteto hoje septuagenário — decidido a encontrar o suspeito pelos seus próprios meios — fez um curso e usou as redes sociais para criar perfis falsos e aproximar-se da família de Saade.

Em finais de 2019, nos ’chats’ em que participava, Martín começou a encontrar pistas de que Jaime poderia estar em Belo Horizonte, no Brasil. Informou disso a Interpol que pôde obter o ADN do homem num copo usado num bar.

Martín Mestre conseguiu que Jaime Saade, a viver sob uma identidade falsa no Brasil, fosse detido e pediu a sua extradição. Mas o Supremo do Brasil soltou-o — pela lei brasileira, o crime prescreveu em 2020 — e porque é cidadão brasileiro não o extradita.

Réveillon1994


Naquela passagem de ano, Nancy, na altura com 18 anos, pediu — depois de entrar no novo ano junto da família de quatro (o irmão Martín estava de cama por causa de uma lesão no futebol) — para ir festejar com Jaime, um rapaz com quem saía há algum tempo. O pedido foi aceite sob a condição de que ela estivesse em casa às três da manhã.

Contudo, bateram as seis horas e Nancy não apareceu. Martín decidiu então ir à procura da filha na casa da família de Jaime Saade. A mãe dele, que estava a limpar o chão, informou: "A sua filha teve um acidente. Está na Clínica del Caribe".

Martín foi, então, a esse local. Lá encontrou o pai de Jaime que lhe disse o impensável: "A sua filha tentou suicidar-se". Nancy Mariana passou oito dias na Unidade Hospitalar e, com uma bala na cabeça, nunca chegou a recuperar a consciência. Morreu a 9 de janeiro.

Martín nunca acreditou na teoria de que a filha tirou a própria vida e levou o caso até à Justiça. Em 1996, análises forenses confirmaram que era impossível que a jovem se tivesse suicidado. As marcas de pólvora estavam do lado oposto àquele em que a bala entrou no crânio da jovem e havia golpes nos braços e na zona vaginal de Nancy, o que dava sinais de que tinha tentado resistir a um ataque.

Na lista Interpol. Em 1998 Martín conseguiu que Jaime Enrique Saade Cormane — que desde o dia de Ano Novo de 1994, aos 29 anos, nunca mais foi visto — fosse sinalizado na lista vermelha da Interpol.

Só mais de vinte anos depois do alerta da Interpol, e após a investigação cerrada por Martín, é que a polícia federal de Belo Horizonte comunicou, em 29 janeiro de 2020, a detenção do fugitivo colombiano.

Entrevistado online, o pai de Nancy Mestre mostrou um novo alento na sua busca por justiça ao fim de 26 anos desde o dia em que a filha de 18 anos, Nancy Mariana, não regressou da festa do Réveillon.


No Brasil

Em 31 de janeiro de 2020, 26 anos depois dessa manhã trágica, Martín Mestre entrevistado na TV brasileira "implorava aos magistrados do Supremo do Brasil" que extraditassem o assassino, que além de violar e matar Nancy, tinha profanado o cadáver na tentativa de esconder o crime.

Saade fugiu da cidade de Brarranquilla no mesmo dia do crime, 1 de janeiro de 1994, como relatou o arquiteto Martín Mestre entrevistado na TV brasileira.

As fontes oficiais confirmaram que o fugitivo vivia no Brasil com documentos falsos emitidos em 1995. Saade assumiu no Brasil novo nome, recomeçou do zero como empresário de lavandarias e constituiu família. Em 1998 foi condenado a 27 anos in absentia na Colômbia.

Em outubro de 2020, o Supremo do Brasil indeferiu, "pelo menos por agora", o pedido de extradição com um empate a dois votos. O detido havia oito meses — mais de 26 anos após o crime e fuga, 22 anos depois de ser fugitivo da justiça e estar sob alerta da Interpol —, Saade, foi libertado.

Martín Mestre voltou a suplicar justiça para a filha e dirigiu um apelo à polícia colombiana para que continuassem a procurar outros envolvidos no crime.

A decisão dos magistrados brasileiros foi dificultada pelo imbróglio jurídico que o caso acabou por constituir. Afinal, revelou-se que o fugitivo é cidadão brasileiro desde fevereiro de 2020 (após ser preso), com a formalização da união de 25 anos com uma cidadã brasileira com quem tem um filho de 24 anos e uma filha de 16.

Impunidade?
O crime prescreveu à luz da lei brasileira. Prescreverá em 2023 na Colômbia. A esperança de Martín está nas mãos do STF brasileiro, caso a entidade reúna com os seus cinco membros para evitar o empate de 2020.

Fontes: El País/Interpol.org/Clarín. Relacionado: Brasil: STF indeferiu extradição de fugitivo colombiano Saade, homicida da noiva adolescente em 1994, 10.mar.021.

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