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Brasileira Ariadine Zampaulo filma carta de amor a Maputo com narrativas cruzadas 23 Novembro 2022

A realizadora brasileira Ariadine Zampaulo apresenta no Porto/Post/Doc, no Porto, a primeira longa-metragem da carreira, “Maputo, nakuzandza”, uma carta de amor à capital de Moçambique em que viveu, com múltiplas narrativas cruzadas.

Brasileira Ariadine Zampaulo filma carta de amor a Maputo com narrativas cruzadas

Feito ao estilo de vários outros filmes ‘dedicados’ a cidades, de Berlim a Nova Iorque, numa tradição do cinema comercial, este mosaico apresenta-se, na sinopse, como “um retrato fragmentário de uma cidade, onde elementos documentais, ficcionais, performativos, radiofónicos e de fábula se fundem numa sinfonia urbana”.

Dedicado “aos pequenos acontecimentos do quotidiano”, este “filme-poema” quer mostrar, num só dia, várias histórias que se cruzam, tendo estreado no festival Olhar de Cinema, em Curitiba, e passado já pelo Festival Internacional de Documentário de Marselha, em França.

Esta “ode a uma cidade”, explica à Lusa Ariadine Zampaulo, partiu de um intercâmbio feito em 2017 a partir da Universidade Federal Fluminense, mudando-se para a capital moçambicana para estudar.

A realizadora conheceu vários outros criadores, do teatro ao cinema - destacando Maria Clotilde, que assina o argumento com a realizadora -, e surgiu então a ideia de “produzir algo em conjunto” por aquele grupo, e os atores juntaram-se à escrita da história.

“É um filme que coloca a cidade como ponto central. Já tinha essa relação com a cidade, de gostar muito daqui, de ter uma curiosidade muito grande, pelas histórias das pessoas daqui, pelas construções, arquitetura”, conta.

A palavra do título, nakuzandza, quer dizer “amo-te”, vem de changana, a língua falada no sul de Maputo, e combina “várias histórias”, fragmentos inspirados em conversas e contactos com muita gente da capital.

“A rádio já estava pensada como elemento de costura dessas histórias. Mas depois foi uma coisa que trabalhei em pós-produção”, conta, sobre uma parte sonora que ‘liga’ as várias narrativas.

Foi intermediando literatura e poesia moçambicana nas histórias e a pesquisa levou-a também a conhecer o cinema que se faz em Moçambique, em África, e que neste país “se relaciona fortemente com o momento imediato da independência”.

“Está muito atrelado na cinematografia aqui, as histórias da relação colonial, da revolução e independência, estão sempre a ser discutidas e revisitadas”, conta.

Essa relação colonial com Portugal, do passado até à relação presente, liga-se com a própria experiência enquanto brasileira.

“Tocam-nos de forma muito profunda, porque acabamos a identificar-nos. No nosso caso [do Brasil], foi bem antes, mas os processos coloniais permanecem, de diversas formas. A própria estrutura da sociedade vai reproduzindo essas lógicas”.

A realizadora encontra ainda ‘atrelada’ “a questão racial”, que já pesquisava no contexto do cinema brasileiro e vai encontrar também em solo moçambicano.

No cinema como “ferramenta de recriação do imaginário” coletivo, encontrou “muitas coisas semelhantes, sem passar por uma cultura lusófona”, entre os dois países, até para “entender o Brasil enquanto nação de forte origem africana”.

“Estou muito feliz porque o filme está a chegar a muitos lugares no Brasil, e agora chega a Portugal. Foi exibido em França. A importância está nisso, o objetivo e a luta que fazemos pelo cinema independente é podermos ocupar esses espaços”, acrescenta.

A questão colonial surge não só pela proximidade a nomes como o dos escritores moçambicanos Noémia de Sousa e Ungulani Ba Ka Khosa, que cita, mas também por terem rodado na Vila Algarve, um prédio que albergava a PIDE/DGS em Maputo, durante a ditadura do Estado Novo, e agora “é só uma ruína que está ali”.

A “arquitetura da cidade torna evidente a questão colonial” e não pode ser extraída do filme, que surgiu “de uma vontade de experimentar e falar de temas mais urgentes”, assuntos que aqui são colocados “como provocação para que fomente debates”.

“Só vai colocando esses fragmentos, sugestões, e talvez o propósito não queira ser aprofundar ou explicar, mas só colocar isso em imagem, em poesia, performance”, descreve.

A sessão de hoje, no Cinema Passos Manuel, junta ainda “Solmatalua”, do também brasileiro Rodrigo Ribeiro-Andrade, sucedendo à ‘curta’ de estreia “A Morte Branca do Feiticeiro Negro”.

Este filme “propõe um itinerário místico onde se celebra a força ancestral da poesia, das memórias e das vivências negras no Brasil” passado, presente e do futuro.

A Semana com Lusa

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