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Cabo Verde não fala “o suficiente” sobre as fomes por “vergonha” - realizadora 14 Outubro 2022

A realizadora cabo-verdiana Artemisa Ferreira, que lança hoje um documentário sobre as fomes, considerou que a “vergonha” não deixa muitas pessoas falar “o suficiente” sobre o flagelo vivido pelo arquipélago e propõe trazer o tema ao debate.

Cabo Verde não fala “o suficiente” sobre as fomes por “vergonha” - realizadora

“Muito se ouve falar através dos pesquisadores, das universidades, sobre a fome, mas a meu ver não o suficiente à luz daquilo que Cabo Verde passou”, disse a realizadora à Lusa, a propósito de um documentário que vai lançar hoje e que aborda as calamidades das fomes vividas pelo povo cabo-verdiano, ainda colónia portuguesa, ao longo dos anos 1940.

Intitulado “Os 40’s - depoimentos que ficaram”, trata-se de documentário, cuja ideia começou em 2016, em que a também guionista e docente universitária fez perto de 70 entrevistas, nas ilhas de Santo Antão, São Vicente, Maio, Santiago, Fogo e Brava, a pessoas que viveram a época, tendo todas idades entre os 75 e os 100 anos.

Mesmo sendo um flagelo que esteve presente na construção e definição da história do arquipélago, retratado também na música, poesia e literatura, a realizadora notou que ainda é preciso fazer muito para dar a conhecer aos mais jovens as sucessivas calamidades vividas pelo país.

E deu como exemplo o facto de poucos conhecerem um monumento na cidade da Praia, em memória do Desastre da Assistência, que em 1949 matou, oficialmente, 232 pessoas quando um muro se abateu sobre centenas de pessoas que se encontravam concentradas para receber ajuda alimentar.

“Pouco, ou quase ninguém da camada jovem, sabe disso, isso mostra a falta de divulgação das informações como deveriam ser”, lamentou a também membro do Núcleo Nacional de Cinema (NuNac), notando que não existe uma sinalização exata do local e que “o mais caricato” é a inexistência de um museu que retrata o assunto. “Não se fala nisso”.

Neste sentido, disse que o objetivo é trazer ao debate a temática das fomes, que constituem a principal causa pela depreciação da condição de vida dos cabo-verdianos, ao longo da sua história, com algum relevo, na primeira metade do século XX.

Durante as entrevistas, Artemisa Ferreira disse que percebeu o problema da “vergonha” dos entrevistados em falar sobre a fome. “O povo cabo-verdiano é complexo no que tange às calamidades históricas. A fome é o alicerce da história cabo-verdiana, sempre esteve presente na construção e definição da nossa história”, enfatizou.

Mesmo tendo feito perto de sete dezenas de entrevistas, deu conta que muitas outras pessoas recusaram a falar por não querer recordar os maus momentos vividos no arquipélago, na altura território do Ultramar português, que até aos anos 40 viveu vários momentos de fome declarada.

“O que mais me marcou foi a maldade que as pessoas faziam com os mais desfavorecidos. À frente de todo o sofrimento, não se media nas maldades. Muitas das maldades tinham motivos de sobrevivência, mas muitos pelo puro prazer”, concluiu a também poetisa, natural de Santa Catarina, interior da ilha de Santiago.

Para a realizadora, o flagelo da fome afetou o psicológico das pessoas, o que é notório nos seus comportamentos, com “sequelas indeléveis” no imaginário e na postura.

“Quando estamos nas casas dos nossos avós ou vizinhos, percebemos, por exemplo, na forma como guardam as roupas e comidas por vários anos, com medo de que tudo voltará. As comidas ficam por anos guardadas até estragar, mas não se vende nem comem por medo. No entanto, muitas pessoas enriqueceram com a fome, aproveitavam e trocavam alimentos por terrenos e dessa forma construíram riquezas. Por outro lado, quem não tinha o que comer se sentia na obrigação de fazer a troca”, constatou à Lusa.

Depois do lançamento oficial hoje, num dos hotéis da cidade da Praia, a autora disse que pretende levar o documentário a outras cidades e ilhas do país, bem como aos diversos festivais de cinema nacionais e internacionais.

Licenciada em Realização Cinematográfica e Televisiva pela Escola Superior Artística do Porto, Artemisa Ferreira é ainda realizadora e guionista do filme "Oji", que foi prémio revelação do Festival de Cinema Plateau (2015) e fez parte da seleção oficial do Festival de Cinema e Artes de Expressão Ibérica (2016) e Prémio de melhor montagem no Festival de Cinema Adélia Sampaio (2016) no Brasil.

A Semana com lusa

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