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Cabo Verde quer retomar produção da pozolana que construiu barragens e portos no tempo colonial 09 Maio 2021

Cabo Verde quer retomar a extração e exportação de pozolana, abundante na ilha de Santo Antão e que serviu para construir barragens e portos durante o período colonial, havendo já interesse de uma cimenteira portuguesa em retomar a produção.

Cabo Verde quer retomar produção da pozolana que construiu barragens e portos no tempo colonial

As reservas de pozolana – rocha de origem vulcânica que se adiciona e reforça o cimento – estão estimadas em 10 milhões de toneladas na ilha de Santo Antão, concentradas nas proximidades da cidade do Porto Novo, onde investidores italianos do ramo hoteleiro modernizaram o processo de extração e produção em 2007. Ali passaram do método praticamente artesanal para uma fábrica que chegou a ter 210 trabalhadores, operando em três turnos.

Contudo, entre 2013 e 2014, a fábrica Cabocem, construída pelo grupo Stefanina a cinco quilómetros de Porto Novo, fechou portas, com problemas de gestão reconhecidos por todos, além de dificuldades económicas, que agora apresentam uma luz ao fundo do túnel.

O presidente da Câmara de Porto Novo, Aníbal Fonseca, confessou à Lusa a esperança na retoma da atividade, com contactos já adiantados entre empresários do setor, o Governo cabo-verdiano e os proprietários da fábrica Cabocem, hoje sem atividade.

“Estamos muito esperançados”, afirmou o autarca, aludindo às mais recentes informações que recebeu do executivo: “Sabemos que há já algum interesse real, efetivo, de uma empresa portuguesa da área. Mas é uma empresa internacional”.

Num mercado aberto e com a importação de cimento liberalizada por Cabo Verde, a falta de experiência no setor dos proprietários da fábrica, que também ficaram com a concessão da extração da pozolana na envolvente da unidade por 25 anos, terá condicionado o desfecho da única fábrica de cimento, neste caso pozolânico (que recebe até 50% de pozolana e é utilizado em obras expostas à ação da água e ambientes duros), do arquipélago.

“É uma atividade industrial muito específica, num mercado bastante concorrencial, que requer muito conhecimento prático e específico e uma boa gestão estratégica também, e cremos que nesse sentido terá havido alguma falha. Outra questão é a concorrência, que é naturalmente forte”, admitiu Aníbal Fonseca.

O Governo cabo-verdiano anunciou há mais de um ano o interesse do fundo turco OYAK, que comprou a cimenteira Cimpor em Portugal, em investir em Cabo Verde, na extração de pozolana, rochas de origem vulcânica utilizadas na indústria cimenteira.

Para o autarca local, o objetivo é retomar a laboração e rapidamente a exportação do produto, como aconteceu durante décadas, marcadamente no período colonial. É que também o porto de Leixões, em Portugal, entre outros, recebeu pozolana de Santo Antão, para reforçar o cimento hidráulico utilizado na sua construção.

“O cimento pozolânico de Porto Novo foi utilizado em várias obras, não só em Santo Antão, como noutras ilhas, mas até foi exportado para as então colónias portuguesas de Angola e Moçambique, para barragens e cais”, recordou, a propósito da qualidade daquela matéria-prima.

Encerrada há mais de seis anos, depois de garantir o cimento pozolânico necessário para a construção dos portos cabo-verdianos da Boa Vista e do Tarrafal (ilha de Santiago), o objetivo da mediação das autoridades locais passa por encontrar uma empresa do setor que compre a fábrica aos proprietários italianos e assuma a concessão da extração.

“Já recebemos aqui investidores chineses, portugueses, turcos. A matéria-prima existe, é de boa qualidade e estamos a tentar relançar, porque é uma fábrica que cria empregos, atividade económica, dinamiza a economia local”, assumiu ainda Aníbal Fonseca.

Se antes a fábrica era o maior empregador privado da ilha de Santo Antão, em plena crise provocada pela pandemia de covid-19, o sonho do autarca local é retomar essa importância: “Estamos convencidos que vai triunfar”.

Albertina Pinto, encarregue da administração da fábrica, cujos armazéns guardam os últimos sacos de cimento pozolânico ali produzidos, assumiu que o problema foi a gestão anterior, aliada à falta de experiência no setor do grupo italiano.

Em declarações à Lusa, afirmou acreditar que o desfecho, para um novo investidor assumir a unidade, que garante a secagem, trituração, análise e embalagem do cimento pozolánico de Cabo Verde, “é uma questão de semanas”.

“São questões de burocracia, já estamos na fase final”, afirmou, sem querer revelar dados sobre os interessados ou valor do negócio.

Sabe, contudo, que a pozolana ali existente, em quantidade suficiente para décadas de exploração, é “das melhores do mundo”, conforme testes laboratoriais realizados ao longo dos anos e que, apesar de encerrada, a fábrica Cabocem, incluindo um moderno laboratório, está totalmente operacional.

“Era aqui uma vida. Parecia uma aldeia, onde tudo se passava, era um grande movimento na cidade de Porto Novo”, rematou. A Semana com Lusa

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