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Cabo-verdianos que começam a doar sangue voluntariamente não querem mais parar 01 Fevereiro 2022

Keven e Deritson não se conhecem, mas já têm em comum várias doações de sangue, que começaram em períodos diferentes, mas querem continuar esta ação e fazer parte da recém-criada Associação de Doadores Voluntários da capital cabo-verdiana.

Cabo-verdianos que começam a doar sangue voluntariamente não querem mais parar

Há cinco anos, Keven Gomes, 29 anos, natural de Achada Mato, cidade da Praia, foi saber o seu grupo sanguíneo e deparou-se com outra necessidade: de doar sangue, que para os homens pode ser de três em três meses, enquanto as mulheres podem fazê-lo com quatro meses de diferença.

"Não sabia dos procedimentos nem das vantagens, depois fui vendo as diferenças e continuei a doar", disse à agência Lusa Keven Gomes, que já leva cerca de uma dezena de doações, todas no Banco de Sangue do Hospital Agostinho Neto (HAN), na capital de Cabo Verde, referindo que dá sangue sempre que tem disponibilidade.

"É importante porque, como se diz, há coisas que o dinheiro não compra. Mesmo tendo muito dinheiro, em caso de emergência, se não tiver sangue reservado, o dinheiro não serve para a tua saúde. Por isso, é importante ter sangue reservado, porque mesmo se tiver dinheiro para comprar - e ainda não é possível - não se consegue. Ou seja, dinheiro não é mais importante que tudo", referiu o doador.

Deritson Carvalho, 23 anos, natural da ilha do Fogo, fez a primeira doação há nove meses e já vai com três, numa forma que encontrou para "colaborar com a sociedade" e "ajudar outras pessoas que necessitam".

E agora que começou, garantiu que não vai parar, por iniciativa própria ou também no âmbito das Forças Armadas, instituição em que está a prestar serviço atualmente e uma das que periodicamente reúne os seus trabalhadores para campanhas de doação.

"Fico contente porque é algo onde se consegue ajudar outras pessoas em dificuldades e que precisam de sangue", sublinhou Deriston Carvalho, que falou à Lusa quando foi levantar o resultado das análises da doação feita recentemente.

Depois de um processo que durou quase um ano, com encontros, reuniões e uma comissão instaladora, num desafio lançado pelo próprio Banco de Sangue, foi criada a Associação dos Doadores Voluntários de Sangue da Praia (ADVS — Praia), a primeira do país, que elegeu em 22 de janeiro João Pedro Abreu Martins como presidente.

E depois da eleição dos órgãos sociais, os objetivos estão bem traçados, a começar pela sensibilização de mais doadores, seguido do desenvolvimento de parcerias nacionais e internacionais, ajudar na melhoria dos recursos humanos do Banco de Sangue através de formação, bem como atrair e fidelizar jovens desde os 18 anos, para terem tempo maior de doação de sangue, que pode ir até aos 60 anos.

Mas um grande cavalo de batalha da nova associação vai ser a revisão do estatuto dos doadores voluntários de sangue de Cabo Verde, não para trazer vantagens, explicou o presidente, mas sim para "maior reconhecimento".

"Já existe a lei que beneficia o doador voluntário de sangue na questão do pagamento das taxas moderadoras, mas nós estamos a pensar em outras coisas", frisou João Pedro Martins, arquiteto de profissão, professor universitário e doador voluntário desde 2006, com uma ficha já com quase 40 doações e o principal dinamizador da ideia da associação.

Entre os aspetos que o grupo quer ver atualizado está o tempo relativamente à doação por parte de pessoas que usam tatuagem ou piercing, mas também a relação entre determinadas religiões, notando que por vezes pessoas morrem porque a sua religião não lhes permite receber sangue.

"Existe um formulário ainda muito conservador, não digo que discrimina, mas que intimida o doador homossexual, a questão da troca de parceiros deve ser mais bem trabalhada porque as pessoas ficam de certa forma inibidas, quando não são muito bem esclarecidas da questão da homossexualidade, das doenças sexualmente transmissíveis. E o estatuto deverá melhorar nesses aspetos", perspetivou.

As ambições da associação não ficam por aqui e, segundo o presidente, o primeiro passo está dado para a possível criação de uma Federação Cabo-verdiana de Doadores Voluntários de Sangue, já que há grupos muito organizados em outras regiões do país.

"A nossa questão é a formalização. Se todos esses grupos se formalizassem em associação, e se juntassem em sinergias, criaríamos logo a federação dos doadores voluntários de sangue do país", disse, entendendo que essa aliança traria melhor coesão e maior alcance territorial, além de outras vantagens de logística e de estruturas.

A ADVS-Praia traçou ainda como objetivo ajudar o país a alcançar a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de ter pelo menos 1% de população para doação, para evitar recorrer à doação familiar em momentos de crise, e, quem sabe, ajudar a sub-região africana.

"O objetivo de chegar a 1% não é fácil, mas é algo que nós gostaríamos de alcançar", reforçou o dirigente associativo, indicando que a associação começou com uma base de dados com 84 doadores voluntários, mas acredita que existem centenas na Praia, apesar de muitos preferirem ficar no anonimato.

Keven e Deritson passaram a conhecer a associação na hora da entrevista para a Lusa, mas ambos saudaram a iniciativa, e prometeram também fazer parte dela, por entenderam que vai unir os doadores já existentes e atrair mais pessoas para esta causa.

Depois da eleição dos órgãos sociais, o presidente apelou a todos os praienses e cabo-verdianos em geral para a importância da doação de sangue, lembrando que a pandemia da covid-19 veio mostrar que a vida é curta e dinâmica.

"Há coisas que acontecem de um momento para o outro, por isso nós pedimos a todos que doem sangue, porque doar sangue salva vidas", concluiu.

A Semana com Lusa

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