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’Capitão de Abril’ Otelo faleceu aos 84 anos —"É ainda cedo para a História o apreciar com distância" 26 Julho 2021

Otelo Saraiva de Carvalho morreu no domingo, 25, aos 84 anos, no hospital onde estava internado. A notícia da morte do capitão de Abril, que depois se fez «terrorista», suscitou as mesmas reações ambivalentes que Otelo provocou ao longo das últimas quatro décadas. "É ainda cedo para a História o apreciar com a devida distância. No entanto, parece inquestionável a importância capital que teve no 25 de abril", disse o presidente Marcelo.

’Capitão de Abril’ Otelo faleceu aos 84 anos —

Aos 35 anos, o capitão Otelo Saraiva de Carvalho, nascido em Moçambique de pais de origem europeia, distinguiu-se no coletivo do Movimento dos Capitães, "mola impulsionadora e agente fundamental da libertação de Portugal e dos portugueses", como o descreve o presidente da AAssociação 25 de Abril, o hoje coronel Vasco Lourenço.

O Capitão de Abril: Otelo foi o responsável pela elaboração do plano global do golpe militar que acabou com a ditadura do Estado Novo, a 25 de abril de 1974.

"Otelo Saraiva de Carvalho tem direito a um lugar de proeminência na história", afirmou hoje o 1º presidente da República Portuguesa democraticamente eleito, Ramalho Eanes.

O mentor das FP25: revolucionário? terrorista?

O que está na memória coletiva é o trauma de ver o herói da Revolução dos Cravos como o mentor de uma organização que cometeu crimes de sangue, assaltou bancos para financiar as operações ditas revolucionárias.

Não é só da extrema-direita que vêm vozes a lembrar que Otelo criou o grupo ’Forças Populares 25 de Abril’, sanguinário.

Por ocasião dos trinta anos do grupo FP25, a procuradora Cândida Almeida, responsável pelo processo, considerou que "eram inequívocas" as provas de que Otelo Saraiva de Carvalho era líder de uma associação terrorista.

A antiga diretora do DCIAP disse não ter dúvidas de que, nos crimes violentos que foram cometidos pelo braço civil armado do chamado Projeto Global, nomeadamente os 17 homicídios, entre eles um bebé de 4 meses, "Otelo, e os restantes membros da direção político militar da organização, foram autores morais".

Mas — aqui está mais um busílis da questão — Otelo nunca assumiu ser das FP25.

Em entrevista à RTP em 2010, destacou que fundou a OUT/FUP, um movimento político com vista a concorrer às eleições legislativas de 1981. O surgimento do grupo FP25 emanando do OUT "foi um choque", depois deu-se o assalto a dois bancos no Cacém, com o primeiro crime de sangue: a morte de um militar.

"Na sequência dessa ação nós, OUT/FUP, decidimos fazer um comunicado, demarcando-nos das ações das FP25, que não tinham nada que ver com o nosso espírito de concorrer para um processo eleitoral. Decidimos depois agir como se as FP25 não existissem", afirmou Otelo.

Ainda assim, disse, a organização "constituiu-se sempre como um obstáculo, e diminuiu em muito as possibilidades [da FUP] em termos de representação eleitoral. Foi um choque grande e um prejuízo total".

Otelo Saraiva de Carvalho assumiu a autoria do PG-Projecto Global: "[F]oi lançado por mim em reuniões que fui fazendo pelo país em 1977. Era um projeto de luta antifascista [para poder reagir] ao capitalismo selvagem que estava a verificar-se", disse.

«A ideia era criar "condições para uma preparação militar para trabalhadores, garantindo que, se houvesse um regresso do fascismo a Portugal, estávamos habilitados com produção de ideologia, por parte da OUT/ FUP, com uma estrutura civil que pudesse armar-se se houvesse necessidade, e com os quartéis, de onde sairiam as armas e o apoio por parte dos que lá estavam. Era um projeto insurrecional, que morreria por falta de espaço para intervenção"».

O militar de Abril sublinhou que "as FP-25 eram mais radicais porque entravam diretamente na luta armada, não esperavam por qualquer processo insurrecional, por qualquer regresso do fascismo. Consideravam que estávamos em pleno capitalismo, que o poder era um poder fascista, e que havia que combatê-lo. E essa não era a minha perspetiva".

Sobre a condenação por ser um dos líderes do grupo terrorista, acusação que negou até ao fim, no livro autobiográfico lançado em abril deste ano, Otelo Saraiva de Carvalho aponta: "[A] máquina estava toda montada para me liquidar em termos políticos". "Havia um conluio do PCP com o CDS e com o PSD para a minha liquidação total. Fiquei cinco anos preso preventivamente, quando o máximo era quatro anos. Quando eu fui detido, cerca de 70 por cento dos inspetores da PJ eram militantes do PCP. Todo o meu processo foi tratado e conduzido, mesmo em tribunal, pelo secretariado de trabalhadores do PCP", concluiu.

Reações ao falecimento

O Governo destaca a "capacidade estratégica e operacional" de Otelo, a sua "dedicação e generosidade" que foram "decisivas para o sucesso, sem derramamento de sangue, da Revolução dos Cravos".

Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, referiu-se-lhe como "uma figura maior do que a própria História".

O PCP escreve — em réplica ao líder do Chega — que "este não é o momento para destacar" atitudes que marcaram o percurso político do coronel.

Nota Pessoal

Uma pergunta acompanhou a minha adolescência, desde aquele abril de 1980 em que — na sala 9 do Palácio Cabral, extensão da Escola Secundária D.Maria I (junto à Igreja de Santa Catarina) — soube das bombas do grupo FP25.

"Porque é que um um capitão de Abril que evitou derramar sangue na revolução dos cravos, que teve a oportunidade de integrar um partido político em democracia, vira terrorista, manda assaltar bancos?", era a pergunta que aqui se repete.

Anos depois, trabalharia ao lado da TM, uma aveirense em Lisboa cujo marido, ainda jovem, estava preso em Caxias ao lado do mentor das FP25. Pelo que percebi, ela não falava nunca disso. À procura de respostas, as informações eram contraditórias, por demais parciais para permitir ter uma compreensão do que era a verdade.

Retenho o que o escritor Abelaira escreveu: "Otelo está preso porque quis mais liberdade".

( MLL)

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