OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Carta Aberta ao Embaixador de Cabo Verde em Portugal 16 Mar�o 2009

Digníssimo Senhor Embaixador,
Doutor Arnaldo Ramos Andrade

Queira receber os melhores cumprimentos.

O meu nome é Grace Beatriz, residente na Holanda, responsável e fundadora da «Dany Foundation» com sede neste mesmo país. A partir daqui, gostaria de lhe pedir o favor e alguma consciência da sua parte, olhando não só ao cargo que ocupa, que possa igualmente voltar-se para os problemas que nos afligem e nos causam desassossego. Quanto ao seu espírito humanista que possa ver as condições em que estão a viver os nossos conterrâneos deslocados de Cabo Verde para Portugal para tratamento; eis a razão desta minha missiva para Vossa/Exl.

Carta Aberta ao Embaixador de Cabo Verde em Portugal

Posso dizer, mediante o meu testemunho, que esta não pode deixar de ser o manifesto de indignação, o sentir da vergonha e completa revolta que não posso deixar de manifestar depois de assistir e acompanhar ao longo de duas semanas os doentes vindos de Cabo Verde para Lisboa, quando pude visitar no passado mês de Dezembro, depois de alegadas vozes fazerem chegar até à Holanda as dificuldades pelas quais estão de novo a passar, esta comunidade já de si carente de saúde, entre outros aspectos menos agradáveis, o que nada mais fez do que recolocar de prevenção esta comunidade aqui na Holanda e não só.

Não totalmente de surpresa porque era já do nosso conhecimento esta infeliz situação, pois já havíamos estado em Lisboa há já algum tempo, onde se denunciaram as várias carências aquando na Embaixada se encontrava o seu anterior colega, Doutor Onésimo Silveira, que nos afiançou que iria avisar o governo e restantes responsáveis sobre tal situação, aliás, testemunhada pelo próprio, honra seja feita, empenhou-se nalguns aspectos, chamando a Imprensa local, promovendo espectáculos nos hospitais, sensibilizando os músicos cabo-verdianos para a solidariedade e, acima de tudo, alertando algumas autoridades portuguesas para as péssimas condições dos locais de residência onde os doentes são colocados, pouco ou nada agradáveis.

Enfim, quando pensávamos que as coisas poderiam ter tomado um caminho favorável, eis que nos chega ao conhecimento, a volta ao princípio de toda esta infeliz situação. Assim, nesta evidente falha dos organismos e de uma declarada ausência de vistoria social que pudesse ser desenvolvida pela Embaixada sobre as condições em que vivem os doentes cabo-verdianos, somos alertados a uma distância de quase três mil quilómetros para a situação, diria, desumana em que se encontram os doentes deslocados da sua terra em absoluta condição de inferioridade física, para serem humilhados em pensões imundas (que na Holanda, França, Luxemburgo ou Alemanha, países que muito bem conheço, nunca teriam licenças para funcionar), que se dedicam apenas a receber os pagamentos ao fim do mês, tratando as pessoas como se fossem lixo. Desta feita, em Dezembro, depois de uma campanha de alguns meses empregue numa bem sucedida angariação de fundos através da comunidade local e das comunidades limítrofes à Holanda, por entre juntar quantias financeiras, roupas e brinquedos, até juntar algumas ajudas que também nos chegaram de Itália, vindas de alguns elementos da nossa comunidade naquele país em resposta ao apelo lançado e com o apoio das emissoras locais, lá arrancámos para Lisboa, um pequeno grupo da DANY FOUNDATION, primeira Fundação do género aqui na Holanda e já elogiada pelos organismos oficiais locais da Província Norte da Holanda pelo seu desempenho de apoio aos imigrantes e acções de solidariedade em Portugal e Cabo Verde.

Visitámos pensões, hospitais, lares hospitalares e casas particulares onde doentes de longa duração moram. Foi um autêntico choque compreender que afinal pouco, ou nada mesmo, foi feito. Os doentes ficam entregues ao abandono, às lixeiras das pensões onde vivem, carência alimentar, ausência de higiene, quartos absolutamente insalubres e cheios de humidade, desprezo praticado por parte dos donos das pensões. Vê-se que as pessoas são humilhadas e discriminadas, como se dizia antigamente (e ao que parece ser ainda hoje prática): «São pretos», por isso não precisam de tanto, muito menos respeito.

Entretanto e estranhamente, também descobri noutros locais, alguns poucos doentes, que obtêm um tratamento muito melhor, com melhor subsídio, pago atempadamente a viverem em pensões já com melhores quartos e absoluta higiene mais digna de um país europeu como é o caso de Portugal. Mais mediante o protocolo assinado com os PALOP, toda esta situação passou a ser um caso também de Direitos Humanos.

Senhor Embaixador vai perdoar-me. Segui com interesse através da imprensa portuguesa o seu discurso sobre esta situação mas, olhando para a realidade, depois de conhecida e sabendo que o senhor foi anteriormente, também um emigrante morando em Portugal, tem experiência associativa, através da sua convivência com a comunidade e estudado nesse país, é supostamente estranho que a sua prática diplomática não tenha absorvido esse tal reconhecimento nem sabedoria( ?), tal como a demagogia apregoada pelo senhor Bispo ARLINDO FURTADO em defender as pessoas indefesas apenas pela via dos discursos bonitos. A isso, aqui na Holanda, chama-se de HIPOCRISIA, IRRESPONSABILIDADE e naturalmente COBARDIA SOCIAL. É fingir que se quer resolver os verdadeiros problemas das pessoas, mas sem os resolver, quando estes problemas dos doentes cabo-verdianos, deslocados, em primeiro lugar, são uma questão do Governo de Cabo Verde, mediante os acordos assinados, bem como do Governo de Portugal, que os aceita e promete tratar, e, não é de todo, encargo da sociedade civil.

O problema dos doentes de Cabo Verde deslocados para Portugal não pode nem deverá servir para alimentar o ego de algumas pessoas, que ainda que pelo sofrimento alheio, anseiam conquistar mérito na sociedade e oferecer espectáculo nada digno, bastante lamentável e escandalosa esta forma de aproveitamento; algo que também pude observar.

Assim, a nossa Comunidade de Amsterdão e a de Roterdão, através duma proposta apresentada, lida e expressa através da nossa Campanha nas emissoras KOA e KOZ, vimos por este meio, reclamar um pedido e sensibilizar Vossa/Exc. que passa pelo seguinte :

1.Queremos que seja declarada oficialmente a público a situação dos doentes em Portugal.

2.Queremos esclarecimentos da parte do Governo de Cabo Verde.

3.Queremos dignidade para os doentes.

4. Queremos uma secretaria de inspecção para controlar a situação dos doentes em Portugal.

5. Transparência e esclarecimento na distribuição dos apoios financeiros para este fim.

Na nossa acção e actividades várias em Lisboa resumindo-se a duas semanas de visitas, compreendemos não ser possível resolver esta situação com saquinhos de comida, roupas usadas para tapar o frio, latinhas de azeite, alguns envelopes com o apoio das outras comunidades em actos de solidariedade que possam eliminar problemas tão graves e até traumas. Ajudam, sem dúvida, e aliviam certas frustrações, fazem ver uma luz no rosto das pessoas, a volta do optimismo e da esperança que afinal há gente atenta a olhar por eles, mas esse alívio não chega. O problema é deveras complicado e exige medidas e atenção das entidades fiáveis e das autoridades competentes.

No meu bloco de apontamentos estão os nomes das pessoas, crianças incluídas, as doenças, os tratamentos, locais onde residem, nomes dos hospitais, chegadas, permanências, doenças, tempo de espera, etc.

Pela maçada que será para si, e mediante o pouco tempo que tem para atender a estas coisas, vou apenas focar-lhe alguns destes casos que certamente desconhece: o de uma jovem doente de Santo Antão, que recebe apenas 65 euros e que ainda assim chega com dois meses de atraso. Come pão e bebe chá, fazendo tratamento de cancro. Não é caso único, pois, reparei que alimentação cuidada para certos doentes é uma absoluta miragem. Porém, aparecem aqueles que chegam a ter sete meses sem receber qualquer suporte financeiro para as despesas mais necessárias. Outro senhor do Fogo junto com a mulher, internados dizem nada receber, têm apenas senhas do hospital para almoçar e jantar na cantina do IPO.

Há desespero nas pessoas, chegam a caminhar horas até poder chegar à Embaixada na esperança de serem atendidos e, acontece que por vezes, imagine-se, são ali naquela que deveria ser a «sua casa», a pontinha da nossa terra, novamente escorraçados e mal atendidos por funcionários em nada vocacionados para estes problemas. Há doentes que se deitam em lençóis sujos onde depois arranjam infecções cutâneas, criam alergias, como é o caso de uma jovem vinda de S.Vicente com o filho. Dormem os dois numa cama, num quarto sem condições, onde pagam por mês 150 euros. Verdadeiramente ultrajante.

Aconselho o senhor a visitar a pensão do largo do Calhariz, com ratos e outras imundícies. O proprietário, creio de origem indiana ou paquistanesa (?), não deixou os repórteres da RTP-África entrarem para que se pudesse filmar uma reportagem com estes doentes. Foi autoritário e altamente racista na sua dimensão de ser. Para finalizar, a história da mãe e do pequeno Patrick, uma criança deslocada de Cabo Verde para ser operada ao coração; ao chegar ao aeroporto às 09h00, ali ficaram sem saberem nada, sem comer, completamente desnorteados, abandonados até às 16h00, momento em que os vieram buscar, despachados à porta da pensão sem conhecerem nada nem ninguém. Quanto entraram no quarto, sem lençóis nem condições de higiene, nem sequer conseguiram comer nesse dia, passando o resto da noite sem dormir, porque pensavam que tinha havido algum erro por parte da Embaixada. Esperaram que os viessem buscar, em vão.

Digníssimo senhor Embaixador Arnaldo Andrade, acha que há alguma pontinha de dignidade nisto? Estamos a tratar com pessoas ou com animais? Olhe que até os animais aqui no Norte da Europa têm os seus direitos garantidos. Qualquer cidadão que trate mal um qualquer animal pode incorrer numa pena de prisão de seis meses. Saiba pelo menos que aqui na Holanda a Polícia Municipal agora durante os dias de Inverno, inicia logo de manhã distribuição de comida pelos jardins das cidades para que estes tenham de comer; enquanto os nossos conterrâneos mendigam?

Não gostaria de frisar, porque não faz parte da minha pessoa nem estilo, mas não tendo outra alternativa, em virtude do oportunismo, e da falsa verdade, sobre o péssimo papel desempenhado pela senhora Teresa Noronha, que no proveito de uma amizade eu pensava ser sincera, deixei a essa senhora indicações para a recolha de elementos e assim pudéssemos desenvolver este apoio numa melhor coordenação futura, desde a minha primeira visita a Lisboa. Qual o meu espanto, quando sou informada por um outro grupo de senhoras desta mesma amizade, que Teresa aparecera a propagandear uma associação intitulada «Girassol»? Mais uma vez são os cabo-verdianos tratados como “ingénuos”.

Ali deixei ideias, a estratégia e a repetição das coisas que tinham ficado combinadas e que nada mais são do que os Estatutos da Dany Foundation. Incrível, porém, é a rápida importância que os senhores de forma lamentável deram a esta senhora de poucos escrúpulos com as mordomias do costume de uma terra realmente hábituada a trafulhices. Sem dúvida que essa senhora descobriu a pólvora?!! Até a Câmara Municipal de Lisboa foi logo tão lista em dar um local aonde colocar a sua associação. Coisa incrível num país onde eu sei que existem associações e outras organizações bem mais sérias e de enorme utilidade pública que esperam infinitamente por uma casa onde exercerem as suas actividades. Afinal a miséria de uns quantos ainda serve para engrandecer o ego doutros na sua passagem pelas feiras das vaidades.

Sinceramente, entre os discursos demagógicos para combater a pobreza e esta senhora dona Teresa, mostra bem como se junta a irresponsabilidade à hipocrisia para no final nada ser feito em prol de quem realmente mais precisa. E estamos nós no século XXI.

Pois, senhor Embaixador, esta missiva é uma pequena amostra daquilo que eu pude assistir em duas semanas de actividade junto aos doentes cabo-verdianos, agradecidos que ficaram no jantar oferecido na “Casa da Morna” a mais de 50 pessoas, uma noite feliz onde foram distribuídos desde presentes a envelopes com dinheiro, pois antes já haviam recebido roupas, sapatos e até cartões telefónicos para poderem chamar os seus entes em Cabo Verde.

Para este jantar também foram pessoalmente convidados doze jornalistas dos vários jornais e TV’s da cidade de Lisboa, incluindo a RTP-África. E apesar de aparecerem apenas dois, não se deixou de fazer uma reportagem mais tarde divulgada na Holanda, Luxemburgo e na Itália. Aprende-se que em Portugal apenas interessa o futebol, o fado e a Nossa Senhora de Fátima, a herança salazarista para a ausência de valores e sentido profissional, a falta de frontalidade daquilo que já conhecíamos e apenas acabámos de confirmar que quem não tem cunhas ou faça parte do circo, pura e simplesmente não existe. Em Portugal, seriamente, ninguém quer saber dos doentes de Cabo Verde e não só. Pois a situação vai muito mais além disso.

Felizmente que o mundo não é só Cabo Verde e Portugal. Assim, a DANY FOUNDATION, vem informá-lo de que decorre um abaixo-assinado junto das comunidades contra essa situação desumana e de que vamos avançar para o Parlamento Europeu, Comissão Europeia, Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, Provedor de Justiça Europeu e para quantas mais instâncias nos puderem escutar onde reclamaremos d’esta desumana situação de dois países que assinam acordos e depois não os cumprem. Mais, irá uma equipa de jornalistas em breve a Lisboa recolher imagens das habitações imundas e recolher declarações dos doentes para que seja lançada nos canais da NOS, da BBC e no espaço da EuroNews. Já confirmaram a aceitação destas reportagens.

Neste momento está já uma total estratégia montada para reportagens com fins de esclarecimento e denúncia sobre esta situação escandalosa junto destas autoridades internacionais, onde gostaria desde já de obter uma resposta da parte de sua Excelência, porque o grupo de jornalistas a deslocar-se da Holanda a Lisboa também quer uma entrevista com o senhor Embaixador.

O site da fundação pode ser consultado em www.danyfoundation.com
Sem mais, agradeço a sua atenção.

Grace Beatriz

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