ACTUALIDADE

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Caso Alex Saab e implicações diplomáticas: Preso venezuelano quebra silêncio com carta de denúncias de maus-tratos e injustiça dirigida ao Primeiro-ministro de Cabo Verde 11 Agosto 2020

O caso Alex Saab, tido como suposto testa-de-ferro do presidente Nicolás Maduro preso em Cabo Verde para ser extraditado para os EUA, está assumir contornos que poderão ter consequências diplomáticas imprevisíveis para Cabo Verde. Segundo a defesa, numa carta aberta dirigida ao Primeiro-ministro, Saab estranha “inação” de Ulisses Correia e Silva, ao mesmo tempo que contesta o sistema judicial vigente, denunciando irregularidades alegadamente graves em termos de direitos humanos: informa que passou dois dias na cela sem luz e comida e foi lhe negado a assistência médica apropriada como alegado doente de cancro e por isso já perdeu 20 quilos de peso.

Caso Alex Saab e implicações diplomáticas: Preso venezuelano quebra silêncio com  carta de denúncias de maus-tratos e injustiça dirigida ao Primeiro-ministro de Cabo Verde

O SOS está lançado. Em comunicado remetido ao Asemanaonline pela equipa jurídica, o «Enviado Especial da Venezuela» salienta, na missiva que remeteu, esta segunda-feira,10, ao chefe do governo de Cabo Verde, «a grande injustiça cometida» no seu julgamento. “Vejo-me obrigado a escrever-vos, dada a grande injustiça cometida. Foi-me negado o direito a uma audiência e a minha equipa de advogados não teve acesso ao relatório do procurador, algo sem precedentes na história jurídica de Cabo Verde", afirma Alex Saab, expondo a sua posição relativamente ao processo de extradição para os Estados Unidos da América (EUA) a que está sujeito.

Segundo a mesma fonte, confrontado com a negação do seu direito a declarar em tribunal, Alex Saab decidiu assim quebrar o seu silêncio «numa carta manuscrita desde a prisão da Ilha do Sal», onde em breve cumprirá dois meses de prisão «em condições muito prejudiciais para a sua saúde».

Na carta, o alegado diplomata preso conta a sua carreira profissional e responde às acusações que lhe são feitas pelos Estados Unidos da América num processo que, como a defesa salientou no seu documento de oposição, "é um processo político" que colocou Saab no centro da batalha dos EUA para derrubar o Governo da Venezuela.

Um empresário do setor têxtil e da construção

Conforme a defesa, Alex Naaim Saab conta na sua carta como, depois de ajudar no negócio têxtil da família, fundou a sua própria empresa de vestuário. "Aos 18 anos criei a minha própria marca de roupa e aos 20 tinha uma empresa familiar com 2.000 trabalhadores diretos e 10.000 indiretos. A empresa produzia mais de 12 milhões de peças de vestuário por ano e exportava para 20 países. Quando tinha 21 anos, já era proprietário de uma das maiores empresas têxteis da Colômbia. Combinei o meu trabalho no mundo da moda com investimentos em projetos de construção que permitiram a construção de mais de 1.000 apartamentos privados e sem subsídios ou ajudas governamentais", descreve Saab.

Este explica, na missiva em causa, que conta tudo ao Primeiro-Ministro cabo-verdiano para mostrar que é "uma pessoa normal com um passado comum que, graças a trabalho árduo, foi capaz de construir um negócio de sucesso no setor privado sem receber benefícios governamentais”.

A fazer fé na mesma fonte, foi precisamente esta experiência que lhe valeu a confiança da Venezuela, uma vez que o seu profissionalismo sempre prevaleceu, "lidando com condições de pagamento difíceis, devido aos bloqueios que a Venezuela enfrentou, e tendo mesmo de utilizar os seus próprios fundos para cumprir contratos”.

Esclarecimentos sobre acusações dos EUA

Na carta que vimos citando, Alex Saab é particularmente duro com as autoridades norte-americanas, que acusa de vestirem um uniforme e de se autodeclararem "polícias do mundo". "Os Estados Unidos tornaram público o seu objetivo de mudar o regime na Venezuela e a sua concretização brutalizou o povo e a economia da Venezuela, não pensando nas consequências. O seu desejo de alargar as suas reivindicações de forma extraterritorial é contra todas as leis internacionais e não existem precedentes no nosso tempo", afirma Saab de forma contundente.

Relativamente às acusações que lhe são dirigidas pelos Estados Unidos, o «Enviado Especial da Venezuela» afirma que "fui acusado, sem que fosse fornecida a mínima prova contundente ou outras, de alegados crimes, cuja única ligação com os Estados Unidos da América é a existência de pagamentos feitos para ou através de contas bancárias norte-americanas. Pagamentos que não fiz pessoalmente e dos quais não fui responsável, sendo obrigações contratuais ou faturas de cartão de crédito para as quais não eram oferecidos métodos alternativos de pagamento". Sublinha que estas acusações também foram investigadas em duas jurisdições (Equador e Venezuela) e foram rejeitadas.

Irregularidades no processo

"Em agradecimento pelo cumprimento das minhas obrigações e contratos, em abril de 2018, a Venezuela reconheceu a minha contribuição, nomeando-me Enviado Especial, com a imunidade diplomática e os privilégios que acompanham tal posição. Dada a atitude de vingança e politicamente orientada da Casa Branca, fui encarregado de me reunir e negociar com governos estrangeiros e empresas privadas para criar novos canais de obtenção e entrega de muito necessários alimentos, medicamentos básicos e peças sobressalentes para a indústria petrolífera”.

É por isso que, "quando fui detido de forma ilegal em Cabo Verde a 12 de junho, estava a viajar para o Irão numa missão humanitária especial sob o título de enviado especial, com total imunidade ao abrigo do direito internacional", indica Saab na carta remetida ao Primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva.

Denúncias graves: Dois dias sem comer com cancro e perda de 20 quilos de peso

O documento faz questão de realçar que, nesse mesmo 12 de junho, conforme descrito por Alex Saab, "quando o avião em que eu viajava para cumprir a minha missão especial fez uma paragem técnica em Cabo Verde, um oficial, que não se identificou, mas falou inglês perfeito, forçou-me a sair do meu avião diplomático, usando um alerta vermelho da INTERPOL como pretexto. Eram 20:00 em Cabo Verde, 23:00 em Lyon, onde se encontra a base da INTERPOL. Sabemos que o alerta vermelho só foi emitido a 13 de junho, pelo que fui basicamente sequestrado. Do aeroporto, o polícia trancou-me numa cela durante dois dias sem comida nem luz. Durante este período, o oficial insistiu "fortemente" para que eu assinasse a minha ordem de extradição voluntária, o que recusei".

Desde então, como a sua defesa denunciou em várias ocasiões, as condições prisionais do Enviado Especial têm sido sub-humanas e "apesar de ter fornecido provas claras e inequívocas de graves problemas de saúde, foi-me facultado o acesso a cuidados médicos rudimentares e perdi quase 20 kg de peso; tudo isto apesar de ter sofrido de cancro. Tenho notado que, no vosso país, até os traficantes de droga são melhor tratados e podem cumprir prisão domiciliária; estas opções não me têm sido disponibilizadas, apesar de ser um enviado especial».

"Finalmente, Alex Saab termina a sua carta ao Primeiro-Ministro cabo-verdiano, lamentando que "existam países como os Estados Unidos da América que consideram Cabo Verde um país de segunda categoria que não merece um nível adequado de respeito", e pede um tratamento justo por parte do sistema de justiça, algo que, segundo ele, não aconteceu até agora.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade





  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    publicidade

    Newsletter

    Abonnement

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project