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Caso Giovani: Um relato ponderado, de apelo à calma, na certeza de que "os culpados vão cumprir pena" 09 Janeiro 2020

O cabo-verdiano Óscar Monteiro, de 36 anos, que vive em Bragança, onde chegou há 16 anos para estudar e acabou por ficar, falou à Lusa sobre o caso Giovani que acompanhou desde 21-12, como representante dos estudantes cabo-verdianos nessa cidade tolerante, que "não tem um histórico nem de perto, nem de longe" de violência.

Caso Giovani: Um relato ponderado, de apelo à calma, na certeza de que

Óscar, que trabalha com a associação de estudantes cabo-verdianos na região, contou à agência noticiosa que soube logo da agressão a Luís Giovani dos Santos Rodrigues, de 21 anos, que tinha chegado há pouco mais de um mês à região para estudar na escola de Mirandela do IPB-Instituto Politécnico de Bragança.

O jovem estudante, segundo o relato de Óscar, encontrava-se a passar o fim de semana com outros estudantes cabo-verdianos em Bragança quando, na madrugada de 21 de dezembro, depois de uma rixa num bar, foi encontrado ferido.

Óscar acompanha o caso desde essa madrugada e, segundo o relato que os conterrâneos lhe fizeram, Giovani tinha saído com três amigos cabo-verdianos.

Atacados por 15 pessoas

Dentro do bar Lagoa Azul terá havido um “mal-entendido” entre o mais velho do grupo de quatro cabo-verdianos e um outro rapaz. Os responsáveis do estabelecimento intervieram e parecia que os ânimos se tinham acalmado.

Mas ao saírem, relata Óscar Monteiro, os quatro cabo-verdianos foram interpelados já na avenida Sá Carneiro, a alguns metros do bar, por um grupo que começou a agredir o amigo de Giovani envolvido na contenda dentro do bar.

Óscar disse que "os miúdos falam em 15 pessoas" e os outros três cabo-verdianos o que fizeram foi "tentar parar a situação". Terá sido nessas circunstâncias que Giovani foi atingido "com uma paulada na cabeça".

Os quatro amigos fugiram por uma rua paralela à avenida Sá Carneiro. Voltaram a entrar na avenida mais à frente e foi nessa ocasião que dois dos amigos, ao aperceberem que tinham perdido a carteira e telemóvel, voltaram atrás.

Giovani terá ficado com o outro colega. Mas este pouco depois correu para a casa que ficava perto. Giovani ficou para trás e viria a ser encontrado caído no chão.
Segundo o relato de Óscar, com base no que lhe disseram, quando os outros três voltaram para junto de Luís Giovani já a Polícia e os bombeiros estavam no local.

Os bombeiros tinham sido chamados para um alcoolizado caído no chão, tendo a ocorrência sido identificada tecnicamente como “intoxicação”, que engloba os excessos de álcool.

Agressores conhecidos, têm histórico de violência em cidade pacata

Óscar Monteiro afirmou conhecer os alegados agressores de quem fala como “pessoas que já têm histórico” de violência, mas rejeita que tenha havido motivação racial.

"Já vivo na cidade de Bragança há muitos anos, já conheço muita gente, já conheço algum pessoal do grupo, não me parece que façam isso por motivo racial, porque até para se ser racista tem de se ter alguma formação", declarou.

Não acredita também que se trata de um grupo tipo ‘gangster’, mas de "pessoal conhecido uns dos outros, familiares que convivem juntos sempre, estão na noite numa altura festiva e nesse momento uns têm problemas e os outros metem-se".

Nem ele nem outros estudantes comunicaram o caso ao Politécnico de Bragança, que divulgou uma nota a dar conta de que tomou conhecimento do mesmo depois da morte do estudante cabo-verdiano.

Óscar justifica que aguardava a evolução do estado de saúde de Luís Giovani, que se encontrava em coma induzido num hospital do Porto.

A comunidade cabo-verdiana é a maior entre os cerca de três mil estudantes estrangeiros de 70 nacionalidades que frequentam o Politécnico de Bragança e representam um terço dos alunos.

"Bragança é procurada mesmo por essa razão de ser uma cidade tolerante, acolhedora, que nós chamamos de segunda casa. Espero que as pessoas não confundam um grupo de pessoas com a cidade de Bragança, não podemos estar a generalizar dessa forma", defendeu.

Cabo-verdianos mais revoltados com o caso "são os que não estão em Bragança", cidade acolhedora

Para Óscar Monteiro, os cabo-verdianos que mais se revoltam com a situação "são os que não estão em Bragança, porque os que vivem e conhecem Bragança não sentem essa revolta tanto como as de fora".

"As pessoas de Bragança percebem que não é um ato recorrente porque se fosse não estávamos aqui tantos", afirmou o cabo-verdiano que se fixou na cidade onde casou e criou uma empresa.

«Eu não me importo de atender mil chamadas ao dia para dizer ‘é uma situação pontual, vocês não têm de se assustar até porque a PSP, o IPB todos estão aqui para vos assegurar que é uma situação que não se repete’», acrescentou.

A comunidade cabo-verdiana em Bragança o que quer "é que a justiça seja feita" e quem está mais distante "também quer, só que estão a expô-lo de forma diferente", com mais pressa como aconteceu com as marchas de solidariedade convocadas antes de a comunidade cabo-verdiana de Bragança tomar qualquer decisão.

“Eu, que estou completamente inserido no caso, sei perfeitamente que a justiça vai ser feita, mas quem não está muito próximo do caso pensa que há impunidade. Eu tenho cabo-verdianos que me ligam e me ofendem, que me dizem que não estou a defender, mas nós estamos a fazer tudo como deve ser feito, dentro da lei. Eu não posso obrigar ninguém a ser preso sem que se comprovem as coisas”, apontou Óscar Monteiro na entrevista à Lusa.

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