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Caso Khashoggi: "Perdoamos aos que mataram o nosso pai e esperamos em Deus" 23 Maio 2020

A declaração dos filhos de Jamal Khashoggi feita esta sexta-feira, 22, pode vir a ter um valor de perdão parcial e até total, de acordo com a lei islâmica, sobre a pena capital a que foram condenados, em dezembro transato, cinco dos homicidas do jornalista. Khashoggi exilado desde setembro de 2017 nos Estados Unidos foi durante anos muito próximo do príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman. Tornaram-se inimigos figadais e a responsabilidade do assassinato no consulado saudita na Turquia, em outubro de 2018, paira sobre o soberano ’de facto’ do reino saudita.

Caso Khashoggi:

Salah  Khashoggi, um dos filhos do jornalista, escreveu na manhã de hoje na sua conta Twitter: «Nesta abençoada noite do mês abençoado do Ramadão evocamos a palavra de Deus "Se perdoares e fizeres a paz, Deus recompensar-te-á". Por isso, nós os filhos do Mártir Jamal  Khashoggi vimos anunciar que perdoamos àqueles que mataram o nosso pai, e esperamos em Deus omnipotente"».

A clemência declarada pelos filhos de Jamal Khashoggi, que invocam o perdão de hoje que será recompensado por "Deus omnipotente", acontece ano e meio depois do assassinato, em 02 de outubro de 2018 no interior do consulado-geral saudita em Istanbul e seis meses depois da sentença do julgamento em dezembro último.

Mais de catorze meses sobre o crime cometido no interior do consulado saudita em Istanbul, vitimando o jornalista Jamal Ahmad Khashoggi, destacado crítico do regime saudita, um tribunal em Riad confirmou, em 23 de dezembro último, a sentença à pena capital de cinco dos onze réus, cujos nomes nunca foram revelados. Três foram condenados a cumprir 24 anos de prisão. Entre os três considerados inocentes e mandados em liberdade, estão duas "figuras de topo próximas do príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman".

"Por falta de provas", o cônsul-geral saudita em Istanbul, aí detido desde o ano passado, foi absolvido. Mohammed al-Otaibi foi libertado, de imediato. Também por falta de provas, o general Ahmed Al-Assiri e o conselheiro Saoud Al-Qahtani foram ilibados.

Qahtani era o número-dois da segurança saudita e muito próximo do príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman cuja implicação no caso foi suscitada desde o início.
O número-um da segurança saudita, o general Ahmed Al-Assiri, nunca foi a julgamento, embora suspeito de ter supervisionado o assassinato do jornalista que entrara em colisão com o príncipe MBS.

Khashoggi tinha sido o mentor do progressismo na imprensa saudita e fora muito próximo do príncipe MBS. Mas após a guerra no Iémene, o afastamento de figuras de proa do regime acusadas de corrupção e a aproximação a Trump, o jornalista em setembro de 2017 refugia-se nos Estados Unidos onde passa a escrever uma crónica mensal no Washington Post fustigando MBS.

O último artigo de Khashoggi, publicado 15 dias depois da morte, mantinha a crítica ao "conservantismo persistente sob a fachada de progressismo" de Bin Salman. O príncipe herdeiro e homem-forte da monarquia absoluta saudita é o foco das críticas, acusado quer por tomar medidas intempestivas, como a guerra no Iémene, a detenção de críticos internos, quer por estar fechado ao diálogo dentro e fora do reino.

Destaca-se ainda nessa crónica póstuma de Khashoggi a sua esperança de que no reino saudita, enfim aberto à liberdade de imprensa que a primavera árabe (de 2011) trouxe ao mundo árabe, "o povo possa ser capaz de resolver os problemas estruturais do seu país".

Em 16 de novembro de 2018, apenas 45 dias após o crime, a CIA anunciou que Bin Salman foi o mandante do homicídio. Sem consequências: Trump reforçou os laços que começou a entretecer nove meses antes, em março, com o "príncipe renovador", Mohammed Bin Salman. A amizade Trump-Salman é alimentada pelo ódio comum ao Irão, dizem os politólogos.

E também não houve até agora, mais de onze meses depois, quaisquer consequências do relatório de 19 de junho transato, em que a ONU pede sanções financeiras contra o filho e herdeiro do rei Salman. O relatório aponta que há "elementos probatórios fiáveis" para incriminar o príncipe Mohamed Bin Salman na morte de Jamal Khashoggi, a 02 de outubro, dentro da embaixada saudita na cidade mais populosa da Turquia (e da Europa).

Crítico dos laços entre Trump e Bin Salman

Na sua habitual coluna mensal, Khashoggi assinava em 13 de novembro de 2017 a peça "Arábia Saudita está a criar uma enorme confusão no Líbano", sob o pano de fundo da demissão do primeiro-ministro libanês, Saad Hariri. O jornalista criticava o facto de o reino saudita ter-se colocado assim contra os seus aliados sunitas no governo libanês que pediam o regresso do primeiro-ministro, que fez o seu pedido de demissão em Riad, despoletando suspeitas de que o príncipe Mohammed Bin Salman o teria pressionado a isso.

Nesse longo artigo, Khashoggi apontava o erro estratégico de MBS — ao tomar uma posição de força em vez de tentar a via anti-conflito perante o Hezbollah — que atribuía à influência do presidente Trump. A existência de "laços fortes" entre Trump e MBS manifestava-se em que "ambos acompanham Israel no desprezo que sentem pelo Irão e o aliado Hezbollah", lê-se nessa crónica publicada onze meses antes da última, de publicação póstuma.

Esse comportamento, alertava Khashoggi, "está a aprofundar os conflitos e a minar a segurança nacional não só da Arábia Saudita" — que apontava ser um oásis de estabilidade social, financeira e económica até há pouco — mas também de todos os países da região do Golfo como um todo".
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Fontes: Referidas/DW.de/BBC/NY Times/Arquivos.

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