OPINIÃO

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Caso do assassinato de Willy em Roma: O preço da integração 10 Setembro 2020

O que vai acontecer depois do funeral? Depois que a imprensa deixar de cobrir o caso Willy? O que acontecerá com os pais que perderam o seu filho amado para sempre? Que a justiça seja feita, aplicando uma pena exemplar para que tal crime nunca mais volte a repetir.

Por: Maria de Lourde Jesus*

Caso do assassinato de Willy em Roma: O preço da integração

O meu primeiro pensamento dirige-se à família Duarte Monteiro e ao Willy, o menino louvado e estimado por todos quantos o conheceram, e que agora, depois do brutal assassinato e da extraordinária ressonância mediática, já é conhecido por uma parte importante da sociedade italiana. Nunca se tinha visto um envolvimento tão enorme, da população aos políticos, de todas as tendências, mesmo daqueles que, com as suas palavras desrespeitosas aos imigrantes, na verdade, instigam e legitimam certos comportamentos violentos e que, como neste caso, acabam por escapar ao controlo.

Foi um crime atroz e monstruoso que chocou todos, deixando a população incrédula. Em abalroamento porque Willy era visto como um jovem muito especial. Um filho que todos os pais gostariam de ter. Um jovem culto, desportista, trabalhador; com sentido de responsabilidade para consigo e para com os outros, um valor recebido pela educação familiar. Um rapaz respeitador da lei e bem integrado na sociedade italiana. Assim como os outros imigrantes e os seus filhos.

No caso do Willy, mas também de muitos outros como ele, encontraram a integração desde cedo. A integração já era uma conquista consolidada na família.

Lembramos aqui, que Willy é um cidadão italiano em todos os aspetos, mas também pertence a uma das primeiras comunidades de imigrantes na Itália, a partir do final dos anos 1960: a comunidade cabo-verdiana. Uma comunidade constituída na sua grande maioria por mulheres que integraram, apesar dos obstáculos e até onde se pode falar de integração, aproveitando as oportunidades que a Itália oferece aos imigrantes. Uma integração obtida com sacrifícios, suportada sobretudo pela primeira geração.

Conhecendo como conheço a nossa comunidade (porque estou em Itália desde 1971), sei bem o que digo. E, o que a comunidade cabo-verdiana conseguiu alcançar é desproporcional ao que deu a esta sociedade durante meio século de vida neste país.

Ao contrário dos seus assassinos, Willy nasceu no seio de uma família integrada, tanto na comunidade de origem quanto na sociedade italiana. Willy foi morto por defender um amigo, por tentar salvá-lo de um grupo de jovens italianos violentos, desajustados e incivilizados. Jovens marginais que não conseguiram se integrar nesta sociedade. E, são eles que criam os maiores problemas de convivência, são eles que apoquentam muitas outras famílias integradas. Foram eles que fizeram Willy pagar o preço da sua integração e o despeito da falta de integração dos criminosos.

O que aconteceu naquele momento em que se viram perante, por um lado, um rapaz bonito, rosto cândido, gestos de boas maneiras, um bom exemplo de como se comporta na sociedade, que interferiu na luta apenas para salvar o seu amigo branco e, por outro lado, os seus assassinos, rufiões e marginais de província? Será que eles não perdoaram o rapaz de pele escura por ser melhor que eles? É, daqui que entra a componente racista deste massacre.

As pessoas são racistas e nem sabem explicar porquê. Pelo menos, as suas explicações não possuam um raciocínio lógico, uma vez que os racistas são tão ignorantes e não preparados. Tão ignorantes que nem sabem disso. Outra coisa, os oportunistas são os que estão a explorar essa ignorância para fins políticos e para ganharem apoio.

Gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer aos três Presidentes das Câmaras, Pierre Luigi Sanna de Colleferro, Domenico Alfieri de Paliano e Felicetto Angelini de Artena, que se comportaram com muita dignidade nesta cena trágica e sentido de responsabilidade, dando uma imagem muito solidária e tocante das suas cidades e da Itália. Um acontecimento comovente que envolveu toda a população das três cidades, especialmente Colleferro, onde Willy perdeu a vida. Uma solidariedade muito forte, concreta e necessária, acompanhando os pais de Willy de perto e com muito carinho, dando todo o apoio possível. O próprio Autarca de Colleferro, Pierluigi Sana anunciou que eles serão parte civil no julgamento que será realizado contra os assassinos. A Câmara Municipal daquela localidade irá também colocar uma placa com o nome de Willy Duarte Monteiro no estádio da cidade, onde jogou inúmeras vezes.

Só podemos sentir-nos reconfortados por isso e por tantos outros gestos do Edil de Colleferro, apoiado pelos demais colegas e por toda a população local. Foi de igual modo declarado um dia de luto na cidade, no dia destinado ao funeral.

O que vai acontecer depois do funeral? Depois que a imprensa deixar de cobrir o caso Willy? O que acontecerá com os pais que perderam o seu filho amado para sempre? Que a justiça seja feita, aplicando uma pena exemplar para que tal crime nunca mais volte a repetir.

Quero aqui esperar e auspiciar que as iniciativas lançadas pelos autarcas sejam apenas o início de muitas outras iniciativas a serem implementadas também a nível nacional. Que o assassinato de Willy toque a consciência das pessoas e leve-as a pensar nas coisas mais importantes da vida, aquelas a serem priorizadas em prol da convivência de todos os cidadãos desta nação, envolvendo famílias, escolas, igrejas, associações de imigrantes, alargando todos os espaços culturais, a todos os níveis, de forma a atingir toda a população nacional. Primeiro, é necessário investir numa política de integração, envolvendo as comunidades e todos os interessados, sobretudo os filhos dos imigrantes.

* Jornalista e emigrante em Itália

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