OPINIÃO

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Caso da jovem assassinada na Boa Vista: “Basta de Gabrielas” e “Por uma lei Gabriela” 06 Novembro 2020

Gabriela (ver foto no roda pé e junto dos autores deste artigo na parte inferior) sabia que a saída da ilha da Boa Vista era talvez a última oportunidade de se salvar das várias ameaças e perseguições e de recomeçar a sua vida junto aos seus filhos e família em Ponta do Sol. Infelizmente, no dia 14 de outubro, o ex-namorado usando a sua “força e persuasão” conseguiu estar com a Gabriela para um contexto de verdadeira despedida, que se suspeita de tortura/morte, possivelmente de vários dias (o suspeito foi capturado no 10º dia após o alerta de desaparecimento da Gabriela), o que enquadra num sofrimento inimaginável para todos nós.

Por: Jorge Neves e Janira Neves *

Caso da jovem assassinada na Boa Vista: “Basta de Gabrielas” e “Por uma lei Gabriela”

Gabriela! Sinhazinha foi assassinada pelo marido Justino que em nenhum momento sequer lembrou da frieza que tratava a mulher, da pressão e de praticamente o diálogo estar focado num autoritário “deita-se, vou lhe usar”. No dia da sentença, Justino fez uma grande declaração de amor à mulher, amor esse que nunca foi traduzido durante a vida do casal, por exemplo, em respeito, carinho, amizade e liberdade. A ficção tem dado vários exemplos de crimes, principalmente da violência contra as mulheres, quer no casamento, namoro ou porque simplesmente a mulher decidiu pôr fim a uma relação.

O que a nossa Gabriela Évora, mais conhecida por Gaby (31 anos de idade), sofreu é o espelho da nossa triste realidade. Gabriela foi vítima de um crime horrível, em que o ex-namorado (o término da relação tinha pelo menos um ano) é o principal suspeito. Gabriela sofria agressões físicas e psicológicas com alguma frequência. O sangue dela há muito tempo que estava nas ruas de Rabil (Ilha da Boa Vista) e pela violência já tinha perdido um bebé. Tempo depois decidiu acabar o relacionamento em mais uma tentativa desesperada de defender a sua vida e proteger os seus três filhos de uma educação com espelho na violência doméstica. Infelizmente, para Gabriela, nem a sociedade civil que bem conhecia o caso, nem o poder policial e judicial puderam salvar-lhe a vida. Gabriela sabia que a saída da ilha da Boa Vista era talvez a última oportunidade de se salvar das várias ameaças e perseguições e de recomeçar a sua vida junto aos seus filhos e família em Ponta do Sol. Infelizmente, no dia 14 de outubro, o ex-namorado usando a sua “força e persuasão” conseguiu estar com a Gabriela para um contexto de verdadeira despedida, que se suspeita de tortura/morte, possivelmente de vários dias (o suspeito foi capturado no 10º dia após o alerta de desaparecimento da Gabriela), o que enquadra num sofrimento inimaginável para todos nós.

A violência baseada no género, mas principalmente contra as mulheres com pelo menos 15 anos de idade em Cabo Verde é uma realidade, uma dura realidade que insistimos em esconder com um tratamento superficial. Estamos chocados hoje, mas devíamos estar já há mais de 20 anos. As mulheres são constantemente maltratadas quer física quer psicologicamente. Não existe uma verdadeira proteção e as leis deixam muito espaço para falsas reconciliações, reconsiderações, reavaliações. Mas as marcas de qualquer tipo de agressão ficam para sempre. Acreditamos que as iniciativas “Basta de Gabrielas” e “Por uma lei Gabriela” – iniciativa que partiu de um grupo de mulheres em Ponta do Sol, Santo Antão – podem representar um grito de revolta das nossas mulheres cabo-verdianas pelo sangue derramado dentro e fora das suas casas. Já é hora de assumirmos a nossa responsabilidade e a luta pela prevenção e não pela reação; as iniciativas e outras ferramentas até agora disponíveis são úteis, mas insuficientes para um verdadeiro “BASTA DE GABRIELAS”.

Se não houver mais e melhores medidas, do poder político ao jurídico e policial, consciência de denúncia e de luta em cada cidadão em todos os sectores da nossa sociedade, TODOS terão sangue das “Gabrielas” nas mãos.

* Fotos juntas à da jovem assassinada (parte inferior).

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