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Cinema/ Realizadora Samira Vera-Cruz: “A minha paixão pelo cinema surge necessariamente do meu amor por contar histórias/estórias” 16 Maio 2021

A jovem realizadora e produtora cabo-verdiana, Samira Vera-Cruz, já passou por vários países fazendo o que mais gosta: Cinema. Tem o vasto percurso nesta área que considera ter herdado da família. Os seus filmes já foram exibidos em vários países de Africa, Europa e América. Contou-nos com agrado toda a sua trajetória, que lhe tem merecido prémios, através da sua entrega e gosto pela sétima arte. A pandemia não foi e nem continua sendo entrave para as suas realizações, com exceção de uma ou outra situação, mas, no entanto, têm adotado outros métodos para dar continuidade a sua atividade. Na opinião da realizadora, Cabo Verde tem muitos talentosos nesta área, mas “falta-nos um empenho sério no financiamento e apoio a formação e preparação de projetos”. A sua inspiração tem como fonte as pessoas através da convivência. Com toda essa sua trajetória, o incentivo que deixa as mulheres que querem enveredar por essa área é que “façam! Não esperem o momento certo, não esperem o financiamento necessário, não esperem que alguém vos vá facilitar algo!”.

Entrevista conduzida por: Arménia Chantre/Redação

Cinema/ Realizadora Samira Vera-Cruz: “A minha paixão pelo cinema surge necessariamente do meu amor por contar histórias/estórias”

Asemana - Quem é Samira Vera-Cruz?

Samira Vera-Cruz - Nascida em São Vicente, Samira Vera-Cruz é uma jovem realizadora e produtora Cabo-verdiana. Licenciada em Estudos Cinematográficos com especialização em Comunicação Internacional, na Universidade Americana de Paris, a cineasta tem experiência profissional em Cabo Verde, Angola e Moçambique. Fundou a sua própria produtora audiovisual, Parallax Produções, em 2016, começando as suas próprias produções. Arrancou a sua carreira enquanto realizadora com a curta-metragem Buska Santo, que foi mostrada em diversos festivais e ganhou o prémio de melhor ficção no festival Oiá, em 2017 (Mindelo, Cabo Verde). Vencedora do Concurso Curtas PALOP-TL UE 25 anos, representando Cabo Verde, a Samira realizou o seu primeiro documentário (Hora di Bai) que teve estreia mundial em Maputo, Moçambique. O Hora di Bai já foi exibido em diversos festivais e mostras em Cabo Verde, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, Portugal, Bélgica, Polónia, Guiné Bissau, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Madagáscar. Em 2017 estreou a sua primeira longa metragem de ficção, Sukuru, um thriller psicológico sobre a esquizofrenia e toxicodependência, feito inteiramente sem financiamento. É produtora local de várias produções audiovisuais internacionais, nomeadamente da França, Inglaterra e Nigéria. A jovem realizadora foi selecionada para o Talents Durban 2019, durante o Festival Internacional de Cinema de Durban, no qual participou com o seu projeto de documentário “E Quem Cozinha?” e recebeu o Prémio de Consultoria em Relações Públicas no fim da residência. Com o mesmo projeto, foi selecionada para representar Cabo Verde na residência de escrita de documentário da edição de 2019 do festival FIDADOC, em Agadir, Marrocos, e no Ouaga Film Lab 2020, em Ouagadougou, Burkina Faso, onde, com o produtor Pedro Soulé da Kriolscope, ganhou os prémios IDFA e World Cinema Fund/ Goethe Institute. A partir de 2020 tornou-se a coordenadora da Rede de Cinema e Audiovisual PALOP-TL.

Paixão pelo cinema e projectos para Rede de Cinema e Audiovisual PALOP-TL

Como explica a sua paixão pelo cinema?

- A minha paixão pelo cinema surge necessariamente do meu amor por contar histórias/estórias. Herdei-o da minha família em particular do meu avô paterno, Álvaro. Desde pequenina, antes mesmo de saber escrever, desenhei pequenas bandas desenhadas, depois comecei a escrever contos, passei para o teatro... sempre com essa premissa do story telling antes mesmo de o compreender completamente. Em casa, o meu irmão mais velho sempre me inspirou a aprender a filmar e editar. Confesso que nunca liguei muito até ir para a faculdade com o intuito de estudar teatro e acabar por experimentar uma cadeira de produção audiovisual por sugestão dele. Apaixonei-me imediatamente pela câmara e passei do palco para trás dela. A nossa cultura tem uma componente fortíssima da história oral. A maioria de nós lembra-se de alguma história contada por um avô/uma avó que o marcou quando era pequenino. O cinema para mim é a continuação dessa tradição num formato que o permite sobreviver gerações. Uma ferramenta para contar as histórias que precisam de sair de dentro do peito.

Que atividades tem feito no momento?

- Recentemente tenho-me dedicado mais à Rede de Cinema e Audiovisual PALOP-TL. Organizamos uma conferência que teve lugar este ano durante o Mercado Europeu de Cinema da Berlinale, em formato online, e uma chamada para projetos da região para serem apresentados no Mercado de Cinema de Durban. Neste momento estamos a trabalhar com os projetos selecionados para a preparação dos pitchs (apresentação formal dos projetos para potenciais financiadores e co-produtores). Encontro-me também a trabalhar no desenvolvimento do meu próximo documentário, “E quem cozinha”, em co-produção com a Kriolscope. Com a ajuda do produtor Pedro Soulé e do diretor de fotografia Nenass Almeida estamos a melhorar o projeto, a preparar um novo teaser e a submeter o projeto a diferentes fundos internacionais.

Pandemia de Covid-19 e desafios

Já que estamos em tempos de pandemia, como isso tem afetado a sua vida profissional?

- Inicialmente, a pandemia não afetou muito o meu trabalho porque me encontrava em fase de pós-produção, tradução e legendagem de um projeto e a escrever guiões para outro cliente. Nessa fase a minha rotina é sempre no escritório pelo que os meus hábitos não mudaram muito. Como trabalho muito para fora, não posso dizer que o impacto tenha sido tão grande como para outros colegas que dependem mais de clientes nacionais.

Esta doença tem sido um desafio para a sua carreira profissional?

- Senti sim um grande desafio no que toca à parte da produção em si. Houve muitas filmagens que tiverem de ser adiadas e há cuidados maiores para não nos colocarmos em risco nem aos nossos clientes ou personagens. Também em relação às viagens houve uma mudança dramática. Em 2019 pude estar em festivais e residências no Canadá, em Marrocos, na África do Sul, em Moçambique e em Macau, tendo passado por outros países, e em 2020 infelizmente a maioria desses eventos aconteceram em formato online. Contudo, pude estar em Ouagadougou com o meu produtor, Pedro Soulé, onde ganhamos dois prémios, o que foi uma grande vitória e bênção. Não ser possível viajar limita muito as nossas interações com colegas, potenciais financiadores e co-produtores, organizadores de festivais, etc, mas considero que também aumenta a possibilidade de mais profissionais participarem nesses eventos. Por ser online, não existe o custo de viagens e estadias e a maioria dos festivais e residências aumentaram o número de participantes. Também facilita a comunicação direta e continuação de contacto com profissionais do mundo inteiro. Como todos os grandes desafios que não podemos controlar, enfrento esta pandemia com todos os devidos cuidados, mas sempre com a postura de ver o lado positivo e trabalhar para encontrar soluções.

Inspiração e filmes produzidos

O que mais lhe inspira para criar coisas novas?

- Tudo o que mencionei acima. Para mim a inspiração vem das pessoas e o nosso país é particularmente inspirador nesse aspeto. Basta sair à rua, conversar com alguém, aprender algo novo... a maioria das vezes essa inspiração acaba por tomar forma nos meus sonhos. Sonho, acordo e escrevo a primeira ideia que tive. Depois de alguma pesquisa e organização começo a escrever o guião.

O que torna Cabo Verde especial para ti, já que viveu também em outros países?

- Cabo Verde é casa. Amo viajar e sempre vou querer conhecer sítios novos, outras culturas, línguas, povos, cozinha e arte, mas sempre vou querer voltar. A nossa cultura é de uma riqueza imensa e acho que muitas vezes nós não temos noção do quão abençoados somos. Não sei explicar que magia é essa, mas passa por sermos um povo misto de uma criatividade imensa. Passa por termos 10 ilhas completamente diferentes e, apesar de todas as dificuldades, sermos marcados pela alegria e pela música desde o berço. Podia dizer mil coisas e mesmo assim não serem suficientes. Recomendo sair de casa (com a máscara e todos os cuidados por favor!) e olhar em volta com olhos de ver. Será fácil entender porque sempre acabo por regressar a casa.

Quais os filmes produzidos até ao momento e os que tiveram mais visibilidade?

- Até ao momento realizei e produzi uma curta de ficção, Buska Santu, uma curta-documentário, Hora di Bai, e uma longa de ficção, Sukuru. O Hora di Bai, tendo o seu projeto sido vencedor do concurso Curtas PALOP-TL 25 anos, foi o que mais “viajou” tendo participado em festivais e mostras em cerca de 17 países. Contudo, considero que todos foram bem-sucedidos, principalmente tendo sido feitos com quase ou nenhum financiamento e ainda assim tendo conseguido participar em festivais e mostras em vários países e inclusive ganho prémios e menções honrosas.

Tem algum projeto em curso?

- Encontro-me há dois anos a trabalhar no meu próximo documentário “E quem cozinha”, que conta a história de resiliência da Patrícia, uma jovem de 24 anos, que sonha ser cantora. A Patrícia sofre de uma cegueira hereditária e degenerativa que herdou da mãe e passou ao filho mais velho. Essa limitação física foi usada como desculpa pelo pai, que abandonou a mãe, e pelo pai do seu primeiro filho, que alegaram que “sendo elas cegas, quem cozinharia para eles”, daí o título. Contudo, a Patrícia não se deixa abalar e persegue os seus sonhos. O documentário é uma co-produção entre a minha empresa Parallax Produções e a Kriolscope, com produção do Pedro Soulé e direção de fotografia do Nenass Almeida. Foi selecionado para o Talents Durban 2019, durante o Festival Internacional de Cinema de Durban, no qual recebeu o Prémio de Consultoria em Relações Públicas. Foi igualmente selecionado para representar Cabo Verde na residência de escrita de documentário da edição de 2019 do festival FIDADOC, em Agadir, Marrocos, e no Ouaga Film Lab 2020, em Ouagadougou, Burkina Faso, onde, ganhou os prémios IDFA e World Cinema Fund/ Goethe Institute.

O que significa para ti ver cada filme realizado?

- É uma sensação estranha. Damos tanto de nós para contar algo que acaba por ser como se um pouco de nós se separa e toma a sua própria forma. Acho que deve ser parecido com ter um filho: trabalhamos e damos à luz algo que direcionamos de uma certa forma, mas acaba por ter vida própria e crescer para lá de nós. Cada pessoa do público interpreta e sente de uma forma há diferentes meios de perceção. É uma sensação de dever cumprido, mas de algo que nunca nos abandona completamente porque cada vez que penso que um filme já deu o que tinha a dar há um convite para outra mostra ou festival e surge uma nova reação. Acabo por ser sempre surpreendida.

Cabo Verde/Cinema e mensagem às mulheres

Que observação faz sobre a sétima arte em Cabo Verde?

- Como em todas as outras formas de arte, o nosso talento é imenso. Igualmente é a nossa capacidade de contar histórias. Então, só por aí, a nossa vantagem já é grande. Contudo, falta-nos um empenho sério no financiamento e apoio a formação e preparação de projetos. Já falei diversas vezes sobre essas limitações em várias entrevistas e acredito verdadeiramente que nos falta a compreensão (tanto do público como dos privados) do quanto o cinema pode beneficiar a nossa economia para além da arte em si. Convido a todos a pesquisar o quanto países como a Namíbia, por exemplo, ganham quando recebem e facilitam (e reforço aqui o facilitar) grandes produções cinematográficas. O talento está cá. Faltam os meios. Ainda assim temos conseguido fazer muito. Há uma geração de talentos incríveis como o Nuno Miranda, a Lolo Arziki, o Neu Lopes, o Helder Doca, a Denise Fernandes, o Yuri Ceuninck, o PJ Marcellino, entre outros, que estão a trabalhar e a conseguir reconhecimento pelas suas incríveis obras. Falta apenas que esse reconhecimento seja refletido por cá.

Que incentivo deixas as mulheres que querem enveredar pela área do cinema?

- Façam! Não esperem o momento certo, não esperem o financiamento necessário, não esperem que alguém vos vá facilitar algo! Se alguém ajudar, excelente! Senão... façam até conseguir as condições certas! Muitos me criticaram por ter feito o Buska Santu sem financiamento. Tem falhas técnicas? Sim. Podia ser melhor? Com certeza! Mas permitiu-nos aprender. Permitiu-nos entender que é possível! E permitiu-nos estar no nosso primeiro festival nacional e representar Cabo Verde lá fora! Talvez se espera ainda não tivesse feito nenhum filme e ainda se continua apenas no sonho. Os sonhos são necessários e devemos sonhar grande! Mas o mais importante é passar à ação, colaborarmos entre nós e encontrarmos soluções.

Como se vê, como profissional daqui a 5 anos?

- Espero ter crescido. Quero aprender sempre com cada projeto, continuar a colaborar com os meus colegas que me inspiram e são verdadeiros amigos e lutar sempre para melhorar as condições do cinema e audiovisual nos nossos países. Espero já ter viajado mais e representado o nosso país da melhor forma. Quero manter a minha capacidade de me deslumbrar e apaixonar por temas enquanto melhoro as minhas capacidades técnicas e de transmitir ao público o que penso e sinto. Com certeza continuarei a fazer filmes, abraçando todas as dificuldades como desafios e sempre com a mentalidade de encontrar soluções em vez de problemas.

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