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Colonização: França de Macron faz ‘mea culpa’ por sistema de tortura na Argélia 13 Setembro 2018

Esta quinta-feira, 13, o presidente Emmanuel Macron visitou a viúva de Maurice Audin, um militante pela independência da Argélia morto em 1957, e entregou-lhe uma declaração sobre a existência de um “sistema de tortura que vitimou Maurice Audin”.

Colonização: França de Macron faz ‘mea culpa’ por sistema de tortura na Argélia

O passado colonial francês e os seus erros continuam a ser assumidos pela França de hoje, que faz ‘mea culpa’, segundo os media franceses conotados com o centro e a esquerda.

“A França tem de lhe pedir perdão”, disse ao meio-dia de quinta-feira, Macron à octogenária Josette Audin. Desde 1957, que esta francesa esperava ouvir do Estado francês o reconhecimento da verdade: o francês Maurice, de 25 anos, morreu em Argel executado pelo exército, porque era militante da independência da Argélia. Ela lutou 61 anos para que a verdade pudesse vencer a mentira.

“Disseram-me que tinham uma boa notícia para mim, que o meu marido fugira e que nunca mais souberam dele”. Viúva desde os seus vinte anos, Josettte contou na rádio mais uma vez, em março último, o que ouviu há sessenta e um anos da boca dos militares que prenderam o marido. Ela saiu de lá, “convencida de que eles o tinham matado”.

É uma vitória histórica, da verdade e da justiça: o Estado reconheceu “o assassinato, debaixo de tortura do exército francês” de Maurice Audin.

Co-responsável confessa: Sub-oficial matou Audin “à facada para fazer crer que tinham sido os árabes”

A ordem para executar o “traidor” Maurice Audin partiu do general Jacques Massu, comandante dos paraquedistas na batalha de Argel, e o seu vice, o general Paul Aussaresses, transmitiu-a ao subalterno que a executou.

O jornalista e escritor Jean-Charles Deniau relata ter em 2013 visitado o casal, a pedido da esposa do general a qual dizia que o peso do segredo já não a deixava dormir. O general falou para que “a sra Audin soubesse a verdade sobre o fim do marido”.

Audin foi morto “à facada para fazer crer que tinham sido os árabes”, confessou Aussaresses “para aliviar a consciência antes de morrer”, segundo o próprio. “Quem foi que assim decidiu? Fui eu!”, disse para o gravador de Audian, em agosto de 2013, quatro meses antes de morrer.

Treze anos antes, Aussaresses fora punido com a degradação de general para grau inferior e a perda da Legião de Honra, por ter defendido o uso de tortura na guerra da Argélia, nas intervenções públicas e numa entrevista ao ‘Le Monde’, em 2000. A indignação vinha não só da opinião pública mas também dos militares, que lhe reprovaram a publicitação dos métodos secretos usados na guerra da Argélia.

Um ano depois, na sequência do ’11 de setembro’, Aussaresses voltou a defender, em entrevista à cadeia norte-americana de televisão CBS, o uso da tortura agora contra a Al-Qaeda. O mesmo método que, nas décadas de 1960 e 1970, terá lecionado aos oficiais que iam para a guerra do Vietname, sendo ele adido militar na embaixada de França em Washington.

Em 2003 foi divulgado, em documentário, que desde que mudara para o Brasil em 1973, Aussaresses fora conselheiro dos regimes militares da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e Paraguai.
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Fontes: Le Monde, France 24/ TV5 Monde/LE Figaro. Foto: A Argélia recém-independente (1962) homenageou o combatente Maurice Audin, nascido em França, dando o seu nome a uma praça da capital, Argel. Esta sexta-feira, 14, a França atribui o nome desse professor da Universidade de Argel a uma praça em Paris. Mais de sessenta anos depois, a guerra da Argélia (1954-1962) ainda divide a França como mostra a atual clivagem, social e política, entre centro-esquerda e direita, sobre o reconhecimento das vítimas do “sistema de tortura” implementado pelo exército francês nos oito anos da guerra da Argélia pela independência.

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