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Como cientistas recriaram a voz de uma múmia do Egito de 3 mil anos 26 Janeiro 2020

Depois de 3 mil anos, cientistas conseguiram realizar o desejo manifestado por um sacerdote egípcio: ser ouvido após a morte.

Como cientistas recriaram a voz de uma múmia do Egito de 3 mil anos

A voz de Nesyamun foi reproduzida com um som parecido com uma vogal, que lembra o balido de uma ovelha.

O religioso viveu durante o reinado politicamente instável do faraó Ramsés 11, entre 1099 e 1069 a.C.

Como sacerdote em Tebas, Nesyamun precisava de uma voz forte para conduzir os rituais, que muitas vezes envolviam cantorias.

Quando ele morreu, sua voz se calou, mas agora uma equipe de pesquisadores a trouxe de volta à vida.

Eles reproduziram a estrutura vocal de Nesyamun por meio de impressão 3D, após digitalizar a estrutura original para obter as dimensões exatas.

E, com o auxílio de uma laringe eletrônica que gera som, eles conseguiram sintetizar o som de vogal que se supõe ser semelhante à voz de Nesyamun.

Acredita-se que seja o primeiro projeto deste tipo a recriar com sucesso a voz de uma pessoa morta. No futuro, os pesquisadores esperam usar modelos de computador para recriar frases completas na voz de Nesyamun.

A pesquisa — realizada por acadêmicos do Royal Holloway, da Universidade de Londres, da Universidade de York e do Leeds City Museum — foi publicada na revista científica Scientific Reports na quinta-feira (23/01).

"(A técnica de recriação da voz) nos deu a oportunidade única de ouvir o som de alguém morto há muito tempo", afirma o coautor do estudo Joann Fletcher, professor de arqueologia da Universidade de York, no Reino Unido.

Ele disse à BBC que era uma "vontade expressa" de Nesyamun ser ouvido na vida após a morte, crença que fazia parte do sistema religioso do Egito antigo.

"Na verdade, está escrito em seu sarcófago — era o que ele queria", acrescenta Fletcher.

"De certa forma, conseguimos realizar esse desejo."

Os detalhes da técnica

Nos seres humanos, o trato vocal é a passagem por onde o som é filtrado. Esse som é produzido na laringe — mas só o ouvimos depois que ele passa pelo trato vocal.

Para copiar o som produzido pelo trato vocal de Nesyamun, as dimensões exatas desta estrutura foram refletidas no modelo impresso em 3D.

Mas só é possível realizar este procedimento quando o tecido mole do trato vocal de um indivíduo está razoavelmente intacto. No caso de Nesyamun, como seu corpo mumificado estava bem preservado, a chance era grande — e, de fato, a equipe conseguiu confirmar a viabilidade por meio de tomografias computadorizadas realizadas no hospital Leeds General Infirmary, em Leeds, na Inglaterra.

Após ser digitalizado, o trato vocal de Nesyamun foi impresso em 3D — e a "voz" dele foi gerada por uma laringe eletrônica, método comumente usado nos sistemas modernos de sintetizador de fala.

Segundo Fletcher, o próximo passo dos pesquisadores será usar modelos de computador "para gerar palavras e uni-las para formar frases".

"Esperamos poder criar uma versão do que ele teria dito no templo de Karnak."

Quem foi Nesyamun?

Nesyamun era um sacerdote do templo de Amon, no complexo de Karnak, em Tebas (atual Luxor).

Ele era um sacerdote wab, o que significava que havia atingido um certo nível de purificação e, portanto, tinha permissão para se aproximar da estátua de Amon no santuário interno mais sagrado do templo.

Estudos mostraram que Nesyamun tinha gengivite e deterioração severa dos dentes. Estima-se que ele tenha morrido aos 50 anos, possivelmente após uma reação alérgica grave.

Como a única múmia datada do reinado do faraó Ramsés 11, Nesyamun oferece informações importantes. A análise científica de seus restos mortais contribuiu para uma maior compreensão do Egito antigo.

A múmia de Nesyamun está em exibição no Leeds City Museum. Fontes: BBC News Brasil

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