OPINIÃO

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Há algo podre nesta república: primeiro disparo contra eleito 01 Agosto 2019

O disparo dirigido, no início desta semana, contra o presidente da Câmara da Praia avulta, não obstante a percebida (logo, relativa) insegurança cidadã, como um acontecimento excecional, que atinge dimensões extraordinárias, bem superiores ao dano efetivo causado à integridade pessoal da vítima.

Há algo podre nesta república: primeiro disparo contra eleito

A segurança dos cidadãos é fundamental na República, todos sabemos, desde antes deste quesito passar a figurar como indicador de desenvolvimento humano da ONU, na reta final do milénio findo. E em Cabo Verde há longos anos que o sentimento de segurança anda vacilante, sabemos com ou sem noticiário.

O disparo dirigido contra o presidente da Câmara da Praia – atingido com uma bala quando se preparava às cinco e meia da manhã de segunda-feira, 29, para entrar no ginásio habitual, no Palmarejo — avulta, nesse cenário de insegurança cidadã, como um acontecimento excecional, que atinge dimensões extraordinárias por ser praticamente o primeiro. Avoluma-se mais ainda, com relatos baseados em imagens de videovigilância na Fazenda, bairro onde reside o Edil, os quais indiciarão ser um crime feito em concertação.

O motivo estará relacionado com o exercício do cargo, segundo as hipóteses avançadas por analistas. Isso leva a perguntar se, nesta sociedade democrática, os mecanismos existentes são eficazes para evitar os riscos associados ao exercício do poder. Mormente quando o Estado falha em assegurar a integridade física de todos, como propugna a lei magna, a CRCV.

Quando há o recurso à violência em vez de recurso às estruturas que a República ergueu para o exercício da cidadania, é a democracia que está em risco, sem dúvida.

O descontentamento maior perante a atuação do executivo, como a realidade mostra, direciona-se para os dirigentes com maior responsabilidade.

Nesse caso, o protocolo de segurança privilegia a proteção de acordo com o lugar ocupado no aparelho do Estado. É do conhecimento de quem faz o seu jogging matinal que o primeiro-ministro está securitariamente bem enquadrado, com homens e veículos de apoio. Doravante, iremos ver o presidente da Câmara Municipal a ter o mesmo enquadramento securitário? Esta e outras questões emergem neste país ainda em choque.

Acontecimento em extremo inquietante numa nação de ‘brandos costumes’ em relação aos detentores do poder do Estado. Até prova em contrário, nunca tal se viu — caso fique provada a hipótese de que não há motivação política —, nem sob o jugo colonial nem no país independente, nem em ditadura (com ou sem aspas) nem em democracia.

Foto (site da CMP): O atual Edil da capital, Óscar Santos, e o seu antecessor e atual primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, no Dia da Praia, 29 de abril.

MLL
Pós-escrito em forma de nota final: O título deste artigo afigura-se adequado para descrever a situação em causa e é o mais próximo da frase original ’Something rot in the Kingdom of Denmark’. A "Algo vai mal no reino da Dinamarca" tantas vezes citada, em tradução que cabe rever.

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