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Conflito Ucrânia-Rússia: Putin nega ambição imperial mas EUA dizem que "invasão" já começou 23 Fevereiro 2022

Após luz verde ao envio de militares para Donetsk e Lugansk, o presidente russo defendeu que "melhor solução" para acabar com a crise seria a Ucrânia desistir da adesão à NATO. UE e EUA anunciaram mais sanções, com Biden a garantir que serão mais duras do que as de 2014.

Conflito Ucrânia-Rússia: Putin nega ambição imperial mas EUA dizem que

"Os acordos de Minsk já não existem", decretou Vladimir Putin minutos depois de o Senado russo ter autorizado o envio de tropas para fora da Rússia. Assinados em 2015 pela Rússia e pela Ucrânia, sob mediação franco-alemã, estes acordos visavam um regresso à soberania ucraniana das regiões separatistas de Donetsk e Lugansk, de maioria russófona, que um ano antes tinham autoproclamado a sua independência. Ora ao reconhecer essa independência, na segunda-feira, o que Putin fez foi, na prática, rasgar esses acordos.

Autorizado a enviar tropas - que o próprio garante terem como missão "manter a paz" - para o Donbass, onde ficam Donetsk e Lugansk, os EUA acreditam que tal não é mais do que o "início de uma invasão" russa da Ucrânia, como garantiu na CNN o subsecretário para a segurança nacional, Jonathan Finer. "Uma invasão é uma invasão e é o que está a acontecer", sublinhou.

Ao fim da tarde (14h30 em Washington), o presidente Joe Biden também denunciou a "invasão". E anunciou novas sanções contra Moscovo, "muito além dos passos que nós e os nossos aliados implementámos em 2014", após a anexação da Crimeia pela Rússia. Para já, os alvos dos EUA são duas instituições financeiras russas e o seu banco militar, a dívida soberana russa - com o Kremlin impedido de ir aos mercados ocidentais para se financiar -, bem como alguns membros da elite russa e suas famílias. Biden anunciou ainda o envio de mais soldados e equipamento militar dos EUA para os países bálticos. E garantiu que continuará a fornecer armas "defensivas" a Kiev.

Numa curta declaração a partir da Casa Branca, Biden afirmou que Putin está empenhado em "ganhar mais território pela força", sublinhando: "Para pôr isto de forma simples: a Rússia anunciou que está a conquistar um grande naco da Ucrânia". E lembrou que o presidente russo admitiu o envio de tropas "para além das duas áreas que reconheceu, reclamando grandes áreas atualmente sob jurisdição do governo ucraniano".

O alerta dos EUA encontrou eco nas palavras do secretário-geral da NATO. "Tudo indica que a Rússia continua a planear uma operação em larga escala para atacar a Ucrânia", afirmou, antes de acrescentar: "Vimos o reforço militar... Vimos cada vez mais tropas a sair dos quartéis e a prepararem-se para o combate. E vemos as provocações contínuas no Donbass e as várias operações de falsa bandeira em que [os russos] tentam criar um pretexto para um ataque. E, claro, vimos na noite passada que mais tropas russas se movimentaram para o Donbass, para partes de Donetsk e Lugansk".

Stoltenberg explicou que a NATO tem em alerta mais de cem aviões e mais de 120 navios de guerra em locais que vão desde o círculo polar ártico até ao Mediterrâneo. "A NATO terá de responder se virmos atos agressivos por parte da Rússia, mas continuamos a lutar pelo diálogo, pela desescalada e acreditamos que é importante falar." E afirmou: "Nunca é tarde" para a Rússia não atacar, apesar da "retórica ameaçadora" de Putin.

O presidente russo, por seu lado, garantira que "a melhor solução" para acabar com a crise em torno da Ucrânia seria Kiev desistir da ambição de aderir à NATO.

Durante uma reunião no Kremlin com o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliev, Putin disse ainda: "Antecipámos que haveria especulações de que a Rússia se estaria a preparar para reconstituir um império." Mas, afirmou, "essa não é a realidade". Segundo o presidente russo, após a queda da União Soviética a Rússia "reconheceu as novas realidades e trabalhou de maneira muito ativa para fortalecer" a cooperação com outros países ex-soviéticos, citando como exemplos os vizinhos do Azerbaijão e do Cazaquistão. A Ucrânia está numa "situação diferente" porque "o território deste país é utilizado por países terceiros para ameaçar a Rússia", argumentou.

O presidente russo acusou Kiev de estar "armada até aos dentes" e garantiu que quando o presidente Volodymyr Zelensky lamentou a decisão de a Ucrânia, em 1994, desistir do seu arsenal militar tinha "como alvo a Rússia". Putin defendeu a "desmilitarização" da Ucrânia, lembrando que recebe armas dos seus aliados ocidentais. Se os países ocidentais "encherem as autoridades de Kiev com armas modernas (...), então o ponto mais importante é (...) a desmilitarização da Ucrânia de hoje", argumentou.

Quanto ao envio de tropas para as regiões separatistas, garantiu que dependerá da situação no terreno, onde os confrontos, disse, "continuam" e tendem a agravar-se

Ucrânia pede mais armas

Recusando ceder qualquer parte do seu território, a Ucrânia pediu aos países ocidentais que lhe forneçam mais armas contra a Rússia. "Mobilizaremos o mundo inteiro para conseguir tudo o que precisamos para reforçar nossa capacidade defensiva", afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Dmytro Kuleba. Nas últimas semanas, vários países enviaram equipamento militar para a Ucrânia, incluindo mísseis antitanque Javelin da Estónia e mísseis terra-ar Stringer da Letónia. Kiev está ainda a usar drones Bayrakhtar, de fabrico turco, para reconhecimento. A Ucrânia recebeu ainda armamento dos EUA no âmbito de uma pacote defensivo de 200 milhões de dólares aprovado por Biden em dezembro.

Para já, a Alemanha anunciou a intenção de aumentar o contingente de soldados destacados numa base da NATO na Lituânia, no mesmo dia em que a Hungria comunicou a mobilização de unidades militares nas zonas fronteiriças com a Ucrânia.

Numa outra "frente", a Rússia anunciou a retirada em breve da sua equipa diplomática na Ucrânia para "proteger as suas vidas".

Uma resposta em sanções

Ao discurso histórico-bélico de Putin na segunda-feira e à luz verde para Moscovo enviar tropas para Donetsk e Lugansk, a resposta do Ocidente surgiu em sanções. A União Europeia aprovou, por unanimidade, um pacote de sanções que visa "atingir e muito" as autoridades russas. Em concreto, as sanções abrangem 27 indivíduos e entidades e 350 membros da câmara baixa do parlamento russo (a Duma). No que toca às sanções financeiras, preveem-se restrições às relações económicas da UE com as duas regiões separatista, bem como o congelamento de bens de dois bancos privados russos.

Fora da UE desde o Brexit, o Reino Unido também anunciou sanções contra três oligarcas próximos de Putin - Gennady Timchenko, Boris Rotenberg e o sobrinho deste, Igor Rotenberg - e contra cinco bancos russos. E o primeiro-ministro Boris Johnson prometeu não se ficar por aqui, garantindo, na sequência do que fizeram os EUA e a NATO, que o reconhecimento por Moscovo da independência dos separatistas é "pretexto para uma ofensiva em grande escala".

Gasoduto suspenso

Uma das maiores consequências da subida da tensão com Moscovo é uma possível crise no abastecimento do gás na Europa. Nesse capítulo, o chanceler alemão Olaf Scholz anunciou a suspensão da autorização para o controverso gasoduto Nord Stream 2, que liga a Rússia à Alemanha.

O Nord Stream 2 foi concluído em novembro, mas ainda não entrou em operação. O seu projeto provocou dúvidas económicas e geopolíticas desde o início. O Nord Stream 2 estende-se por 1230 quilómetros sob o mar Báltico e tem capacidade de 55 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano. Segue o mesmo percurso que o Nord Stream 1, que funciona desde 2012. O gasoduto evita o território ucraniano e aumentará o abastecimento de gás russo à Europa, no momento em que a produção própria regista uma queda.

Promovido pelo gigante russo Gazprom e orçamentado em mais de 10 mil milhões de euros, o Nord Stream 2 foi sempre criticado pela Ucrânia - que teme perder a receita que obtém com o trânsito do gás russo -, pelos EUA - que receiam o aumento da dependência da Europa do gás russo que a pode dissuadir de comprar o gás de xisto americano - e até por países europeus como a Polónia ou os bálticos - que temem ver a Europa curvar-se perante as ambições russas.

Apesar das preocupações, Moscovo disse-se empenhada em honrar os contratos com países europeus e em continuar a exportar gás natural "sem interrupção". Perante a tensão na Ucrânia, a UE está a negociar com países como o Qatar, Argélia e Egito o fornecimento de gás natural liquefeito (GNL) para aliviar possíveis cortes no fornecimento russo. Mas o ministro da Energia do Qatar, Saad al-Kaabi, declarou ser "impossível" substituir a curto prazo o volume de gás que a Rússia fornece à Europa - até 40% das importações da UE. C/DN

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