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Conversa Independente — Politeia 46 anos 05 Julho 2021

Conversa Independente — Politeia 46 anos

A: Mais um e chegamos aos quarenta e seis!

B: Parece que foi hoje o primeiro dia. Lembras-te?

A: Se lembro! A memória da cachupa/katxupa de domingo nesse sábado, a vir da cozinha, ainda antes de a vermos, rescendia... e tu reclamavas!

B: O rádio a transmitir o que iríamos ver na televisão que só víamos pelo telejornal da noite.

A: E ler depois sobre a troca das bandeiras, na pena do enviado-especial que depois soubemos era cunhado do nosso conterrâneo da Ponta do Sol.

B: Sempre essa tua tendência de virar o histórico para o tornar quotidiano.

A: Hás de concordar comigo que faz falta às vezes.

B: Escrevia acho que no Diário de Lisboa.

A: E, com a distância do analista, escrevia o prefácio de Distância.

B: Independência flor! Mas o polícia amigo do pai que acabara de desembarcar, vindo do Sal, agourava o sucesso da empreitada.

A: Levou-me a ver o meu primeiro Benfica, mas era um descrente, para ele ia tornar-se realidade o projetado cenário de hecatombe.

B: Repetido doravante até à exaustão, em relação a todas as colónias perdidas, em vergonhosos títulos bombásticos, no jornal da Vera Lagoa.

A: Continuados na habitual estratégia desde os anos ’80 do jornal mais lido em Portugal, porque usa muito da hecatombe, do escatológico.

B: Mas chega de falar no argueiro no olho do outro.

A: Lembras-te da Mãe emocionada, a antever na hora presente de Cabo Verde o futuro dos filhos?

B: Ela dizia: A independência é como a Mãe a ver os filhos a sair de casa.

A: Enfim gravaste mas eu não. Se fosse hoje, teria argumentos para dizer que nós nunca fomos filhos.

B: Sei: que Portugal nunca foi mãe, que a morabeza é um logro... Mas tu continuas por lá.

A: Que remédio! Não quero ficar a dever a quem nos deve tanto.

B: Citação! Isso foi o Gabriel Mariano ao Michel Laban.

A: Tens razão sobre a trave no nosso olho! O nosso atraso cultural que nos leva do topo à base a seguir o primeiro iluminado. No topo o titular impreparado, inconsequente a quem o mais sénior não orienta talvez por egoísmo

B: Eu ainda pensei que havia uma estratégia por trás. Mas não! Continuamos a comprar o primeiro enlatado que nos vendem.

A: Porque falta massa crítica e logo estamos nas trevas pré-cidadania. O decisor sem opositor e sem plano A nem plano B.

B: Presa fácil que cede por irresponsabilidade.

A: Quiçá ao desespero de quem está consciente das suas limitações, mas sem aceitá-las.

B: Para isso é necessário ser humilde e isso requer uma grande alma.

A: Tudo isso que depende de uma educação de sucesso, a começar em casa.

B: Tens razão, tenho de concordar contigo que falta muito ainda para cumprir o sentido do sonho do Estado independente.

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