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Conversa Insular — Santo António das Pombas, Alfama e até Zaire 13 Junho 2022

O Santo António milagreiro faz parte da nossa tradição, como registam os escritos/scripta que manent/permanecem e a oralidade que, se calhar, nem sempre voa, como no relato de uma que austera guardiã impediu de ir ao Santo António e que encarregou a melhor amiga de engrinaldar o eleito com o colar-rosário — previamente encomendado à confeiteira-artesã da vila próxima, num outro concelho. Invoca-se o santo de Pádua natural de Lisboa, o patrono dos casamentos de Santo António que nascidos sob Salazar foram interrompidos pela Revolução dos Cravos e a Câmara de Lisboa retomou anos depois, como atrativo cultural e turístico.

Conversa Insular — Santo António das Pombas, Alfama e até Zaire

Em dia sem marcha de Santo António na Avenida da Liberdade (e em que se houve festa em Alfama foi clandestina), à distância de quatro mil e tal quilómetros, relembrou-se por aqui mais de meio século depois, Nha Bitina e a sua promessa a Santo António das Pombas.

Santo António ouviu Nha Bitina (nome real mas com ares de ficcional). A jovem que esperava havia anos pelo noivo, um contratado em Angola. O resto dará um romance. Hoje restrinja-se ao episódio da promessa. Cumprida assim que Bitina obteve a graça.

"Ó mal de amor/Txiga na min... " repete versos da morna, esta minha mãe. Tê-los.á cantado em muitos momentos, mas só octogenária (ou quase) ela e eu no meio do caminho da vida começo a estar atenta ao seu verbo que contém pérolas de vivência.

Ouço-lhe a voz da mocidade, eco desta oralidade que, neste paralelo-15 de raízes fincadas fundas, se voa é só em recurso de estilo, metaforicamente. Repetições a cimentar a lembrança dessa sua contemporânea que no seu dia derradeiro deixámos em Benfica.

Em toda a geração, diz-me a Mãe, repetem-se os desconcertos do mundo. Como no cântico dos cânticos, da noiva sem noivo, das virgens loucas da parábola que ensina sobre a necessária prevenção: "Kèmin lonje te preparòde de vespa". Santo António de Pádua ainda não existia. Menos ainda o Fernan de Bulhões de 1195, nado e criado em Lisboa.

Metafóricos ou hiperbólicos mil anos depois, o batizado Fernando António — em quem a mãe Madalena reuniu, em 1888, o antes e o depois do santo que falava aos peixes — põe em verso imortal esse destino de "quantas noivas (que) ficaram por casar", sacrificadas à aventura marítima de um noivo marinheiro. Como a ecoar o pessimismo do ancião na praia do Restelo de 1497.
Objetos, saúde recuperados

Abundam na literatura, não só ficcional, relatos de invocações ao santo não só por noivas desesperadas (e quiçá, noivos, mas destes não reza a história). Há imagens de Santo António de fisionomia africana, que são insígnia religiosa de proteção contra a doença e outros males.

Hoje na internet quem precisar de um milagre, encontra abundantes propostas (uma ou outra bem elaboradas, raras, por entre outras que desengraçam). Orientarão os crentes (em milagres) nas suas invocações, com ou sem promessa, para recuperar coisas/causas perdidas.

Santo António de fisionomia africana. No país banhado pelo rio Zaire, venera-se o Santo António desde o século XVII, tanto que o rei Garcia II deu ao seu sucessor o nome do santo. António I veio a ser morto na guerra em que a nação Congo perdeu vastos territórios, que passaram a ser de Portugal.

A veneração do povo congolês a Santo António desenvolveu-se num sentido inesperado: o Antonianismo que defendia a africanização radical do cristianismo.

Sob a liderança de Kimpa Vita, cristianizada Beatriz e símbolo do sincretismo, o Antonianismo conheceu uma existência "legal", com ritos esta líder a comandar a tomada da capital Mbanza-Kongo e a convocar os chefes locais a aderirem ao projecto de reconstrução e reunificação politica.

Foi porém muito breve a vida "legal" do Antonianismo: a sua fundadora — perseguida pelos capuchinhos italianos e nobres locais — foi julgada, acusada de rebelião e heresia e condenada à morte numa fogueira, dois anos depois, em 1706.

Estudos atuais mostram que o Antonianismo congolês persistiu, na clandestinidade após a perseguição desse início da era de Setecentos. Destacam-se nesse culto, clandestino, as imagens de Santo António de fisionomia africana, que são insígnia religiosa de proteção contra a doença e outros males. Por onde andam? Nos antiquários e museus dos ex-países colonizadores, em especial na República Portuguesa e Reino da Bélgica.

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