DIÁSPORA

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Conversa interrompida — Heróica 22 Outubro 2021

Baptizado, desbaptizado e de novo batizado numa única geração e com o mesmo nome (1). O busto sem nome erigido quando e por quem? (3) Há heroismos de vivos superados pelos que já se foram, porque morre cedo o amado dos deuses (2).

Conversa interrompida — Heróica

A: Derrubam-se estátuas que foram erigidas a heróis e heroínas de ontem e hoje. A autora da moda, cujo nome retiraram de uma escola primária —

B: Para uns, a que reavivou os medos mais sombrios da infância. Para outros, a pregadora de teses satanistas! Mas qual é a novidade? —

A: A novidade é que ofendeu a galáxia mediática não pelo feiticeirinho de papel que criou na Invicta Cidade do Porto, há mais de trinta anos, mas pelo que disse sobre os ’trans’ —

B: Continua, que estou a ouvir —

A: Churchill: como foi apeado do pedestal? —

B: É a revisão da história. Escreveu-se muito sobre ele, o seu heroismo que salvou a Inglaterra, o Reino Unido, a Europa, o mundo —

A: Outro: Gandhi —

B: Também! O pacifista afinal considerava, melhor, desconsiderava a "raça" negra da África onde viveu vários anos —

A: Vinte e um anos, de 1893 a 1914, a ser triperfeito pacifista parcial, permanente pretófobo, perfuso predador —

B: Oxalá o atiremos para os fundos pântanos do olvido! —

A: Então não sabes da estátua recente no Largo da Europa, na capital de Cabo Verde?! —

2

(O acima foi em fevereiro. Só em outubro retomaram a conversa.)

B: Sabes, hoje vi a estátua. Ouve a pergunta que me fez um passante que me viu a fotografar. "Ma pamodi el ka ten nomi? El era kenha? Di Fogu? Saniklau? Sanvisenti?" —

A: Porque a instalaram? Que barganha estará por trás da ação da edilidade de então?

B: Pensa: é a triste sina do filho preferido de Rebeca que usa todos os truques para obter a primogenitura —

A: Pois é! Vale tudo para manter o poder. Ou nem isso! Pode ser mesmo a ignorância reinante sobre o estado de arte do mundo —

B: Uma elite que decide por todos nós e que além da óbvia iliteracia anda mal aconselhada —

A: Passo essa parte porque ia pedir muita dialética que não cabe aqui —

A: Vai logo ao alvo —

B: O busílis da questão é: a amálgama entre o interesse de alguns e o bem comum a todos, que é o direito ao saber —

A: Ou seja —

B: A decisão por uma entidade pública tem de basear-se no conhecimento. Por exemplo, que Gandhi e o seu movimento independentista pacifista não abrangia os africanos negros tidos por ele como seres inferiores —

A: ? —

B: Dois académicos sul-africanos escreveram um livro sobre os anos do Mahatma em África do Sul. Entre as demonstrações de que Gandhi não via quaisquer potencialidades para "o desenvolvimento da nação sul-africana" —

A: Pergunto-me: Como é que uma nação africana como a nossa ignora essa questão?

B: É simples. A decisão foi em camara obscura, a estátua foi trazida sorrateiramente e erigida à socapa. Sem identidade, nem do homenageado, nem do homenageador.

A: Saberemos algum dia?... o que levou ... —

B: As informações ...serão sempre incompletas enquanto não se fechar o livro da vida —

— -Notas: (1) Estádio Municipal da Praia: um grande futebolista imortalizado em vida no então maior estádio da capital. (2) Evocação livre da elegia de Fernando Pessoa ao amigo Mário de Sá Carneiro, falecido aos 26 anos. (3) Busto de Gandhi erigido, o espaço para a legenda (explicativa, atributiva) continua mais de um ano depois sem preencher.

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