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Corvos e turismo ameaçam em Cabo Verde maior população de guincho da Macaronésia 28 Fevereiro 2022

As ameaças ao guincho (ou águia-pesqueira como também é conhecido) não se ficam pelos corvos e alargam-se à predação por gatos e pessoas.

Corvos e turismo ameaçam em Cabo Verde maior população de guincho da Macaronésia

Cabo Verde alberga a maior população de guincho da Macaronésia, com especial destaque para a ilha da Boa Vista, habitat de duas dezenas de casais, mas o corvo e a crescente pressão turística ameaçam esta ave marinha.

“Aqui, na Boa Vista, o principal problema que temos com o guincho é a predação dos ninhos pelos corvos”, contou à Lusa Pedro López, um dos fundadores de associação ambientalista cabo-verdiana Bios.CV, que desde 2000 monitoriza a espécie, presente no litoral daquela ilha, uma das mais turísticas do país.

As ameaças ao guincho (Pandion haliaetus — por vezes apelidada pelas populações por águia-pesqueira) não se ficam por aqui e alargam-se à predação por gatos e pessoas, como explicou, durante uma das suas saídas quase diárias para monitorizar os ninhos na ilha.

“Aqui em Cabo Verde a população está à volta de 80 a 100 casais. Uma população ainda saudável“, contou o espanhol, de 54 anos, radicado na Boa Vista há 23 anos.

“O interesse é que Cabo Verde é a principal população de guincho na Macaronésia [Cabo Verde, Canárias, Açores e Madeira]. Canárias têm guinchos, mas muito pouco. Nas Canárias, a população diminuiu de dez casais para seis, sete, nos últimos dez anos”, acrescentou.

Em Cabo Verde, o guincho está presente nas ilhas do Barlavento, mas a monitorização da espécie é feita somente na Boa Vista e no Sal. No período de reprodução, de dezembro a fevereiro, os voluntários da Bios.CV procuram ninhos ativos, e em março e abril seguem os ninhos ocupados para anilhar as crias, para o futuro acompanhamento.

“Em Santo Antão, São Vicente, São Nicolau [restantes ilhas do Barlavento], sabemos pouco do guincho”, conta Pedro López, que lidera a equipa da Bios.CV no projeto de conservação do guincho na Boa Vista.

Um total de 67 guinchos jovens foram anilhados na Boa Vista entre 2012 e 2019.

“Nos últimos vinte anos sempre falámos de uns vinte casais. No ano passado contabilizámos 22, mas só 18 estão em reprodução”, explicou.

No terreno, constata que outra das ameaças é o crescimento de hotéis e da procura turística na costa da Boa Vista, que é também a área de nidificação do guincho. “Se temos muita pressão de excursões, o guincho pode ir-se embora”, diz.

Por isso, Pedro López aponta os corvos, a pressão turística, predação por gatos e pessoas ou as mudanças climáticas, nomeadamente o efeito do aumento das temperaturas nos ninhos, como fatores que podem ameaçar o futuro do guincho na Boa Vista: “Somando todas essas ameaças, considerámos que é vulnerável”. “Não está em risco, mas é vulnerável”, acrescenta.

Nos últimos anos a Bios.CV construiu plataformas em madeira junto aos ninhos em terra, para os deslocalizar e evitar a predação. Das 14 construídas permanecem 12 de pé e apenas quatro estavam este ano ativas — em reprodução — com os ataques por corvos a condicionar o sucesso da operação.

“A ideia era melhorar a produtividade da população, porque minimizávamos a apanha de ovos e de filhotes por gatos e pessoas. Mas infelizmente estamos a ver que não conseguimos ter muito sucesso, porque os corvos ainda continuam a atacar as plataformas”, admite.

Daí que reconheça ser necessário estudar o comportamento e adotar medidas de “controlo da população” de corvos na Boa Vista. “Para podermos ter sucesso com as plataformas temos de controlar a população de corvos. São animais oportunistas”.

A monitorização e acompanhamento do projeto da Bios.CV na Boa Vista envolve a parceria com outras entidades, incluindo a fundação TIOF (The International Osprey Foundation), com sede na Flórida, nos Estados Unidos da América. Contudo, é o financiamento da empresa Cabeólica que há 11 anos permite a continuidade do projeto.

“Construiu um parque eólico aqui na Boa Vista e como medida de compensação decidiu apoiar o trabalho à volta do guincho e do abutre-do-egito. Porque são espécies que pelo padrão de voo têm mais hipóteses de colidir com os aerogeradores. É um exemplo a seguir porque infelizmente em Cabo Verde não são muitas empresas a apoiar a conservação [da natureza]”, concluiu.

A Semana com Lusa

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