NÔS TRADISON

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Covid-19/Fogo: Pandemia impede cumprimento de secular tradição cultural (reinado) da ilha 04 Janeiro 2021

O reinado, uma tradição secular e genuinamente foguense, que percorre a ilha cantando terços, entre 06 de Janeiro e o dia das Cinzas, não será assinalado este ano, pela primeira vez, devido à pandemia da covid-19.

Covid-19/Fogo: Pandemia impede cumprimento de secular tradição cultural (reinado) da ilha

Nos últimos anos, duas confrarias de reinado lutaram para manter viva esta tradição e, este ano, pelo menos uma confraria estava disponível para percorrer a ilha devido a idade avançado do reinado mais antigo da ilha, Filipe Fernandes, conhecido como Nhô Tchina, que não se mostrou disponível para cumprir a tradição, já que conta 95 anos.

Devido à pandemia, o reinado José António Freire de Andrade, conhecido como Alfredim de Monte Grande, que nos últimos 23 anos tem seguido “religiosamente” a tradição, foi aconselhado pelo pároco da Nossa Senhora da Conceição (São Filipe), donde habitualmente partem as confrarias, a ficar em casa este ano dada a situação.

O aconselhamento foi feito pelo pároco de Nossa Senhora da Conceição numa missa celebrada no último sábado, tendo exortado os reinados para permanecerem em casa este ano.

Alfredim, que leva a imagem da Nossa Senhora da Graça às residências de pessoas devotas desta santa, aceitou o conselho do pároco, que segundo o mesmo é bom para ele e para todos aqueles que esperam pela imagem da Nossa Senhora da Graça para tradicional terço.

Assim, aproveitou para informar a todas as pessoas devotas, que esperam Nossa Senhora da Graça para que entendam que este ano não será possível fazer a caminhada devido à pandemia e que o seu companheiro também não fará a caminhada, devido a idade avançada de Nhô Tchina.

Esta decisão visa contribuir para prevenir a infecção pela covid-19 dos reinados e para as pessoas que festejam e recebem os reinados nas respectivas casas para o terço que, em muitas localidades, sobretudo nos Mosteiros onde o número de pessoas devotas é mais elevado, costuma mobilizar muitas pessoas.

Este será, assim, o primeiro ano em que há memória de o reinado não se fazer à estrada, esperando que a situação da pandemia da covid-19 esteja normalizada para que, em 2022, a tradição seja retomada.

Para este ano o reinado Alfredim apela às pessoas, que todos os anos recebem os reinados, para celebrarem o dia com oração nas suas respectivas casas para que no próximo ano o reinado possa regressar e percorrer a ilha em situações de normalidade.

O reinado é uma tradição cultural secular, típica e exclusiva da ilha do Fogo, em que grupos de homens, devotos católicos, participam em ciclos de reza no período que medeia entre 06 de Janeiro e o dia de Cinzas, com deslocação, de casa em casa, em todas as localidades da ilha, de pessoas que professam a fé católica.

Em tempos não muito longínquo, o reinado conhecera outro brilho e houve altura em que chegou a sair da Igreja Matriz de São Filipe 24 confrarias ou grupos de “reinados”, constituídos, no mínimo, por três homens, segundo registos históricos.

A sua origem é um pouco duvidosa, e, para alguns, poderá estar relacionada à celebração da festa dos reis em Portugal, mas nenhum dos reinados vivos sabem explicar, com precisão, a origem e a data da sua introdução na ilha, apesar de a tradição ter estado ligada ao peditório para a construção da antiga Igreja Matriz de São Filipe, o que pode ter acontecido há algumas centenas de anos.

Até a década de 70 do século passado, os reinados eram constituídos por grupos de homens, três ou mais, católicos e praticantes, que andavam por toda a ilha, durante três luas, a realizar terços e pedindo ajuda a favor da Igreja.

Contudo, houve épocas em que cada confraria de reinado era constituída por sete homens, sendo que cada grupo integrava “rei” que dirige e controla tudo, um “rei” interino, um tesoureiro e participantes.

Acreditam que o objectivo maior do reinado era a evangelização, e todos os integrantes do grupo teriam de ser católicos, baptizados/crismados, casados e escolhidos pelo padre.

A tradição mandava que os “reis” reunissem-se no dia 06 de Janeiro, na Igreja Matriz, onde assistiam a missa, seguido de uma volta à igreja, para depois cada de reinado seguir o seu próprio itinerário, dando volta à ilha, dirigindo-se primeiro em direcção a Cova Figueira (sul) e depois retornavam para zona norte até chegar aos Mosteiros, uma vez que devido a uma lenda os mesmos não ultrapassam a ponte da ribeira de Baleia, que divide os municípios de Santa Catarina e Mosteiros.

Cada um tem uma santa como patroa, sendo que antigamente a imagem era cedida pela Igreja, para onde voltava, findo o reinado, mas hoje as santas são guardadas em casa dos reinados.

O terço ou “ladainha”, na maioria das vezes, continua a ser rezado em latim, ainda nos dias de hoje.

Além da imagem da santa, o reinado dispõe de outros instrumentos, nomeadamente um pequeno tambor para anunciar a sua chegada às localidades, um sino e o rosário, utilizados durante a realização do terço. A Semana com Infopress

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project