OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Covid -19: MÁSCARAS OU NÃO 23 Abril 2020

Seria bom que as entidades de saúde começassem a ensinar a população a usar correctamente as máscaras, através da TV, em vez de se continuar nesse mole-mole sobre usar ou não usar, enquanto nos noticiários se vê todo o mundo lá fora a usá-las e, até, recentemente, as nossas próprias autoridades! Não devemos esperar que a situação se torne catastrófica para então agir. O problema da OMS e de todo o mundo é que andaram sempre um passo atrasado em relação ao vírus, que se foi propagando à vontade. E que não nos sirva de consolo dizer que estamos a fazer o que os outros também fizeram. Os resultados estão à vista!

Por: Maria Odette Pinheiro*

Covid -19: MÁSCARAS OU NÃO

Há coisas que não precisam de grandes estudos científicos para serem provadas, bastando uma grande dose de bom senso. E por vezes a alegação da falta de estudos científicos ou de directrizes de entidades internacionais não é senão uma desculpa para a falta de decisão, de acção ou de recursos.

Assim é com a questão das máscaras quando já há transmissão comunitária do SARS-COV-2, o vírus responsável pela doença denominada Covid-19 (Corona Virus Disease 19). Está provado que as máscaras evitam a transmissão para o ambiente dos vírus e bactérias respiratórias dos seus portadores. É por isso que são usadas pelos cirurgiões, debruçados como ficam sobre os campos operatórios (para evitar que lancem microorganismos para as áreas em que estão a operar), pelos dentistas para proteger a cara dos doentes, etc. etc.

As máscaras, ao captarem as partículas de saliva e o spray respiratório, evitam, assim, a contaminação do próximo e do ambiente. Sabe-se que não evitam tanto a contaminação de quem não tem o vírus, até por haver outros factores: o seu uso correcto, incluindo não lhes tocar com as mãos depois de colocadas e ajeitadas ao rosto, não as deslocar para debaixo do nariz ou do queixo para se falar (como tanto se vê na nossa TV e não só), usá-las continuadamente até poderem ser descartadas no lixo, tendo o cuidado de não contactarem com nenhuma superfície, e lavando imediatamente as mãos. As máscaras de pano devem ser lavadas logo em água com sabão ou lixívia e secas de preferência ao sol, a fim de poderem ser reusadas.

O problema do Covid 19 na maior parte dos países tem sido o erro de se descurar a questão dos infectados assintomáticos, que sem terem consciência de serem portadores do vírus podem infectar amigos, familiares, ou qualquer um que se aproxime. Lembro a estupefacção com que já em plena epidemia na Europa eu via na TV ondas de passageiros entrarem nos aeroportos de um determinado país, tendo como único controlo a medida da temperatura e por vezes nem isso, seguindo para casa ou regressando ao trabalho depois de férias em áreas afectadas, sem qualquer outro cuidado. E eu gritava para mim mesma: “E os assintomáticos, que a China avisou existirem? Ninguém se preocupa com isso? Quando estas pessoas vierem a ter sintomas, já infectaram muita gente!” E foi isto que aconteceu.
Nisto a OMS falhou redondamente, não advertindo suficientemente, não exarando protocolos mais musculados. E foi pena que o bom senso, que é 50% da boa Medicina, antecipando-se mesmo a regulamentos e protocolos, não tivesse imperado em cada país. Estaria todo o mundo em melhor situação.

Contra o perigo de contaminação a partir dos assintomáticos e na fase pré-sintomática dos que ficarão doentes, o distanciamento social e o confinamento são essenciais, mas podem não ser suficientes. Vemos a dificuldade que as autoridades têm para evitar aglomerações à porta dos Bancos, Correios, supermercados, etc. Sem se querer, enquanto se espera, alguém aproxima-se mais do que devia e é preciso estar-se sempre a mudar de lugar para evitar proximidade com os menos conscientes. Nos supermercados, mesmo com limitação de entradas, também é preciso estar-se muito alerta, pois há pessoas que se aproximam desnecessária e perigosamente. E sabemos como é difícil evitar que alguns desobedeçam à quarentena domiciliária (chamada erradamente domiciliar). Quando estão na rua, ninguém sabe quem são, e podem estar já a espalhar o vírus.

É aqui que as máscaras desempenham um papel importante. Não substituem o distanciamento, mas dão uma cobertura extra. Ainda mais, experiências feitas no MIT (Massachusetts Institute of Technology) nos EUA mostram que a distância de 1,5 ou 2m pode não ser suficiente, podendo o vírus propagar-se a distâncias muito maiores; e sabemos que o vírus já foi encontrado em condutas de ar condicionado, etc., podendo, portanto, estar mais prevalecente no ar do que a princípio se pensava.

Quando as máscaras são tornadas obrigatórias para se sair à rua e/ou para se entrar em espaços fechados, elas ajudam a prevenir a transmissão comunitária: o vírus fica retido nas máscaras dos infectados assintomáticos. E como toda a gente as usa, o perigo de contágio é muito diminuído. Portanto, como disse alguém: “Eu protejo-te ao me proteger”.

Claro que a cobertura da população só pode ser feita com máscaras comunitárias, reservando as outras – as cirúrgicas – para o pessoal de saúde, polícia, protecção civil, etc., pois não há máscaras suficientes para todos. Um município em Portugal, o de Penafiel, está a seguir este caminho, pondo fábricas que estavam paradas a fabricar máscaras de pano. E distribui três a cada família.

Entre nós há comunidades que já podiam beneficiar dessas máscaras: Praia e Boa Vista. E temos fábricas de confecções que podiam fazer vários milhares por dia. O seu uso, que podia ser obrigatório desde que se disponibilizasse essas máscaras à população, associada ao confinamento (sair só quando absolutamente necessário), ao distanciamento social, à lavagem frequente das mãos, etc., etc., poderia fazer uma grande diferença e ajudar a conter o surto nas ilhas em que já há transmissão comunitária; e até nas outras, agora que pessoas em áreas afectadas vão regressar às ilhas da sua residência habitual. O custo seria muito menor do que o que o Estado terá de gastar se houver um incremento na transmissão: mais doentes a serem tratados, mais suspeitos a serem confinados, maior número de testes a serem efectuados, continuação do sufoco económico.

Em São Vicente, o uso disseminado de máscaras ainda não é indicado, pois não há sinais de o vírus estar na comunidade. Mas há algum tempo que voluntários têm estado a confeccionar máscaras, justamente para nos prepararmos para quando forem necessárias. E desde que tivemos o nosso caso, isso intensificou-se. Conheço pelo menos dois bons modelos que estão a ser seguidos e que obedecem a critérios de confiança. Mas, também, já vi pessoas a usar algumas máscaras que não servem para nada. São um exercício em futilidade: ou não se aguentam no nariz, ou são pequenas demais, ou ficam folgadas na cara, etc..

Para evitar a proliferação de máscaras pouco fiáveis, feitas de material inadequado ou com um tamanho insuficiente ou outras deficiências, seria bom que entidades responsáveis tomassem a iniciativa na escolha dos materiais (recomenda-se tecidos de algodão com uma trama apertada, usados em duas ou três camadas, conforme for a trama). Há um modelo aprovado pela Universidade John Hopkins nos Estados Unidos (site: https://www.hopkinsmedicine.org/coronavirus/_documents/INF2003076_VW_Hand-Sewn%20Mask%20instructions-1.pdf), do qual fiz a tradução para português, conversão ao sistema métrico e pequenas adaptações para simplificação. Contactada através do endereço de e-mail que criei especificamente para isso (mascaras2020@yahoo.com), poderei enviar essas instruções a quem as pedir. E, se houver voluntários para ajudar na sua confecção, os materiais poderão ser disponibilizados.

Seria bom que as entidades de saúde começassem a ensinar a população a usar correctamente as máscaras, através da TV, em vez de se continuar nesse mole-mole sobre usar ou não usar, enquanto nos noticiários se vê todo o mundo lá fora a usá-las e, até, recentemente, as nossas próprias autoridades! Não devemos esperar que a situação se torne catastrófica para então agir. O problema da OMS e de todo o mundo é que andaram sempre um passo atrasado em relação ao vírus, que se foi propagando à vontade. E que não nos sirva de consolo dizer que estamos a fazer o que os outros também fizeram. Os resultados estão à vista!

Por favor, sejamos proactivos e não reactivos! A situação exige!
...
* Médica

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade





  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    publicidade

    Newsletter

    Abonnement

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project