SOCIAL

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Reportagem: Covid-19 afeta trabalhadoras de sexo na Cidade da Praia 04 Maio 2020

A Covid-19 levou muitas trabalhadoras de sexo (consideradas prostitutas) da Capital cabo-verdiana a ficarem sem rendimentos para as suas necessidades básicas. Mas outras ouvidas por esta reportagem do Asemanaonline revelam que ainda continuam a vender o corpo nas ruas e becos escuros sob o espreitar das autoridades, cobrando menos do que metade do preço normal para o seu sustento e pagamento de rendas de casa. Tudo por causa do distanciamento social recomendado pelas autoridades sanitárias, encerramento de bares e casas noturnas, onde, antes, frequentavam diariamente para se encontrarem com os clientes.

Reportagem: Covid-19 afeta trabalhadoras de sexo na Cidade da Praia

Segundo investigou este jornal, tal como milhares de trabalhadores autónomos, que dependem da própria força de trabalho para se sustentarem, muitas profissionais do sexo da capital de Cabo Verde estão expostas a riscos e com perspetivas de incumprimento da quarentena imposta pela OMS e autoridades nacionais por causa da pandemia de Covid-19. Em alguns bairros da Praia, designadamente Várzea, Tira-Chapéu, Monte Vermelho, Castelão e Lém-Cachorro, a prostituição de ruas e becos ainda persistem, mas de forma cautelosa para que as mulheres que a praticam não sejam apanhadas pelas autoridades policiais e militares.

Por recomendação da OMS, o distanciamento social é uma das melhores medidas para que as pessoas não entrem em contacto com o coronavírus, reduzindo a velocidade do contágio. No entanto, em um país onde a taxa de desemprego juvenil é acentuada, muitos se enveredam pela prática de atos ilícitos, nomeadamente, roubos, furtos, assalto à mão armada e, sobretudo, a prostituição para o seu próprio sustento.

Em conversa com este diário digital, duas jovens de 27 e 30 anos, residentes em Monte Vermelho – Palmarejo, afirmam que, mesmo estando em regime de quarentena por causa da Covid-19, a opção para prostituição é sua única fonte de rendimento. “Neste momento, sabemos que é muito perigoso expor o nosso corpo para o sexo, mas não temos outra alternativa para o nosso sustento e encargos familiares, tais como pagamento de renda, alimentação, higiene, vestuário, transporte, entre outros encargos. Até já chegámos a pedir 200$00 a alguns homens, porque todo o mundo diz ’Kau sta mau’ e, por isso, qualquer dinheiro, para nós será bem - vindo”, anunciou a jovem de 30 anos, residente em Monte Vermelho e que preferiu anonimato.

Outra jovem, de 32 anos, que reside em Tira-Chapéu, e que não quis para ser identificado no jornal, desabafa que está a prostituir-se desde quando tinha 15 anos, altura que, segundo conta, deixou o Liceu (9º Ano de Escolaridade), porque o pai, que era pedreiro, abandonou a mãe com mais três irmãos menores. “Nestas últimas semanas, o movimento está a reduzir radicalmente no bairro onde moro, de modo que estou disposta a cobrar qualquer quantia em dinheiro para que possamos levar a panela ao lume. Eu sei que estou correndo o risco de contrair o Covid-19 ou outras doenças sexualmente transmissíveis, mas não há outra saída”, conta.

Apesar das medidas anunciadas pelo Governo e pelas autoridades sanitárias de Cabo Verde para a prevenção e combate ao novo coronavírus, Lizandra (nome fictício), mãe de dois filhos, residente na Várzea da Companhia confidenciou ao Asemanaonline que neste momento há pouquíssima procura de trabalhadoras sexuais no local. “Esta é pela primeira, vez em décadas, que as ruas do bairro estão vazias. Por ora, todos evitam aglomerações, mas trabalhamos na rua ou nas esquinas onde há pouca iluminação, a partir das 23:00 horas, para angariação de algum tostão para o sustento da família. Este Covid-19 afetou todo mundo e ninguém quer sair da sua casa”, desabafa.

Em situação idêntica está outra mulher de 38 anos e moradora em Castelão, e que, sob condição de anonimato, ela conta à nossa reportagem que entrou na vida fácil desde o ano 2004, por causa da extrema pobreza por que passava a sua família, composta por seis pessoas. "Com essa doença que já abalou o mundo, o movimento baixou muito, muito mesmo. Se antes não estava bom, agora piorou. Nós que somos hospedeiras do sexo, já somos vistas como vetor de doenças, e também nos olham como responsáveis pela propagação do coronavírus", afirma. Entretanto, prefiro correr o risco para vender o meu corpo a qualquer preço, do que ver os meus filhos com fome”, argumenta.

Outra inconformada com a falta de clientes para favores sexuais é Rosalina (nome fictício), de 35 anos, que vive no bairro de Lém-Cachorro, há mais de 15 anos. Um pouco mais criativa, a mesma conta à nossa reportagem que está oferecendo videochamadas, que considera mais seguro, para combinar com qualquer cliente que se mostre interessado a sexo, pelo preço mínimo de 500$00. “Esta atividade é bastante rentável, mas perante este momento de pandemia, o risco é grande e os homens estão com medo de contágio”, confessa.

Uma população invisível exposta a doenças

Em geral, são milhares, os trabalhadores cabo-verdianos que sofrem com a falta de medidas do governo que os protejam de prejuízos causados pela pandemia, mas as profissionais do sexo são, especialmente, invisibilizadas desde antes do surgimento do novo coronavírus no mundo. Mas é uma classe social exposta a doenças.

Segundo uma socióloga profissional, com quem este diário digital falou, em Cabo Verde a troca consciente de favores sexuais por dinheiro ou benefício continua encoberto, rodeado de tabus . Ela acredita que, de uma forma geral, a prostituição não é assumida por quem vende e nem por quem compra sexo. “A prática desta atividade, além de ser um crime, não está regulamentada como uma profissão no nosso País”, adverte.

Desemprego, gosto, luxo, sustentar a família e pagamento de rendas, são fatores que esta ativista social destaca como principais causas que levam as mulheres, sobretudo jovens, a entrarem no mundo de vida fácil, ignorando os riscos associados a essa prática em relação às infeções sexualmente transmissíveis, principalmente ao VIH. “Sabemos que muitas meninas ainda estão nas ruas, desertas, dependendo de uma clientela que está trancada em casa para se proteger da pandemia. Para isso, é preciso medidas para resolução deste problema porque senão, daqui a alguns anos, teremos sérios problemas sociais que circundam a nossa juventude”, ressalta, sublinhando que, infelizmente, não existe uma política de proteção para elas e nem para outros trabalhadores autónomos que dependem da renda diária.

A ativista social reconhece ainda a prostituição como sendo a profissão mais antiga do mundo, mas a sua preocupação maior neste momento é cuidar da saúde, em vez de pensar na economia.”De qualquer forma, nós precisamos tomar medidas sobre a prática da prostituição, atos que são considerados ilícitos. Primeiro, porque é uma questão de saúde pública, depois, porque continuar vendendo o corpo, também aumenta o estigma que existe sobre as prostitutas. Já são vistas como veículos de doenças e não queremos reforçar essa marca", conclui a psicologia refere à reportagem do Asemanaonline. Foto: arquivo

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