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Condenado a 25 anos de cadeia, Le Roux "senhor da África Oriental" 10 Julho 2020

A venda ilegal online, que ia de metanfetaminas e outras drogas e opióides a armas e contratos de mortes e golpes de Estado, tornou-o milionário antes dos 30 anos. O zimbabweano Paul le Roux, de 47 anos, o maior gângster online, ouviu esta semana a sentença por vinte anos de crimes a que foi condenado num tribunal novaiorquino: vinte e cinco anos de prisão.

Condenado a 25 anos de cadeia, Le Roux

Detentor de passaportes da Austrália, África do Sul e Zimbabué, Paul le Roux usou em documentos de identificação ao longo dos seus anos de vida criminosa, diversos nomes, entre os quais John Bernard Bowlins, Bernard John Bowlins, Johan, John Paul Leroux (ou Leraux), Johan William Smi.

Nascido em 1972 sob o privilégio dos etnicamente "brancos" na então Rodésia, Paul le Roux continuou a partir de 1984 — ano da queda do poder branco e instauração da República do Zimbabwe/Zimbabué — a usufruir de tais privilégios na África do Sul do apartheid.

Um privilégio que usou para se tornar um criminoso e não o brilhante programador que prometia ser desde a sua adolescência no país que acolheu a família em 1984. E como demonstrou ao criar em 1999 para a Microsoft Windows o programa de software E4M.

Porquê? Os que analisaram o seu percurso são unânimes de que ele "precisava de fazer dinheiro rápido", para realizar a sua ambição de poder: tornar-se um grande "senhor da África Oriental".

"Sei que em conversas, ele repetia as suas ideias que podemos chamar de neocoloniais, expressava o seu desejo de tornar-se um grande na África Oriental, a começar pela Somália, onde estabeleceu uma base para controlar o território", escreveu o jornalista Evan Ratliff.

Armadilha

Em 25 setembro de 2012, o brilhante programador Paul le Roux, residente na África do Sul, tem encontro marcado num hotel de Monróvia, Libéria, com um dito Pepe.

É o seu segundo encontro com esse senhor do ’narco’ colombiano com quem negoceia, além da cocaína para os Estados Unidos, a rota América do Norte-Europa de metanfetamina em cristais, um estupefaciente dos mais duros.

A primeira vez foi apenas uma semana antes, no Rio de Janeiro. Por interesse de Pepe, o segundo encontro ficou marcado para a capital liberiana.

Le Roux — dados os seus desmedidos planos para se tornar um "grande" em África — propõe usar a abundância de matéria-prima e a rede dos seus conhecidos para instalar narco-laboratórios na África ocidental.

O que o brilhante programador tornado narcotraficante desconhece é que caiu numa armadilha e tudo está a ser filmado pela americana DEA-Agência de Combate aos Narcóticos.

O segundo encontro foi uma estratégia para ele poder ser preso e extraditado para os Estados Unidos, a partir da Libéria. Não só por o "país mais pró-EUA de África" ter um acordo de extradição, mas porque Le Roux no Brasil goza de imunidade à extradição porque tem um filho cidadão brasileiro.

No mesmo dia é detido pela polícia nacional liberiana, com vista à sua extradição para os Estados Unidos. No dia 26, é deportado para os Estados Unidos. Quase oito anos decorrem entre a chegada ao país e a sentença desta semana.

A rede criminal de Paul le Roux

O julgamento em Nova Iorque fez luz sobre a extensa rede criminal de Paul le Roux que em 2012 era tido como o maior fornecedor ilegal online. A sua rede cobria metade do globo, segundo relatos.

As audiências em tribunal mostraram que a atividade criminosa de Le Roux começou com a sua farmácia online RX Limited. O respetivo volume de negócios era já em 2000 da ordem das centenas de milhões de dólares por ano — sobretudo provenientes da venda ilegal de analgésicos no mercado dos Estados Unidos.

Milionário graças à crise opiácea dos Estados Unidos, Le Roux queria mais. Chegou a ter uma milícia própria, de duzentos homens na Somália, para proteger os seus interesses na costa africana oriental. O suficiente para o pôr no radar do Conselho de Segurança da ONU.

A sua biografia dá conta de que na primeira década de 2000 está sediado mas Filipinas, de onde envia metanfetaminas para a Coreia do Norte, embarca toneladas de cocaína para a Austrália, dirige o tráfico de armas para a Indonésia e lava os seus milhões em ouro ganês e congolês.

Um relatório da Defesa dos Estados Unidos dá-o como envolvido no fornecimento ao Irão de um sistema de mísseis-guia.

Relatos posteriores mostram-no no Brasil: "Sul-africano coordenava do Rio esquema em 40 países de tráfico de drogas e armas", titulava em 2013 o jornal Folha de São Paulo.

Golpe de Estado e ouro de Kaddafi

O ouro do deposto líder líbio Kaddafi terá sido, em parte, contrabandeado por Le Roux, segundo alguns relatos que indicam a África do Sul como o destino do precioso metal — ’o ouro do bandido’.

O planeado golpe de Estado nas Seychelles com um exército de mercenários (internacionais) acabou por não se efetivar.

Mas segundo le Roux depôs no tribunal de Nova Iorque— sob a condição prévia de que não ia ser condenado pelos crimes —, a sua participação em contratos de mortes incluiu a morte de um dos seus matadores contratados.

Delação

A condenação a vinte e cinco anos parece pouco, dada a sua longa lista de crimes. Mas Le Roux negociou a delação de cúmplices e assim evitou a pena mais longa, esperada pelos que acompanharam o seu percurso desde o ano 2000.

Mas o acordo entre Le Roux e a Justiça dos Estados Unidos permitiu caçar outros criminosos. Por exemplo, entre os matadores contratados da rede criminal, estavam até ex-militares, como o condenado a vinte anos por um tribunal de Nova Iorque após Le Roux o ter delatado" (notícia do New York Times: Army Sniper Gets 20-Year Sentence in Murder-for-Hire Scheme, 1.jun.016).

A sua detenção em 2012 terá decerto interrompido o sonho do império neocolonial que Paul Le Roux planeava construir com dinheiro do tráfico online de opiáceos, a acreditar no seu biógrafo mais prolífico, Evan Ratliff.

Fontes: Deutsche Welle/Washington Post/ Outras referidas. Relacionado: EUA: Crise opióide leva Purdue Pharma a pedir nacionalização do grupo, 17.set.019. Foto(AFP): Le Roux numa rara foto de 2016, aos 43-44 anos..

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