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Créditos ruinosos da CGD põem Joe Berardo na cadeia — Presidente Marcelo evita comentar mas elogia inquiridores e tem Conselho de Estado a ponderar retirada de condecorações 01 Julho 2021

O empresário José Manuel Rodrigues Berardo de 76 anos, da lista de multimilionários de Portugal, passou a noite desta terça-feira, 29, no Estabelecimento Prisional de Lisboa e, apresentado em tribunal na manhã seguinte para responder a um inquérito judicial, voltou à prisão para regressar ao tribunal na quinta-feira. Marcelo Rebelo de Sousa não quis fazer comentários sobre a investigação em curso, mas quis deixar elogios aos deputados que estiveram na comissão de inquérito, que concluiu que o empresário fez de tudo para não pagar as suas dívidas, e ainda à gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD), que fez de tudo para recuperar os empréstimos não pagos.

Créditos ruinosos da CGD põem Joe Berardo na cadeia — Presidente Marcelo evita comentar mas elogia inquiridores e tem Conselho de Estado a ponderar retirada de condecorações

O presidente português esta quarta-feira, 30 — em visita à UEP-Unidade Especial de Polícia, sita na histórica vila de Sintra (que é sede do concelho homónimo) —escusou-se a comentar o processo que "deix[a] à justiça".

O presidente não hesitou, porém, em falar sobre "o papel fundamental da comissão parlamentar de inquérito", que concluiu efetivamente que Berardo "recorreu a mecanismos e artifícios com vista a ludibriar as administrações quer da CGD quer de outros bancos e desse modo proteger os bens que tinha dado como garantia na renegociação dos seus créditos", segundo o relatório final.

"Eu pessoalmente não tenho dívidas". Esta asserção de Berardo, em resposta a uma pergunta durante a sua audição parlamentar, espantou meio-mundo. A começar pelo primeiro-ministro António Costa, que se afirmou "chocado" com o "desplante" de Joe Berardo e expressou que o país "espera vê-lo pagar o que deve".

Mil milhões em dívidas de quem? Estaria o devedor de quase mil milhões de euros a referir-se ao facto de ser a Fundação com o seu nome e a Metalgest a deverem cerca de 960 milhões de euros aos bancos, incluindo a Caixa Geral de Depósitos e o Novo Banco com garantias públicas diretas e indiretas dos contribuintes?

Nessa inquirição há dois anos do "Comendador", destacou-se ainda o seu advogado André Luiz Gomes – que também dormiu na cadeia, neste último dia de junho. Gomes travava o seu cliente que embalava nas respostas, ditava-lhe "literalmente o que dizer em quase todas as respostas", " telegráficas sobre os seus créditos e a sua relação com a Caixa Geral de Depósitos".


Comendador, condecorado, ....

Sobre a eventual retirada das condecorações ao empresário natural do arquipélago da Madeira e que enriqueceu nas minas sul-africanas, o presidente Marcelo esclareceu: "Há um processo em curso, que a pandemia acabou por parar, ou suspender, ou adiar, e vamos deixar essa tramitação seguir. É da competência do Conselho da Ordem, a quem cabe a última palavra". Ou seja, a entidade presidida pela ex-governante Manuela Ferreira Leite. Como chanceler do Conselho das Ordens Nacionais, é ela quem terá de reunir os conselheiros para a tomada de decisão.

O "Comendador" multimilionário com uma fortuna avaliada seja em 1,8 mil milhões de dólares, pela Forbes, seja em 589 milhões de euros, segundo a revista Exame que o classificou como a nona fortuna portuguesa, recebeu condecorações do Estado Português e uma de França.

Em 1985, Berardo foi agraciado com o grau de Comendador. Em 2004, foi elevado à Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

Em 2005, recebeu o grau de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra, a mais alta condecoração de França. Uma "operação de charme gaulesa", segundo críticos que apontam a má gestão cultural em Portugal e que veem nesse gesto uma "manobra da França" para levar alguns exemplares da coleção Berardo em que constam alguns dos mais importantes artistas da pintura portuguesa do século XX (Paula Rego, Amadeu Sousa Cardoso, Carlos Calvet, Noronha da Costa, Helena Almeida...).

Devedores aos bancos: "Que haja justiça"

A deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua — que se destacou na inquirição em 2019 ao empresário suspeito de defraudar o Estado em mil milhões de contos — disse ontem esperar que seja feita justiça em relação a devedores aos bancos como Joe Berardo "expostos nas comissões de inquérito" que cometeram ações "muitas delas de caráter fraudulento".

Para a história ficam os flashes da inquirição parlamentar. Um deles, quando durante a ronda de perguntas da deputada Mariana Mortágua, a bloquista começou a descrever as aparições recentes de Joe Berardo nos media a exibir os seus luxos e perguntou-lhe: "Porquê não paga o que deve?". Berardo respondeu: "Eu pessoalmente não tenho dívidas". Mortágua abriu os braços a expressar incredulidade.

No inquérito judicial desta quarta-feira, o "self-made man" ficou calado e saiu com mais quatro crimes inscritos no seu processo. O filho também foi constituído arguido.

Fontes: RTP/ SIC. Fotos: Riso sarcástico de Joe Berardo na comissão parlamentar ao ser inquirido pela deputada bloquista Mariana Mortágua; o riso que "é o melhor retrato da elite medíocre", segundo o classificou Marisa Matias, candidata presidencial do BE.

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