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’Criminoso de guerra sul-coreano vítima do imperialismo japonês’ espera há 75 anos indemnização do Japão 09 Setembro 2020

Lee Hak-Rae aos 95 anos segura a cópia da foto dele e outros recrutados pelo exército japonês que ocupava a Coreia do Sul. No fim da Segunda Guerra foi condenado à pena capital como criminoso de guerra. Libertado em 1957, contava receber a indemnização que o Japão atribuiu aos militares. Com ele, um total de 148 sul-coreanos ficou à espera, mas decorridos 75 anos Lee é o único sobrevivente do grupo e é em nome deste que continua à espera de ver o Estado japonês reconhecer o seu direito.

’Criminoso de guerra sul-coreano vítima do imperialismo japonês’ espera há 75 anos indemnização do Japão

O nonagenário repetiu: "Porque é que não me ouvem? Porque é que nos tratam diferente?". Disse e repetiu durante a reportagem do Japan Times que o visitou no último fim de semana na sua casa de Tóquio.

Lee, que "fala ora em coreano ora em japonês", contou a sua saga como um dos recrutados para o exército japonês. Um ’criminoso de guerra sul-coreano vítima do imperialismo japonês’ que espera há 75 anos por uma indemnização do Japão.

Os registos históricos do seu processo criminal dão-no como um dos "piores torturadores dos prisioneiros de guerra aliados". Um australiano contou como um dia Lee lhe bateu na cabeça com uma cana de bambu até esta partir. Outro relatou que ele ia buscar os doentes à enfermaria para os obrigar a trabalhar.

"Eu estava no mais baixo escalão do exército, eu só cumpria as ordens. Como é que eu podia ser o principal torturador?", contrapões Lee que aos 17 anos era capataz das obras da ferrovia que ligava as áreas ocupadas pelo Exército Imperial do Japão durante a Segunda Guerra.

O Japão perdeu a guerra e o jovem sul-coreano Lee Hak-Rae foi um dos 148 sul-coreanos classificados pelos Aliados como criminosos de guerra. O grupo foi julgado e condenado à pena capital por enforcamento, mas os Aliados acabaram por executar apenas vinte e três deles, segundo os arquivos citados pelo Japan Times.

Libertado em 1957, Lee não voltou à Coreia do Sul porque "ia ser mal recebido. Só os meus pais e irmãos me iam receber de braços abertos. Para os outros eu ia ser um traidor".

Ponte ferroviária sobre o rio

O destino de Lee esteve por três anos ligado às obras da ferrovia cujo trecho mais famoso é a ponte sobre o rio Kwai, emblemática atração turística desde o filme homónimo que ganhou o Óscar de 1957.

Sobre a famosa ponte passa a ferrovia em cuja construção morreram dezenas de milhares de prisioneiros de guerra, doze mil dos quais australianos, britânicos , neozelandeses, americanos.

No total, o Japão forçou mais de 350 mil prisioneiros de guerra — 300 mil asiáticos e mais de 60 mil aliados — a construir os 415 quilómetros da ferrovia entre as montanhas da Tailândia e Myanmar/Birmânia.

Militares reconhecidos e não

"Os coreanos condenados por crimes de guerra viveram dias terríveis depois da guerra. Para a Coreia eram traidores, que colaboraram com o inimigo japonês. Mas o Japão também não os queria e o governo não lhes concedeu quaisquer direitos", explica o historiador Robert Cribb, da Australian National University.

O Japão recuperou a soberania através do Tratado de Paz de San Francisco assinado em 1951 e dois anos depois começou a pagar as pensões dos militares veteranos japoneses vivos ou não.

Quase sessenta anos depois, um veterano — seja o próprio seja o seu herdeiro — pode receber até 4,35 milhões de ienes (¥4.35 = 3,8 mil contos) por ano.

Importante também é que os militares japoneses e familiares são enterrados no Santuário Yasukuni da capital.

"Como é que eu posso aceitar esta situação inexplicável? É injusto e incrível". Foi isso mesmo que em 1999 e depois em 2006 foi ao parlamento dizer aos deputados. Mas o pedido para compensar os sul-coreanos do exército japonês continua sem ser aprovado.

"Tive a sorte de viver até aos 95 anos. Por mim, não gostaria de viver mais. Mas não posso deixar de lutar pelos meus camaradas que morreram", diz o último dos 148 sul-coreanos integrados à força no exército japonês.

Fontes: Japan Times/BBC. Fotos (Reuters/Xinua): 1. Lee Hak-Rae aos 95 anos segura cópia da foto dele e outros levados para supervisionar a construção da ponte em 1942; em 1946 aos 21 quando foi detido para julgamento dos Aliados como criminoso de guerra japonês sob o nome Kakurai Hiromura. 2. Ponte férrea em Kanchanaburi, construída sob a ocupação japonesa da Tailândia durante a Segunda Guerra. Escapou ao bombardeamento que os Aliados vencedores tinham planeado e continua funcional, além de ser uma atração turística.

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