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Crise dos opiáceos chegou a Cabo Verde, diz a ONU-DC 28 Junho 2019

A representante do Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (ONU-DC), Cristina Andrade, por ocasião do Dia Mundial contra a Droga que se celebra a 26 de junho, alertou que "drogas medicamentosas", "que são controladas", ou seja, vendidas com receita médica, estão a entrar no mercado ilícito em Cabo Verde.

Crise dos opiáceos chegou a Cabo Verde, diz a ONU-DC

O problema do consumo dos opiáceos nas sociedades mais desenvolvidas, como noticiámos (apoiados em fontes abaixo referidas) em 18 de abril (2018), relativamente aos Estados Unidos, e 31 de agosto, em relação ao Canadá, agrava-se porque são substâncias medicamentosas de venda legal, com receita médica.

Nos Estados Unidos, dizem as estatísticas, substâncias estupefacientes que matam não são vendidas por traficantes (drugdealers), mas são aviadas com receita médica ao balcão das drugstores (são lojas de venda de medicamentos, embora se aproximem mais da tradução "drogaria"), numa transação legal.

A primeira potência mundial perante o flagelo dos opiáceos promete — em cada nova campanha presidencial — que vai pôr as rédeas aos lóbis da indústria que fomentam o problema.

O Canadá em agosto mostrou como deve ser feito esse controlo sobre as farmacêuticas: o Estado levou ao banco dos réus mais de quarenta empresas farmacêuticas, acusando-as pelas mais de quatro mil mortes ocorridas só em 2017.

Esta ação não é a única que mostra a mão longa da lei no Canadá, já que as campanhias farmacêuticas são obrigadas a declarar quanto dinheiro dão a médicos, hospitais e outros serviços de saúde. Uma medida que alguns aplaudem, como permitindo ao público ter acesso a uma informação essencial, outros deploram, como "demasiado Estado" na iniciativa empresarial, e outros ainda acham insuficiente, porque não mostra a extensão dos laços financeiros entre médicos e farmacêuticas, já que até agora os únicos usos listados são "comparticipação em viagens, seminários".

A ação contra as mais de quarenta farmacêuticas visa recuperar as centenas de milhões de dólares que o Estado gastou em serviços de urgência e hospitalizações devidos aos opiáceos, vendidos como analgésicos e com recurso a “publicidade enganosa” que mascara os “riscos do seu consumo”.

“Já é tempo de responsabilizar as farmacêuticas — na sua maioria são canadianas e americanas — pelos custos financeiro e humano que os seus produtos representam para tantas famílias”, lê-se no comunicado do ministro da Justiça da Colômbia-Britânica, David Eby.

Uma overdose mortal, por abuso de substâncias derivadas do ópio, como heroína e morfina, acontece a cada meia hora no Canadá, dizem as estatísticas citadas pela AFP. Nos Estados Unidos, a frequência é trinta vezes superior: uma morte por minuto, mais de 70 mil mortes só em 2017, segundo a mesma fonte.

Como escrevemos em agosto último, com base em busca online, «O Brasil faz festival de preços de "Oxycontin" na internet»: «só no Brasil — aqui tão perto de nós. Nenhuma referência a "receita médica", nos sites brasileiros. Mas ao limitar a busca a Portugal, surge a advertência de que é de uso proibido, controlado sob supervisão médica».

«No Brasil, a embalagem de 28 comprimidos tem o preço habitual R$ 281,15, ou seja 6.418$79. Mas em maré de "festival de preços" há fabricantes (como a Giga Farma) e lojas — sob os denominativos "farmácia", "drogaria" — que oferecem descontos de 15% e pagamento em prestações "sem juros"».

«O controlo na União Europeia existe desde há décadas. Só agora começou na América do Norte, ao fim de décadas de consumo sem atenção aos efeitos secundários". E no resto do mundo como vai ser?»

Cabo Verde tem de apostar na prevenção e tratamento

A representante da ONU-DC, Cristina Andrade, em conferência transcrita pela Inforpress, explicou que o país tem de trabalhar "de forma a ter mais controlo" e "investir na prevenção".

O papel da família é realçado como fundamental para "mais eficácia na prevenção e tratamento" das dependências. É no seio da família, lugar de relação que se pode preencher "o vazio" que geralmente acompanha o consumo de drogas. Também a escola tem um importante papel nessa estruturação relacional interpessoal para haver "mais diálogo".

"Vamos investir na prevenção e tratamento, aumentar o acesso nas comunidades onde as pessoas vivem, no sentido de dar respostas e de facilitar o acesso ao tratamento", acrescentou a responsável nacional pelo combate às toxicodependências.

Cabo Verde um ano depois faz a sua primeira conferência sobre o tema e apontaram-se caminhos. Perguntemo-nos, à luz das experiências de outros países e dada a nossa ’inserção dinâmica’ na economia mundial, incluindo a dos opiáceos, que outras medidas têm de ser estudadas e aplicadas.

Fontes: Referidas /Arquivos A Semana. Foto (AFP): A oxicodona é mais referida, acima, nos casos dos Estados Unidos e Canadá, enquanto em Cabo Verde são o fenantil (fenantyl em inglês) e o tramadol. Todos são opiáceos e tal como a oxicodona, mesmo com uso "restrito e sujeito a receita médica especial", estão no centro da crise dos opiáceos — mais alarmante em toda a América do Norte, talvez por haver mais estudos. Que dizer do país tão próximo (não, não é o Senegal) onde está à venda até na Internet?

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