OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Crónicas de Timor: Americanização 18 Setembro 2022

Mesmo o nosso emigrante comum do século passado parecia um homem de “pé más fincado na terra”, mais seguro do que esta juventude deslumbrada que, hoje, até teria tempo de se cultivar, pois a robotização deixa-lhes mais tempo…!

Por: Lívio Lopes*

Crónicas de Timor: Americanização

Alguns posts e lives editados e emitidos por castiços (ou mais) cidadãos da nossa emigração, com particular incidência nos “States”, são a pobre expressão de uma subcultura ruinosa, traduzida no “snobismo” da trivial riqueza material, com expressões tais como: “I’m a rich man”, “I’m the boss(a)”, “dóla ki tâ manda”, “Cabo Verde ê merda”... Este fenómeno parece querer transmitir-nos a ideia de que nos “States”, (p. ex.) o saber é utilitário e materialista, desprovido de valores tais como a humildade, o respeito, a competência, a perfeição, o trabalho digno, a maturidade, o profissionalismo ou o caráter! É um espalhar de loucuras que espanta! Mas naturalmente que estamos perante a excepção à regra, que perturba, porque mete todos os emigrantes no mesmo saco! Até porque a nossa cultura é rica (Cesária Évora que o diga) e “nós criolo ê rico” como se pode depreender da imagem anexa “Anatomia di Djarfogo”! Kkkkkkkkkk…

Disse Teixeira de Sousa numa das suas obras de referência que muitos dos nossos chegam aos “States” e voltam de férias embrutecidos pela riqueza cega da roupa que vestem e do colar que ostentam! Mas já dizia alguém que onde a ignorância grita com arrogância, o silêncio ensina com elegância.

Eugénio Tavares fugindo à perseguição que sofria, escreveu, em junho de 1900 que “…finalmente, com 29 dias de viagem, fundeávamos à entrada do porto de New Bedford, Massachusetts. No dia seguinte atracou ao nosso costado um “tow boat", conduzindo oficiais da alfândega e um médico. Findo o serviço médico, o “tow boat” rebocou-nos para dentro e levou-nos a atracar do lado sul do Merril’s Warf, onde a B. A. Brayton despejou os seus passageiros no meio duma grande barafunda de cabo-verdianos que vinham ver a chegada dos patrícios ’greens’”. Como um enxame de abelhas, os nossos compatriotas zumbiam pelo cais e formigavam numa ladainha de cumprimentos, abraços, exclamações, risadas e choros…”. recapitulando ainda que “… eram abraços de arrombar costelas, ’shake hands’ de desengonçar braços, empurrões de emborcar uma criatura, tudo à americana, tudo de molde e jeito a deslumbrar o pacóvio, o basbaque, o ’green’ que nunca vira a América…”

Se estes dois ilustres intelectuais cabo-verdianos já tinham esta opinião nos idos tempos remotos do século passado, o que pensar hoje deste estranho deslumbramento de um cidadão cabo-verdiano emigrante neste século XXI, “ki ê um pratilêra de ’snobismos’ e marionete ki tâ karkuti tudo mundo pâ ganha bida em lives”?

Mesmo o nosso emigrante comum do século passado parecia um homem de “pé más fincado na terra”, mais seguro do que esta juventude deslumbrada que, hoje, até teria tempo de se cultivar, pois a robotização deixa-lhes mais tempo…! Eu me lembro do meu avô (dono), Manuel Lopes (Nhônhô di Nhô Txina), “cidadão merkano” regressado ao Fogo, dos “States” em 1951 (na navio Madalan) a transmitir aos filhos e netos valores da vida dura (maçada) da emigração, de forma mais honesta, em Nantucket e Cape Cod, enquanto “farmer/gardener” a capinar para os brancos… tendo, ao lado, como companheiro dessa caminhada o foguense Totone Manê Gaxinha com o qual consolava e ultrapassava os traumas da vida dura e gélida de Massachusetts, com a célebre cantiga de trabalho “Canivete di Bétiféti” que entoavam assim:

Si bu krê subi nês cantrê
Grita diberbunkadufatunzéz
Pô kema corpo na fatrê
Pôpa dôla, bá dum béz

Si kâ tem fatrê, e
Kâ tem londré

Trabadju nton ê
Canivete di Bétiféti
Tizôra di Califórnia
Matxado di Niorque

O lema deles era, portanto, “trabadju, trabadju” e cultivar o valor do trabalho honesto e digno, sem prejudicar ninguém.

Juventude nossa nos “States”, porque não aproveitar esta oportunidade de hoje para cultivar-se? Será que o mal desta geração é o corpo lindo e a alma feia?

Dá que pensar!

....
* Ex-deputado e ministro da Administração Interna de Cabo Verde

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