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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Crónica dum Regicídio tentado 30 Maio 2022

O capítulo treze de "Sete Vidas na Estrada" dá conta de regicídios, ’lato sensu’. O "tentado" do presente título tem de ser lido em comparação com o regicído de 1919 (note-se a maiúscula, a marcar o ’stricto sensu’) que, segundo o gabinete do vizir, não teve motivações políticas, dado que o atirador era "um vagabundo alcoólatra".

Crónica dum Regicídio tentado

O vizir saiu dos paços concelhios ou seria de sua casa, como de hábito, bem cedo para a sua caminhada matinal. Nessa fatídica manhã, decidiu esticar-se pelos bairros da capital sem nenhuma força significativa de proteção.

Uma manhã tornada fatídica por um duo — seriam vagabundos alcoólatras à procura do quanto baste para pagar o único mata-bicho do seu vício?

O ocupante dos paços concelhios a três léguas, contadas a partir do centro histórico. Ao chegar ao destino, foi baleado nas costas.

Correram para o socorrer enquanto o duo de atiradores se punha em fuga. Um duo de toxicodependentes à procura de dinheiro para a dose dessa manhã? Mais de nove meses decorridos, ainda não há resposta.

Cem anos antes, o seu émulo (podia até dizer o seu avô vizir, vizir para dar um colorido oriental a um facto verídico no litoral mais ocidental) perto do centésimo quinquagésimo dia no cargo preparava-se para violar a Constituição que co-autorara em 1911. Mais uma pedra na formação do presidente-rei.

O Regicídio do presidente-rei que abriu caminho a 48 anos de silêncio e medo. Relatam os cronistas que o vizir-presidente-rei saiu do Paço, como de hábito, manhã bem cedo para a sua caminhada matinal. Nessa manhã, decidiu esticar-se pelos bairros da capital sem nenhuma força significativa de proteção.

A três léguas do centro histórico, foi baleado nas costas. O atirador foi de imediato detido. Torturado na prisão, acabou no fundo da Torre Branca sobranceira à enseada.

Os relatos arquivísticos, tanto da imprensa como do tribunal, aquela traduzindo o discurso árido em prosa ora chã ora florida, dizem que o atirador "confessou pertencer a uma organização socialista" e "declarou ao ser preso: “O vizir não quis dar-me dinheiro".

Mas ao compulsar os arquivos um século depois, o cronista deparou-se com várias incongruências, além da que estava preto no branco nos jornais amarelecidos.

O gabinete do vizir, baseado no competente inquérito, concluía que o assassinato não teve motivações políticas, que o atirador era um vagabundo alcoólatra.

A morte do atirador foi assim explicada: sob tortura durante quatro dias, três noites, ele atirou-se de uma janela da Torre. A torre do suplício para os detidos de quem se queria obter informações.

Pós-escrito: Mais de nove meses decorridos (20.6.019), ainda ninguém foi preso. Maio’22: Notícias dão conta de detenção de executantes e nome dos mandantes.)

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