OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Crónicas de Timor: Do Mito à Realidade – Estará Cabo Verde no centro do mundo? 02 Outubro 2022

Eu que estava convencido que esta versão ( “Dó lin dó”) existia apenas em crioulo cabo-verdiano, acabei por descobrir que alguém “assentou arraiais” (provavelmente os nossos primeiros trabalhadores da construção civil), acampando por aqui em Timor, vindo de Cabo Verde ou Macau, e transferiu/socializando esta preciosidade!

Por: Lívio Lopes*

Crónicas de Timor: Do Mito à Realidade – Estará Cabo Verde no centro do mundo?

Neste mundo que se tornou globalizado nada parecia surpreender-me até conhecer Mana Lorosae, uma timorense que viveu entre Macau e Timor por muitos anos. Travamos amizade de imediato, porque a minha década de Macau (anos noventa), para além de um filho, ofereceu-me o Patuá ou Papiá Cristam (ou ainda Doci Papiaçan di Macau) que se aproximam, e muito, do nosso crioulo; é o Patuá que Lorosae adora e cultiva.

Das nossas trocas de experiências e culturas surge surpreendentemente o “Dó lin dó” da nossa infância com a mesma entoação e palavras, voando magicamente no tempo e no espaço, com a seguinte lírica:

Dó lin dó, fa ta ti ti ná,
Ná ná carambola issi
Si si caneca um pé
Xapi tchalina labanta um pé

Eu que estava convencido que esta versão existia apenas em crioulo cabo-verdiano, acabei por descobrir que alguém “assentou arraiais” (provavelmente os nossos primeiros trabalhadores da construção civil), acampando por aqui em Timor, vindo de Cabo Verde ou Macau, e transferiu/socializando esta preciosidade!

Devo confessar que nos meus tempos de Macau, ao caminhar pelos becos do trajeto Leal Senado às ruinas de São Paulo, o que mais me fascinava era falar uma mistura de crioulo com o Patuá, com os velhotes das lojas de velharias e artigos de museu. É com eles que a Mana Lorosae me confessa, hoje, ter aprendido muito do que aprendi lá também, e que se transformou numa mistura de aspetos culturais do ocidente com o oriente que me lembram Malaca, Coraçao (ABC Islands) e outras paragens do mundo, que em termos linguísticos se enquadram nos chamados “creoles ou pidgin languages”, que se cruzam de forma especial com o Papiamento das Caraíbas (Coração), não muito distante do oriente. Sendo estas línguas 80% de origem ibérica e 20% holandesa, palavras como “djongotô”, mi/bó tâ bai, ki ora stâ ou barboleta (entre outras), aparecem, porém, pelo meio, como claras expressões do crioulo cabo-verdiano, confirmando a influência da rota de escravos que Cabo Verde foi, quando se sabe que as Caraíbas e esta região do Pacífico/Indico, onde Timor se situa, foram, em comum, territórios de colonização holandesa, portuguesa e espanhola (ver vídeo anexo).

Conversa puxa conversa - é um conto que gera outro conto e acrescenta-lhe um ponto - surge, na sequência, o mito da criação do mundo e das raças, que Lorosae tem na ponta da língua, e desenha-o para mim, com a mestria dos “lia-nains” de Timor que são as autoridades tradicionais timorenses, mediadores de conflitos e de justiça, conhecidos como “os donos da palavra”. Diz-me Lorosae que
…os “lia-nains” acreditam na reencarnação dos timorenses já falecidos, reencarnados mais tarde nos povos portugueses e até nos chineses. E tudo isto acontece dentro do contexto da lenda “Uran Wak”... Em face da diferença cutânea dos povos com quem contactaram, os timorenses continuam a perguntar: porque é que os portugueses e chineses têm a pele branca? E os africanos não? E porque é que os timorenses têm uma pele menos branca e menos escura? Surge então outra lenda ou mito para responder a estas perguntas.

Diz a lenda que quando Deus criou os seres humanos, fê-los em três fornadas, cozendo bonecos de barro, moldados pelo próprio Deus. Na primeira fornada, Deus fez a imagem do homem feita em barro e pô-lo no uran significando panela (em língua Galole). Mas como Deus estava ansioso para ver o efeito do seu trabalho, não deu tempo suficiente para a cozedura dos bonecos. E dessa primeira fornada saiu a raça branca. Nota-se hoje que os europeus e australianos gostam muito de banho de sol para bronzear a pele, necessitando de completar dessa maneira a cozedura que ficou incompleta na primeira fornada. Na segunda fornada, Deus não se preocupou muito em tirar depressa os bonecos do uran, e assim os bonecos ficaram bastante queimados. É a fornada de raça preta. Na terceira e última fornada, com a experiência das duas primeiras fornadas, Deus acautelou-se em calcular bem o tempo para os bonecos não ficarem muito brancos e nem muito queimados. É a fornada da raça timorense, que nem é muito branca e nem é muito queimada. É o meio termo entre as raças das duas primeiras fornadas.

O incrível é que no ocidente, na mesma linha, um mito africano semelhante justifica este fenómeno das criaturas com contos populares cabo-verdianos como aquele de Lálá de Madalena que me dizia, no seu jeito jocoso, que “…oje tudo tâ clar’ que nem quel aga di r’bera na qual Deus lavou as primeiras criaturas. As primeiras, mais ágeis encontraram a água limpa e ficaram brancas; as segundas criaturas, mais distraídas, encontraram as águas meio sujas, lavaram-se e ficaram mulatas; as terceiras criaturas, mais lentas e preguiçosas, chegaram atrasadas e só puderam molhar as palmas das mãos e as plantas dos pés, ficando por isso negras que nem noite. Por isso Deus Nosso Senhor virou para o branco e deu-lhe uma caneta; para o mulato uma balança e para o negro esta enxada que trago comigo! É assim a vida, irmão!”…
Estamos, pois, perante mitos e expressões linguísticas semelhantes localizados a uma distância da noite para o dia, cujo percurso hoje se faz de avião em menos de 2 dias, mas que no passado era “eternizante” no porão de um barco à vela!

Como foi possível esta troca cultural tão forte ao ponto de podermos entender, hoje, na mestiçagem, à distância do oriente!?

Para compreender este fenómeno, vejamos, então os vídeos que se seguem:
https://youtu.be/RRzk0FBKIrg
ou
https://fb.watch/fU9Yf08qoD/

...
* Ex-Deputado da Nação e Ministro da Administração Interna de Cabo Verde

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    publicidade

    Newsletter

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project