OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

“Da amizade” e da honestidade 13 Maio 2019

Bem, política à parte. Não obstante isso, temos que convir que há sempre uma causa ou relação fundamental, um elemento estruturante ou arcaboiço inaugural para tudo o que funciona em cadeia. Chamemos a isto um prius por detrás de uma sucessão de fenómenos, capaz de conferir coerência ao todo e sem o qual o resto desmorona e cai, por falta de sentido. Então, cá para mim, na minha pacata opinião de humilde cidadão, quando se fala de memória coletiva, seja em Cabo Verde, seja na Guiné-Bissau, Amílcar Cabral é, sem dúvida nenhuma, a trave-mestra, este prius, este brioso e insuprível prius. Não é de natureza comparativa com os demais entes da nossa vida pública, por mais excelsos e respeitáveis que estes sejam, e muito menos substituível, ainda que de modo meramente fantasioso ou fictício. Se alguns me quiserem chamar cabralista, estejam perfeitamente à vontade, que isto só me envaidece.

Por: Domingos L. Miranda Furtado de Barros*

“Da amizade” e da honestidade

Havia decidido fazer uma longa pousa na minha escrita para os jornais. Contudo, em nome da amizade, só em nome dela, o maior bem intangível, quiça logo a seguir à vida, à saúde e à tolerância, sou obrigado a voltar atrás com a palavra. Claro, porque também assumo a sacralidade da palavra dada, por mais que isso me possa custar, como já muito me custou. Então, o leitor enxergará que estou a fazê-lo porque há valores que me parecem de perene validade e de aplicação universal, para o escorreito funcionamento da sociedade dos homens. A amizade, uma sincera amizade, reafirmo aqui e agora, aquela leal e despretensiosa é um desses sublimes e deíficos valores. Lembro-me de ter lido alguns clássicos da moral e da literatura, de diversos quadrantes do globo, para quem uma verdadeira amizade é o esteio mais precioso e nobre a que um ser humano pode aspirar.

Falo dos mais intrépidos e irrepreensíveis humanistas, humanistas a todo o transe, e sem o mínimo de mácula. Porém, a par disso, foram concomitantemente compreensivos para com todos aqueles que, em determinada fase de percurso, tiveram que se insurgir, recriminaram ferozmente, não digerindo da melhor forma a falta de lealdade, a causa primacial da quebra de confiança nas relações entre as pessoas. E mais que isso: entre amigos, muitas vezes, de largos anos de convivio e de partilha de sigilosidade. Tais colossos de moralidade não só alcançaram o justificado motivo de repulsa como deram o seu veemente aval em como semelhante trivialidade deve ser merecedora de repúdio e de abrenúncio, para não dizer excomunhão, porque, desde os tempos imemoriais, é considerado ignóbil alguém estar a aproveitar-se da sua posição de amigo, para devassar as confidências que lhe são confiadas, de forma diabólica e luminária, com o único intuito de galgar a escada de fama e de glória à pressa. E pior: à custa da venda de honorabilidade dos seus próprios amigos.

Não é justo, não é limpo e nem sequer é bom para ninguém. A traição é algo que dói até na cova. Não pode haver amizade sem honestidade, uma certa reserva ou contenção. Sempre me apavorou ingentemente a ideia de delatar coisas que me chegam aos ouvidos, graças à confiança em mim depositada. Hoje em dia, existe uma sanha malfadada e pérfida de chegar ao fim da escala de ganância, de tal maneira avassaladora e a qualquer preço, que algumas pessoas perderam já a noção de decência e de decoro. É o galopante narcisismo e seu correlativo desprezo pelo nome doutrem a ditar as regras de civilidade. Há uns anos, tive o privilégio e muita felicidade de encontrar pelos trilhos da minha azafamada busca do correto um radioso professor de Latim que, numa aula, nimbou ele a nossa mente, a dos alunos da sua turma, com a máxima que aqui, contextualmente, acho pertinente partilhar «amicus secretus admore, palam lauda». Vou traduzir isto para comodidade dos leigos em matéria do Latim «repreender os amigos em privado e louvá-los em público».
Refiro-me ao mui benquisto e bem lembrado, Frei Camilo Torassa, que foi meu Lente no Liceu Ludgero Lima, na ilha de Sam Vicente. O mesmo que nos pôs, em decorrência do brocardo, a fazer análise sintática da parte da frase entre aspas, que dá título a este artigo, com o nítido escopo de nos convidar a uma breve reflexão sobre os valores da amizade. Infelizmente, algumas brejeiras e espertinhas criaturas do nosso meio não sabem que os denodados amigos devem ser os primeiros a apoiar e os últimos a atacar. No mínimo ou na falta do melhor, devem optar pelo silêncio, que isto não escandaliza ninguém. Tudo o resto é perversão, “tout court”. Estar-se na dianteira liderante para enlamear e denigrir a imagem dos amigos, por birra de cafuringas ou pecuinhos interesses inconfessos, é algo que não dá para entender e muito menos aceitar. Porém, hodiernamente, os intriguistas e merceeiros do recado inverteram por completo esta regra milenar e salutar de convivialidade. A receita é aplicável não só nos tratos entre pessoas singulares como ainda entre estas e pessoas coletivas ou só no tráfego institucional entre estas últimas.

Da mesma forma que me revolta e me deixa siderado determinadas imbecilidades, envolvendo relações de amizade, recrimino com a mesma vivacidade e sem qualquer hesitação, a barganha daqueles que estando em plena pujança física, podendo dar-se ao engenho de rendosa e diversificada índole, preferem, pelo contrário e torpemente, apequenar-se, miseravelmente, deixando-se levar pela fúria e pelo ciúme de figuras transitadas, desatando a conspurcar os seus nomes por dá cá aquela azia. Para quê? Pergunto eu, mil vezes atordoado. De há muito para cá me defini como fiel aos meus princípios e intrepidamente leal aos meus amigos, no limite de razoabilidade, como é óbvio. Esta reta e preclara razão das coisas impele-me a defende-los e me bater por eles, máxime, até o trânsito em julgado da sentença condenatória, se for o caso. Sendo certo que, percorrendo a causa todos os íngremes degraus de instâncias formais de ajuizamentos, com decisão inexoravelmente irrecorrível, aí, apenas me restará ser solidário e dar-lhes cobalto moral, para cumprirem com dignidade o seu castigo.

E guiado pelo mesmo critério valorativo, também escolhi como matiz do meu agir: nunca disparar os meus esbirros na direção de figuras já falecidas. Quer os claramente imortais à face da memória coletiva, quer os mais pacatos cidadãos comuns. Para quê? Volto a perguntar. Para destroná-los e ficar no lugar deles? Não faz sentido. Assim, jamais estarei aqui ou ali, só para me armar em engraçado e tentar diminuir seja quem for. E tão somente para acrescer e se possível enobrecer o que fizeram os meus virtuosos predecessores. Mesmo eu, que passo a vida a rabiscar acerca de personas eminentes da nossa terra e não só, para enaltecer os seus feitos e façanhas, se por acaso for mal interpretado pelos seus entes queridos, por mais que sejam impolutas as minhas intenções, devo parar imediatamente de tal empresa, respeitando escrupolosamente a memória dos que partiram, dando provimento à vontade dos seus familiares, que são os seus legítimos representantes. Isto para mim chama-se bom senso, já que se insere na formidável regra de ouro: respeitai o silêncio do morto, porque ele não está cá para rebater.

Bem, política à parte. Não obstante isso, temos que convir que há sempre uma causa ou relação fundamental, um elemento estruturante ou arcaboiço inaugural para tudo o que funciona em cadeia. Chamemos a isto um prius por detrás de uma sucessão de fenómenos, capaz de conferir coerência ao todo e sem o qual o resto desmorona e cai, por falta de sentido. Então, cá para mim, na minha pacata opinião de humilde cidadão, quando se fala de memória coletiva, seja em Cabo Verde, seja na Guiné-Bissau, Amílcar Cabral é, sem dúvida nenhuma, a trave-mestra, este prius, este brioso e insuprível prius. Não é de natureza comparativa com os demais entes da nossa vida pública, por mais excelsos e respeitáveis que estes sejam, e muito menos substituível, ainda que de modo meramente fantasioso ou fictício. Se alguns me quiserem chamar cabralista, estejam perfeitamente à vontade, que isto só me envaidece.
Finalmente, mas não menos importante, para endereçar esta crónica à prezada escritora, Fátima Bettencourt, que teve a gentilidade de me dedicar um poema de Corsino Fortes, aquando da receção do prémio com mesmo nome. Um prémio que teve o nédio e abençoado dedo da mulher, em múltiplos sentidos. Se não me engano, foi a primeira vez que alguém me presenteou com o mais espirituoso das oferendas. Porém, emocionado que estava nesse dia, não me lembro ter feito menção expressa ao donaire por ela patenteada em relação à pessoa do pobre escriba. Aproveito esta tirada, este hino de lealdade à causa de amizade, para lhe formular os meus mais fervorosos votos de sucesso no seu labor criativo e na sua vida pessoal. Minha mãe ensinou-me a dizer e vou cumprir: obrigado, Fátima Bettencourt!

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* Escritor

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