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Da obsessão do ouro ao crime — Francês em busca dum tesouro inexistente comete mais um serial-familicídio 24 Agosto 2021

A justiça francesa condenou a trinta anos de prisão o assassino em série Hubert Caouissin que em 17 fevereiro de 2017 matou o cunhado Pascal Troadec e toda a sua família. O veredicto, obtido na última sexta-feira, ao fim de sete horas de deliberação, ficou aquém da pena perpétua pedida pelo Ministério Público de Nantes, na costa oeste-atlântica de França.

Da obsessão do ouro ao crime — Francês em busca dum tesouro inexistente  comete mais um serial-familicídio

Terminou na sexta-feira o julgamento semanas depois do seu arranque no tribunal de Nantes, a 21 de julho. O assassino Hubert Caouissin está detido desde fins de 2017 pelo quádruplo homicídio dos Troadec: o cunhado Pascal Troadec, mais a esposa Brigitte e os dois filhos, Sébastien e Charlotte.

O júri de seis foi mais benigno que o Ministério Público, que pedia a perpetuidade pelo crime. Ao fim de horas de deliberação sobre a pena a aplicar ao hediondo crime, o quádruplo homicida foi condenado a trinta anos de prisão.

A sequência dos factos, esmiuçados em tribunal, indica que na noite de 16 para 17 de fevereiro de 2017 Caouissin entrou na casa dos Troadec, em Orvault, e chacinou um a um os seus quatro familiares.

Dias depois, em 23 de fevereiro, a irmã de Brigitte inquieta com a falta de notícias pôs as autoridades ao corrente do desaparecimento dos quatro familiares. A polícia entra na casa e dá com vestígios de sangue que indiciam o crime.

Em 5 de março, Hubert Caouissin — cujo ADN foi encontrado na casa do crime e no carro do sobrinho Sébastien, de 19 anos — é detido. A esposa Lydie Troadec, irmã de Pascal, apesar de viver separada do marido é indiciada como cúmplice.

No dia seguinte, a polícia obtém uma confissão ao fim de longas horas de interrogatório. Hubert reconhece que matou os quatro, "sem premeditação", e fez desaparecer os corpos. A 10 de março, "fragmentos de quatro corpos humanos e joias" foram recuperados na quinta (foto em baixo à d.ta) pertencente ao suspeito. Detida por cumplicidade com o marido (ambos no desenho do julgamento), Lydie acabou ilibada.

Dias depois, os exames ao ADN identificam Pascal, Brigitte, Sébastien e Charlotte Troadec. Mas a resposta toda nunca chegou, apesar de dois anos depois a investigação ter-se deparado com mais ossadas, pelos bosques próximos das margens do rio Aulne que desagua no Atlântico.

Em busca dum tesouro mirífico

O motivo estaria ligado à partilha da herança do pai Troadec, afinal uma herança mirífica, segundo tudo indica. Pascal teria em 2010 ficado com todos os lingotes de ouro que o pai empreiteiro teria encontrado em 2006 numa casa antiga que estava a recuperar em Brest, uma cidade vizinha. Em vez de comunicar o achado, o patriarca teria ficado com tudo. O certo é que até hoje o ouro não foi encontrado.

Mas Pascal terá passado anos a congeminar sobre como iria tomar posse desse ouro. A tal ponto que se tornou uma obsessão que o levou, na noite de 16 para 17 de fevereiro de 2017, a acercar-se furtivamente da casa dos Troadec (foto em baixo, nº24) munido de um estetoscópio para captar as conversas.

Segundo a sua confissão, foi ao ser surpreendido por Pascal que Hubert cometeu o primeiro homicídio. Sem premeditação.

Mas muitas zonas de sombra permanecem, segundo a investigação que continua a não aceitar que Hubert sozinho tenha matado os quatro membros da família, todos adultos. O facto de que a maior parte dos cadáveres nunca tenha sido encontrada adensa o mistério.

Realidade mais incrível que ficção

Esta tragédia dos Troadec, chacinados devido à obsessiva busca do ouro, pode ser comparada à biografia do general suíço Johann August Suter que emigrou para a Califórnia e ali comprou terras aos espanhóis.

O general suíço tinha um objetivo: introduzir a revolução tecnológica na agricultura. Estava a consegui-lo. Até que um acontecimento imprevisto aconteceu.

Em 1848, deu-se a descoberta de jazidas de ouro na região agrícola que o general adquirira. Os aventureiros acorreram, acompanhados de toda uma organização de malfeitores que de posse de títulos de propriedade falsos invadiram o que Suter semeara.

A corrida ao ouro da Califórnia, tema que está presente em vários filmes, devastou os sonhos de expansão agrícola do general. A biografia romanceada do suíço-francês Blaise Cendrars mostra o sonhador Suter a mergulhar no abismo, incapaz de reagir, diante de tanta injustiça.

O ouro maldito ou mirífico, por trás da tragédia dos Troadec, também destruiu o general suíço. Apesar de familiares seus terem acorrido da outra margem do Atlântico para o ajudarem a recuperar as suas terras, Johann August já não teve forças anímicas para continuar a sua longa batalha judicial e morreu louco em Washington onde em vão buscou justiça.

Tal como Hubert Caouissin ao chacinar os Troadec, os largos milhares de prospectadores em busca do ouro arrasaram toda a grandiosa obra no território que Suter quis transformar em terras de pão.

Halloween na casa do crime

A repercussão do caso Troadec esteve ligada ao também mediático caso Dupont de Ligonnès, de 2011 (Inocente detido na Escócia como suspeito familicida francês há 8 anos em fuga, 13.out.019). Apenas quatro quilómetros separam as duas casas, cenários de familicídios.

A casa do crime — com brasão da aristocracia francesa descendente de reis de França — onde Xavier Dupont de Ligonnès em abril de 2011, metodicamente, assassinara a mulher e os quatro filhos, que enterrou no jardim, uma década depois destaca-se pela decoração no Halloween (foto da casa, à esqª).

Fica-se a saber que a casa foi adquirida com "um bom desconto" que ninguém revela. Que a nova moradora do lugar chama-se Diane F. e que, desafiando as superstições — de muitos que param em frente, fitam as janelas e apontam o dedo para o cenário de horrores —, em cada Halloween decora as janelas com figuras a imitar esquálidos fantasmas à luz das velas que acentuam o fúnebre do lugar.

Cenário de morte. Foi no final do dia 21 de abril de 2011 que a polícia de Nantes anunciou a macabra descoberta de cinco cadáveres enterrados nos jardins da casa dos Dupont de Ligonnès. A esposa Agnès e os quatro filhos do casal.

Segundo as autópsias, os cinco Dupont de Ligonnès (fotos, à esqª) tinham ingerido soníferos antes de cada um receber duas balas de espingarda com silenciador. E se as estatísticas indicam que, em metade dos casos de familicídio, o autor comete suicídio, Xavier Dupont de Ligonnès provou que pertence à outra metade: pôs-se em fuga após o crime que chocou a França.

A última foto do exterminador da própria família é uma imagem CCTV captada em 14 de abril de 2011, na cidade de Roquebrune-sur-Argens, à beira do Mediterrâneo. O fugitivo está a mais de mil km da casa do seu crime — como a polícia veio a descobrir uma semana depois.

E em fuga continua o ’serial-killer’ procurado pela Interpol, passados mais de dez anos.

Fontes: Parisien/Le Point/... Fotos: O assassino de cachecol vermelho abraça em 2008 o cunhado e esposa, duas das suas futuras vítimas. Três casas ligadas a dois familicídios na mesma região do noroeste de França.

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