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De Beijing para Taipei — Taiwan mexe-se para lugar vago da China, Harvard justifica mudança 16 Dezembro 2021

O Instituto Confúcio, para a aprendizagem da língua chinesa, esteve representado em universidades dos Estados Unidos e União Europeia até Pequim dar a ordem para fechar. A recente lacuna está a ser preenchida pela República de Taiwan, com a qual universidades como a Harvard estão a cooperar.

De Beijing para Taipei — Taiwan mexe-se para lugar vago da China, Harvard justifica mudança

Taiwan está a mover-se para preencher o espaço vazio deixado pelo encerrramento dos institutos Confúcio instalados nas universidades do primeiro mundo, embora estejam a crescer em África e na América Latina

A oportunidade de projetar para o globo o seu "poder suave" não está pois a ser desperdiçada por parte da República de Taiwan, presidida por Tsai Ing-Wen que reafirmou — por ocasião da celebração, em 09-10, do centésimo-décimo aniversário da fundação da República — que o "povo de Taiwan escolheu a soberania em democracia".

As universidades americanas estão a aderir à iniciativa de Taiwan e as europeias seguem-nas, na fila que cresce. Umas e outras fazem-no não só por razões geopolíticas derivadas das tensões crescentes entre a China e o Ocidente, mas também devido à política de tolerância-zero perante a Covid-19 que barrou por dois anos os estudantes estrangeiros.

Estão a crescer as universidades americanas que seguem o exemplo da Harvard que, em outubro, transferiu — de Pequim para a universidade pública de Taipei — o seu programa de Mandarim.

Segundo a diretora do Programa de Harvard, Jennifer Liu, a decisão surgiu em resultado da "perceção de hostilidade" por parte da universidade de Pequim de Língua e Cultura. Em entrevista ao jornal de estudantes The Crimson/O Vermelho, Liu referiu que estava a ser difícil ter acesso a salas de aula e dormitórios.

Por seu turno Zhao Lijian, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, exprobou a decisão da Harvard. "A China sempre deu as boas-vindas aos estudantes estrangeiros, atribui grande importância à proteção dos seus direitos e interesses, e responde ativamente aos seus legítimos apelos e preocupações. Opomo-nos a toda e qualquer tentavia para politizar o intercâmbio entre pessoas".

Desde 2017

Desde inícios de 2017 — com o decreto-lei de Trump que deixou de financiar as universidades que acolhiam a instituição chinesa — registou-se o encerramento de oitenta e nove institutos Confúcio nos Estados Unidos, segundo um relatório da Associação de Académicos, na sua edição de setembro.

O governo chinês aponta que, durante a crise de Covid-19, os cursos passaram a ser online, via Plataforma Global de Aprendizagem do Chinês/ Global Chinese Learning Platform "que atraiu mais de dois milhões de utilizadores de 170 regiões de todo o mundo em 2020", segundo o relatório este ano do Ministério da Educação. Mas Pequim reconhece que isso "não satisfaz a procura".

22 universidades de Pequim para Taipei

Segundo informação do Ministério da Educação de Taiwan, um total de vinte e duas universidades norte-americanas assinaram entre outubro e dezembro um "acordo de cooperação com universidades taiwanesas para a educação na língua mandarim".

Dentre as vinte e duas universidades norte-americanas, constam: a da California Los Angeles, a University of Southern California e a Pennsylvania State University que se transferiram de Beijing para a National Taiwan Normal University; o MIT-Massachusetts Institute of Technology, a Duke University e a University of Illinois que estão agora na National Tsing Hua University; e a universidade de Michigan instalada na Tamkang University, entre outros.

O diretor da Faculdade Internacional da NTU-Universidade Nacional de Taiwan, Wang Shu-Jen, anunciou que além da Harvard fizeram parceria com outras universidades norte-americanas: Indiana University, University of Texas at Austin e a Temple University.

A NTU, que "ensina mandarim há vários anos", estabeleceu a nova Harvard Taipei Academy que vai receber 60 estudantes de Harvard no verão de 2022. A parceria foi assinada em 2019, mas deu-se a pandemia e ficou parada desde então a iniciativa para levar à NTU os estudantes da US Ivy League.

Wang enfatiza que o programa de ensino intensivo da Harvard na NTU é o aprovado nesta universidade. "Não se trata do programa nem das linhas de orientação do governo".

Fundos de Taiwan

O governo taiwanês, sediado em Taipei, disponibilizou o montante de 45 milhões de dólares taiwaneses (TWD, 140 milhões CVE) para implementar o seu ‘Excellent Mandarin Language Program’/Programa de Excelência na Língua Mandarim em 2022. Ao abrigo deste, 36 professores de 10 universidades taiwanesas irão ensinar nos Estados Unidos enquanto 168 estudantes americanos serão convidados a estudar o mandarim em Taiwan.

Taipei lançou há três meses uma rede de escolas de língua financiadas pelo governo, através do programa TCML-Centro de Taiwan para a Aprendizagem do Mandarim. O gabinete do OCAC-Conselho dos Negócios das Comunidades Exteriores em Taipei já aprovou 18 TCMLs nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha com financiamento do OCAC planeia lançar um total de 100 centros nos próximos três a cinco anos. O seu objetivo é o ensino do mandarim nas escolas do ensino básico e secundário, com material de ensino aprovado pelo OCAC, embora as instituições possam também usar o seu material aprovado. O OCAC também avaliará os centros para manter a qualidade.

Pragmatismo

As universidades nos Estados Unidos afirmam o seu pragmatismo na escolha por Taipei, independentemente dos objetivos políticos do governo de Taiwan. Explicam que o país insular não foi afetado pelos confinamentos devido à pandemia de Covid-19: a maioria das universidades taiwanesas nunca suspenderam as aulas presenciais e mantiveram os controlos na entrada de estudantes estrangeiros.

Taiwan reabriu a fronteira para os estudantes estrangeiros em agosto. Há um mês o ministro taiwanês da Educação, Pan Wen-Chung, disse que estava em ponderação a entrada de mais cinco mil estudantes da língua mandarim em março de 2022.

Entre as universidades norte-americanas que estão a entrar em parceira com Taipei, estão a Oakland University-Michigan e a Howard University que assinaram parceria para um curso de verão na NDHU-Universidade Nacional Dong Hwa, em Hualien em 2022.

Melanie Chang, professora e responsável na Oakland University, explica que continuam a manter o programa que a universidade estabeleceu há vinte anos com a Universidade dos Negócios Estrangeiros de Beijing. "Ano sim, ano não temos enviado estudantes para Beijing. Só este ano não o fizemos e por isso criámos esta nova parceria com a universidade taiwanesa, a NDHU. Os nossos estudantes não podem ir para Pequim mas agora podem ir para Taipei", disse Chang entrevistada pelo online University World News.

A universidade de Duke afina pelo mesmo diapasão, o de abrir oportunidades para os estudantes norte-americanos em Taiwan. "Estávamos à procura de oportunidades para apoiar os estdantes da Duke interessados em aprender a língua chinesa e deve ser mais fácil nos próximos 12 a 24 meses irem para Taiwan e não para o continente.

"Não existe nenhum ressentimento perante a China, nem tão-pouco se deve interpretar que Taiwan está a ser mais valorizada. É uma oportunidade para aprender chinês que é estrategicamente importante", disse o reponsável Simon, que enfatiza a necessidade de melhor entendimento da China por parte dos norte-americanos por forma a melhorar as relações tensas entre os dois países.

Mais de 1.500 institutos Confúcio em 159 países

Segundo estimativa do Ministério da Educação da China, 25 milhões de pessoas em países estrangeiros estão a aprender a língua.

"Mas o ensino internacional da língua chinesa enfrenta desafios tais como a falta de professores, o atraso no ensino de conteúdos e os enviesamentos da politização nos países do Ocidente", segundo as autoridades citadas num artigo do Global Times, o diário oficial da República Popular, em novembro.

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Fontes: The Times.co.uk/ Global Times. Relacionado: China-Taiwan 110 anos: Xi Jinping promete reunificação pacífica e Tsai Ing-Wen diz "Povo de Taiwan escolheu soberania em democracia", 11.out.021. Fotos (AFP): Reunificação, diz Xi e Tsai vs. "Soberania em democracia", diz Tsai: os discursos de 9 e 10 de outubro em Pequim e Taipei, na celebração dos 110 anos da República da China vão em sentidos diferentes.

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