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Desculpas de Costa mataram a mentira sobre Wiriyamu que continuou após Abril - historiador 15 Dezembro 2022

O investigador da história colonial portuguesa em África Mustafah Dhada elogia o pedido de desculpas de António Costa pelo massacre de Wiriyamu, há 50 anos, mas considera que o arrependimento de uma nação não a iliba de responsabilidades.

Desculpas de Costa mataram a mentira sobre Wiriyamu que continuou após Abril - historiador

“Depois de 50 anos de negação e disputas sobre o massacre, Portugal inverteu a sua posição. Como cidadãos portugueses, devemos estar delirantemente felizes com esta reviravolta”, disse em entrevista à agência Lusa o autor do livro “O massacre português de Wiriamu”, editado pela Tinta da China em 2016.

O livro descreve o massacre das aldeias do triângulo de Wiriyamu, em Moçambique, alvo de “um dos episódios mais violentos da história colonial portuguesa”, ocorrido a 16 de dezembro de 1972.

O massacre resultou na morte de 385 civis, identificados pelo nome na obra de Dhada, e cruzou as franjas do império português através da denúncia de religiosos, como o padre Adrian Hastings, determinante para a publicação da notícia sobre o massacre no London Times, em 1973.

Pelo meio ficaram “várias comissões internas de inquérito, cujos detalhes ainda são desconhecidos” e uma “sofisticada campanha” que Portugal montou para negar e contestar o evento, afirmou.

O silêncio continuou depois do 25 de Abril, com “o principal arquiteto da guerra em Tete, Kaulza de Arriaga”, a “negar o massacre, sobretudo a sua magnitude”, até que em 2012 os investigadores portugueses Bruno Cardoso Reis e Pedro Aires Oliveira publicam um artigo na revista Civil Wars sobre o massacre e, cinco anos depois, surge a obra de Mustafah Dhada.

Este ano, quando se assinala meio século do massacre, António Costa “rescindiu oficialmente a negação do massacre e pediu desculpas por ser um acontecimento vergonhoso na história portuguesa” e fê-lo durante uma deslocação a Moçambique, perante o chefe de Estado daquele país.

“Neste ano de 2022, quase decorridos 50 anos sobre esse terrível dia de 16 de dezembro de 1972, não posso deixar aqui de evocar e de me curvar perante a memória das vítimas do massacre de Wiriyamu, ato indesculpável que desonra a nossa história", disse Costa.

Para Mustafah Dhada, “a confissão de Costa mata a mentira que continuou viva depois da revolução de Abril. Nenhum chefe de Estado após a morte de [Marcelo] Caetano teve a coragem de confrontar os demónios do engano que apodrece a história portuguesa, com versões de negações e dúvidas”.

A iniciativa teve tal importância que o escritor interrompeu a sua produção literária, ainda sobre o mesmo tema, mudando o foco da sua escrita para “o fim das negações”.

E defende: “Devemos celebrar este pronunciamento com grande dignidade. O ideal seria que nos envolvêssemos num momento de silêncio para comemorar os mortos de ambos os lados, os que morreram em Wiriamu e os que foram mortos na guerra que libertou Moçambique”.

Ainda assim, considera que “a contrição por parte de um Estado-nação não o liberta da responsabilidade sobre a violência em massa”.

“O argumento de que a matança de 385 crianças, mulheres, homens e fetos estava em condições de guerra é uma falsa narrativa, assim como a noção de que podemos ter guerras contra o terror, que é uma proposição quixotesca, se é que alguma vez existiu”, disse.

Para o historiador e professor universitário, “as guerras são declaradas juridicamente e permitem o uso da força sob regras estritas e, por vezes, regras que regem os civis entre os atores do Estado-nação”.

No caso de Wiriyamu, “um lado procurou negociar a liberdade antes de recorrer à luta armada em uma disputa desigual por um território algemado por um império propenso à violência sistémica”.

Se não fosse assim, prosseguiu, “continuaríamos hoje a justificar a repressão controlada durante a era salazarista, as mortes torturantes no Tarrafal e o assassinato da alentejana Catarina Efigénia Sabino Eufémia e dos seus três filhos, um de oito meses, três anos depois de eu ter sido nascido”.

Sobre as responsabilidades das Forças Armadas, o investigador recorda que “o exército colonial era um braço armado do Estado português, composto por oficiais comissionados e subalternos, conscritos, voluntários e soldados profissionais, que tinha o poder de matar”.

“A sua missão era realizar a vontade do Estado. Neste caso, a 6ª unidade de comando executou ordens claramente expressas para eliminar o triângulo. A autoridade encarregada de cumprir a vontade do Estado era o seu comandante, Kaulza de Arriaga (falecido em 2004), assim como o seu tenente responsável direto por ele”.

“Não adianta pedir às Forças Armadas que se desculpem, a menos que haja evidências claras e incontestáveis de que o exército colonial abusou de seu poder de matar por motivos pessoais ou ganhos pessoais em Wiriyamu”, disse, acrescentando: “Isso não quer dizer que os soldados nessas operações não tivessem sentimentos contraditórios, para o bem ou para o mal”.

Ainda assim referiu que existem “indícios” de que “um agente uniformizado da PIDE/DGS se envolveu numa vingança pessoal”.

A investigação que desenvolveu sobre a história colonial portuguesa permitiu-lhe concluir que “Portugal exerceu violência em todo o seu domínio, interno e ultramarino, durante o período de 1933 a 1974”.

A nível interno, “a violência era controlada pela PIDE/DGS, cujos agentes funcionavam como torneiras financiadas pelo Estado para expurgar a resistência, garantindo ao mesmo tempo um abastecimento adequado de recrutas para a guerra”.

“Nas colónias, as Forças Armadas Portuguesas forneceram outra camada de violência sistémica, com recrutas metropolitanos e coloniais atuando como soldados de infantaria para ´o benefício da nação`”.

Resultado: “Quase 10.000 mortos, quase 20.000 mutilados e mais de 100.000 vítimas civis africanas”.

“Enterrados entre as vítimas civis, encontram-se 385 indivíduos nomeados de Wiryiamu. Portanto, podemos assumir com segurança que o massacre destacou o uso sistémico de violência por parte de Salazar, em casa e no domínio ultramarino”.

A Semana com Lusa

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