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"Deram-me outro nome e trabalhei como criado em Londres desde os 9 anos" — Tetracampeão olímpico ’Sir’ Mo Farah é prova viva de tráfico humano para Reino Unido 14 Julho 2022

O atleta britânico Mo Farah, que a Rainha nobilitou, revela em reportagem difundida hoje na BBC "um segredo que enterrei bem fundo" durante décadas. O seu verdadeiro nome é Hussein Abdi Kahin, nasceu na Somália e vindo de Djibouti entrou ilegalmente no Reino Unido com estranhos — e não como refugiado.

"Um segredo que enterrei bem fundo" durante décadas: é o que revelou o multicampeão olímpico ’sir’ Mohammed Farah, de 39 anos, em reportagem difundida na BBC hoje. O seu verdadeiro nome é Hussein Abdi Kahin, entrou ilegalmente no Reino Unido com estranhos. Estes em vez de o entregarem aos parentes como tinham dito à família em África, puseram-no a trabalhar com uma outra família.

O atleta com nacionalidade britânica desde 2000, de 39 anos, revelou que a mãe e dois irmãos continuam a viver na sua aldeia da hoje autoproclamada Somalilândia. "Os meus pais nunca estiveram neste país, não vim como refugiado mas como criança traficada". O pai morreu durante a guerra civil, quando o filho Karin/Mo tinha quatro anos.

Durante trinta anos, enterrou bem fundo o seu verdadeiro nome, o modo como entrou no Reino Unido, criança sozinha trazida por gente que não conhecia. " A mulher que me trouxe e levou-me para um apartamento em Londres rasgou os contactos dos meus familiares e disse-me para me lembrar que eu era o Mohammed Farah. Puseram-me a servir numa casa, a tomar conta das crianças, a fazer o serviço da casa".

Ia fazer doze anos quando decidiram mandá-lo para a escola. Foi o primeiro passo para a sua libertação, pois nas aulas de desporto revelou ser uma promessa de desempenho extraordinário. Sentindo-se protegido pelo professores, contou a sua vida de escravidão. Foi retirado a essa família e colocado noutra, sob supervisão do Estado.

O que se seguiu foi uma história de sucesso na alta competição para o nascido na região a norte da capital somali, Mogadíscio, em 23 de março de 1983: tornou-se um fundista tetracampeão olímpico, tricampeão mundial e especialista nos 5000 e 10000 metros com seis medalhas de ouro.

É o segundo fundista na era moderna dos Jogos Olímpicos a vencer estas provas em duas Olimpíadas consecutivas, depois do finlandês Lasse Viren.

Vai perder a nacionalidade britânica, os títulos?

"Esta revelação tremenda pode ditar a perda de tudo. A começar pela cidadania britânica obtida com um nome que não é seu ... e tudo o mais", afirmou um jurista.

Mo/Karin afirma: "Em nome da verdade que ensino aos meus filhos", é pai de quatro filhos, "faço esta revelação e vou ter de aguentar as consequências".

ONU não reconhece autoproclamada Somalilândia

O país de trinta anos, onde 70 por cento dos somalilandeses têm menos de trinta, fez história principalmente devido ao seu eleitorado: é o mais jovem do planeta, vota com quinze anos. As eleições legislativas de 20.5.2021 aconteceram, porém, com um atraso de mais de dez anos.

Yasmin, 15 anos, diz à reportagem da BBC: "Estou ansiosa por votar. Agora sinto-me mesmo uma adulta, com direito à minha parte do meu país".

A Somalilândia tornou-se a 18 de maio de 1991 independente da Somália — à revelia de tudo e todos. Embora sem o reconhecimento das Nações Unidas, os cinco milhões de habitantes acreditam que o seu Estado-nação "funciona": tem governo eleito, exército, passaporte, moeda e bandeira próprios.

"A Somalilândia pode vir a ser o único país no Corno de África a ter uma eleição realmente democrática este ano", segundo disse há um ano o politólogo britânico Mark Bradbury, do Rift Valley Institute. Pelo mesmo diapasão afina um líder do partido no poder: "Não encontro palavras para expressar o quanto estas eleições são importantes. Vamos ser o sol brilhante do Corno de África, se estas eleições correrem bem", afirmou Ahmed Dheere, o vice-presidente do Kulmiye.


Colisão antidemocrática
. Apesar da reivindicação da democracia eleitoral, o país sofre com o nepotismo tribal —a sucessão dinástica de pai para filho —, os atrasos no calendário eleitoral (sem eleições há dez anos), a censura e opressão à liberdade de imprensa.

A Casa dos Anciãos, a Guurti, formada por membros mais idosos dos clãs mais importantes, padece dessa mentalidade dinástica que impede a renovação democrática.

"As mesmas pessoas estão no poder desde sempre, quando o mais velho morre é substituído pelo filho. Isto não é democrático", aponta o líder da oposição Hersi Ali Haji Hassan, do partido Waddani.

Mas com todas as suas limitações, "a Somalilândia está a milhões de quilómetros da Somália que continua a insistir que somos parte do seu território. Eles que nem sequer conseguem realizar umas eleições, mesmo se indiretas!", comparava há um ano o estudante universitário Abdi Ahmed.

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Fontes: BBC/DW. Relacionado: Têm 15 anos, votam hoje nas legislativas da Somalilândia, 01.jun.021. Fotos: A Rainha Isabel nobilitou em 2012, o nascido na região a norte da capital somali, Mogadíscio, em 23 de março de 1983 pelo seu extraordinário talento desportivo: fundista tetracampeão olímpico (Londres 2012 e Rio2016), tricampeão mundial e especialista nos 5000 e 10000 metros com seis medalhas de ouro.

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