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Despachou-se como carga aérea num voo de 36H que demorou 05 dias 14 Abril 2021

O galês Brian Robson tinha 19 anos e a Austrália revelara-se uma ilusão, mas não tinha dinheiro para o bilhete de volta a casa. Como a necessidade aguça o engenho, planeou uma viagem barata e a custo convenceu dois amigos a ajudá-lo. Colocaram-no num caixote com o mais básico, que incluía um livro de canções dos Beatles e duas garrafas (para a água e para as ’águas’).

Despachou-se como carga aérea num voo de 36H que demorou 05 dias

"Destinatário: Brian Robson" e o rótulo "contém computador" constavam na carga despachada de Melbourne para Londres. Um voo de trinta e seis horas, mas que nada era para quem como Brian morria de saudades de casa.

Em vez disso, o caixote hermeticamente fechado com pregos acabou por ser colocado num avião muito mais lento, com trânsito por Los Angeles. Isto é, em vez do voo direto que planeara, o ainda adolescente passou "cinco dias de puro terror".

O rótulo do caixote 60X90X90cm indicava que o "computador" só podia ser mantido na posição vertical. Mas como costuma acontecer — mais vezes que o desejável pelos donos das bagagens —, os carregadores tinham uma só prioridade: despachar tudo o mais rápido possível, sem qualquer meiguice para com o conteúdo da embalagem. O clandestino foi atirado de cabeça para baixo, correu o risco de ficar sufocado entre as almofadas, mesmo com o oxigénio que discretamente lhe chegava através de furos.

Encaixotado, Brian ficou pois a conhecer na própria pele os maus-tratos dados às bagagens (que ainda conhecemos hoje). O clandestino deu voltas e mais voltas, desde a primeira parte da viagem ainda na ’Down Under’/Terra lá Abaixo, como os súbditos chamam a essa porção do território de que a Rainha é a chefe de Estado.

22 horas ’upside down/de cabeça para baixo’

Em Sydney, sem poder esticar as pernas nem virar-se, Brian sofreu o terror de estar pousado 22 horas de cabeça para baixo. Com dores terríveis, chegou mesmo a desmaiar.

De novo no ar para a segunda etapa da viagem, Brian estava agora na lateral e pôde usar a lanterna para se consolar com as líricas dos Beatles. Talvez o Yellow Submarine/Submarino Amarelo, apropriado para a sua situação claustrofóbica.

Essa aventura de 1965 é contada pelo próprio Brian hoje com 76 anos, num livro Brain the Crate Escape/Tramada Fuga num Caixote que vai ser publicado no fim desde mês, segundo noticia a BBC.


Se um filho meu fizesse o mesmo, matava-o!

Umas trinta e seis horas depois, Brian via chegar o fim do seu tormento. Mas quando o avião pousou e ouviu «"Está um morto aqui!" com a pronúncia americana, soube que o pesadelo continuava».

Acabara de ser descoberto por um oficial da alfândega dos EUA, que reparou num buraco e pensou tratar-se de um cadáver. Após ser interrogado pelos serviços secretos que queriam saber se era um espião da Guerra Fria, Brian foi enviado para casa, desta vez na cabine do avião, depois de ter recuperado no hospital, como contou à BBC nesta primavera.

Sobre a sua grande aventura que poderia ter sido fatal, Brian Robson diz: "Foi uma estupidez. Se os meus filhos tentassem, eu matava-os, mas era uma época diferente", explicou à BBC.

A história está a ser retomada por outros media: (https://www.itv.com/news/2021-04-08/the-crate-escape-how-one-welshman-travelled-home-from-australia-as-freight).


Fotos: Cinco dias de tormento que o clandestino podia ter evitado se soubesse da existência de um programa de repatriamento grátis para cidadãos do Reino Unido. Escoltado pelos serviços secretos em Los Angeles.

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