OPINIÃO

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Dia africano de estatística 19 Novembro 2019

A comemoração do Dia Africano da Estatística constitui uma efeméride da maior relevância, tendo presente que a tomada de decisão baseada em factos e informação que hoje é um padrão para todos os agentes económicos, desde Estados a empresas e cidadãos, não poderia existir nos moldes atuais sem Sistemas Estatísticos Nacionais (SEN) de qualidade, que são hoje universalmente considerados elementos fulcrais no sistema de informação das sociedades democráticas, a tal ponto que não existem sociedades desenvolvidas, nem empresas competitivas sem Estatísticas Oficiais de qualidade.

Por: Adrião Simões Ferreira da Cunha*

Dia africano de estatística

O Dia Africano da Estatística foi instituído pela Comissão Económica das Nações Unidas para a África, sendo celebrado a 18 de Novembro de cada ano, com o intuito de reconhecer o contributo que a Estatística tem proporcionado ao longo do tempo para o conhecimento e desenvolvimento da Sociedade.

Neste dia os Institutos Nacionais de Estatística (INE) realizam atividades como conferências, seminários, exposições, entre outras, todas com a Estatística como base.

Importância das Estatísticas

O Dia Africano da Estatística serve para lembrar a importância das Estatística em África, tendo presente:
• Marcam presença em vários aspetos da vida moderna;
• Servem de base a muitas decisões de Governos, empresas e instituições;
• Dão informações sobre tendências e forças que afetam a vida quotidiana;
• São um instrumento vital para o desenvolvimento económico e social dos países;
• São objeto de estudo e análise em vários trabalhos académicos;
• São uma ferramenta de trabalho em vários setores de atividade.

As Estatísticas Oficiais Estão à Beira da Maior Revolução dos Últimos Cem Anos

A comemoração do Dia Africano da Estatística constitui uma efeméride da maior relevância, tendo presente que a tomada de decisão baseada em factos e informação que hoje é um padrão para todos os agentes económicos, desde Estados a empresas e cidadãos, não poderia existir nos moldes atuais sem Sistemas Estatísticos Nacionais (SEN) de qualidade, que são hoje universalmente considerados elementos fulcrais no sistema de informação das sociedades democráticas, a tal ponto que não existem sociedades desenvolvidas, nem empresas competitivas sem Estatísticas Oficiais de qualidade.

Mas tão ou mais importante que recordar a importância dos SEN e o muito que oferecem às Sociedades é nesta data olhar para os desafios que se colocam à produção das Estatísticas Oficiais que estão à beira da maior revolução e do mais estimulante desafio que se colocou na última centena de anos.

O desafio que se coloca hoje aos SEN é produzir informação mais abrangente, com maior nível de granularidade, com mais precisão e mais rapidamente. O principal risco é que, por falta de uma resposta satisfatória dos SEN, os utilizadores procurem outras fontes, de qualidade não verificável, podendo suportar as suas decisões em informação incompleta ou mesmo errada.

A resposta exige uma transformação da produção estatística, que envolve todas as etapas do processo, sendo ao nível da recolha de dados que se colocam as mais significativas possibilidades de inovação. Acresce que esta é uma das atividades da produção estatística que tem maior impacto no seu custo e maior peso para os agentes económicos que são chamados a participar nas operações.

A resposta a estes desafios passa por uma maior utilização de dados administrativos e das novas fontes digitais, mas também de métodos mais inovadores de recolha de dados em operações estatísticas tradicionais, com recurso, por exemplo, a entrevista em ambiente online. A utilização destas fontes apresenta significativos benefícios potenciais, com reduções no custo de recolha de dados, nos tempos de disponibilização da informação e no esforço exigido a cidadãos e empresas.

Ao nível das fontes administrativas o desafio não é novo, mas a sua utilização é potenciada pelo desenvolvimento dos sistemas de informação na Administração Pública. A área de aplicação mais evidente envolve a total ou parcial substituição dos recenseamentos (seguramente uma das mais caras operações estatísticas) por dados de fontes administrativas. Mas estas fontes podem auxiliar muitas outras operações atualmente baseadas em inquéritos.

No entanto, é ao nível do universo de dados digitais que se coloca o mais significativo potencial de inovação. Vivemos numa Sociedade onde cresce a cada dia o número de fontes digitais que incluem áreas como redes sociais, telecomunicações móveis, dispositivos inteligentes, sensores e o comércio eletrónico. Tudo isto constitui um extraordinário manancial de informação que não pode ser ignorado pelos produtores de Estatísticas Oficiais.

Diversos exemplos envolvem a utilização de dados de telecomunicações para estimar fluxos de tráfego, para a produção de estatísticas do turismo ou de informação socioeconómica. Projetos baseados na recolha de preços online provaram ser capazes de produzir índices de preços competitivos com aqueles que se produzem, com significativo custo adicional, no âmbito dos INE.

Naturalmente que os dados administrativos ou provenientes de fontes digitais não poderão substituir totalmente a utilização de inquéritos, mas mesmo nesses casos poderão ser usados para reduzir o seu custo ou melhorar a sua qualidade. Um bom exemplo passa pela utilização de dados sobre pesquisa online de emprego, a par com dados administrativos, para robustecer a estimação das taxas de desemprego, permitindo produzir resultados mais desagregados e mais precisos. Todas estas oportunidades exigem profundas mudanças metodológicas, culturais e nas competências dos agentes envolvidos na produção estatística.

Desafios da Estatística na Era Digital

A questão da governança preocupa-se pelo facto de os INE terem pouco ou mesmo nenhum controlo em relação ao Big Data administrado por entidades privadas, além de não existir garantia de que essas entidades existirão e os dados continuarão a ser produzidos no futuro.

O conceito de Big Data pode ser definido como sendo conjuntos de dados muito amplos e que, por este motivo, necessitam de ferramentas especialmente preparadas para lidar com grandes volumes, de forma que toda a informação nestes meios possa ser encontrada, analisada e aproveitada em tempo útil.

Riscos à transparência, preocupações crescentes na comunidade académica, ainda que sejam princípios muitas vezes não cumpridos pelos próprios INE, são ainda mais complexos com o Big Data. A possibilidade do uso extensivo de fontes de Big Data no lugar de Estatísticas Oficiais, priorizando a rapidez em detrimento da qualidade, pode levar à perda de transparência, com impactos na democracia.

Dados oriundos de fontes de Big Data tendem a ter também diferentes conceitos e metodologias. No caso de censos e inquéritos amostrais, o desenho do inquérito, os métodos de recolha de dados, o questionário e os métodos de análise estatística são baseados em questões substantivas que se deseja responder. Além disso, estes inquéritos envolvem conceitos extremamente complexos. Para se ter uma ideia, basta um olhar para as muitas páginas de um manual do agente recenseador.

Por outro lado, fontes do Big Data produzidas até então são, em geral, dados que foram recolhidos para outros fins e que devem ser adaptados para dar respostas satisfatórias às questões teóricas de interesse. Nesse sentido, é importante que se procure evitar que a produção científica e de conhecimento seja ditada pela disponibilidade de dados, definições e conceitos do produtor da informação, que possivelmente os produziu para fins distintos.

Os Sistemas de Estatísticas Oficiais têm estabelecido, ao longo da sua longa história, uma estrutura de qualidade em geral aceite pela Sociedade, o que deveria ser também estendido para as estatísticas derivadas do Big Data. Processos e resultados definidos pelas Estatísticas Oficiais, contudo, são também construtos quantitativos e não representam uma "verdade absoluta".

Em relação à realização de inquéritos e censos argumenta-se que há também um valor intrínseco à realização dos trabalhos de campo, onde haeria condições de melhor compreensão da realidade e dos seus processos históricos, contribuindo para a construção de informação contextualizada. Por outro lado, o Big Data também abre oportunidades de novas discussões conceptuais e de desenvolvimentos nos processos de realização dos inquéritos.

Ainda sobre a qualidade dos dados produzidos pelas fontes de Big Data, a falta de representatividade e cobertura talvez seja a maior limitação. Inquéritos domiciliares e censos (alguns possuem uma componente amostral) são cuidadosamente desenhados para que os resultados sejam representativos da população de interesse, enquanto os dados de Big Data normalmente apresentam viés de seleção.

Especificamente no contexto da maioria dos países, os Censos da População são a principal fonte de dados sociodemográficos. Além de todas as potencialidades de uso dos seus resultados, os Censos constituem-se também em informação fundamental para as estimativas e projeções de população, fornecendo a população-base e informação para o cálculo dos demais parâmetros demográficos. Os Censos e as estimativas decorrentes deles são também a base para expansão da amostra de inquéritos domiciliares.

Ocorrendo na maioria dos países uma vez a cada dez anos (há incertezas sobre a realização de contagens da população em períodos intercensitários), um Censo de boa qualidade é o primeiro passo para estatísticas de qualidade ao longo da década, potencializando o uso de todas as demais fontes de dados.

A partir destas reflexões, é possível inferir que Censos da População e inquéritos domiciliares são a fonte de dados fundamental para retratar as realidades demográficas e socioeconómicas da maioria dos países.

Mais do que isso, a sua realização tende a tornar-se cada vez mais importante, uma vez que tem a capacidade de potencializar o uso de todo o conjunto de informações contínuas que surge na era digital, que é também fundamental por fornecer dados conjunturais muitas vezes não recolhidos em Censos e inquéritos tradicionais.
Com a aproximação da próxima rodada de Censos 2020, é preciso continuar reforçando o papel fundamental que os Censos cumprem nos países. Além da garantia de realização dos Censos na periodicidade estabelecida pelos seus princípios fundamentais, deve-se também buscar mecanismos que assegurem a sua qualidade.
Uma revolução dos dados é necessária, mas é preciso garantir, primeiramente, qualidade de dados básicos, como informações sobre a dinâmica populacional, o que exige sérios investimentos em recursos humanos e financeiros.

O momento é propício para reforçar estas exigências, dado que a disponibilidade e consequente uso extensivo de Big Data têm sido apontados como um risco de perda de predominância dos INE, em particular do seu financiamento. Ainda que questões financeiras não sejam necessariamente a única variável relacionada à qualidade de um Censo, essa tem sido justificação recorrente para a não realização de Censos.
A substituição dos Censos tradicionais pelos modelos que usam registos administrativos, ainda parece uma realidade distante para a maioria dos países. Os países europeus que optaram por esta transição têm décadas de tradição em recolha de registos de qualidade. A construção de um sistema de registos administrativos para este fim apresenta diversas dificuldades, e pode ter custos ainda mais altos que os Censos tradicionais.

A mesma analogia pode ser feita para o potencial uso de Big Data em Estatísticas Oficiais. Além do potencial baixo custo de produção da informação, a sua implementação requer altos investimentos em pessoal qualificado e desenvolvimento de metodologias, além de mudanças estruturais nos INE.

Correndo o risco de ser repetitivo, retomo a pergunta original para concluir que, sim, a maioria dos países ainda precisa de Censos da População (e de qualidade). Ainda que se reconheçam as suas enormes potencialidades, não nos podemos deixar levar pela arrogância do Big Data, que é a suposição de que esses novos dados sejam substitutos, e não complementares das inquéritos e métodos tradicionais.

Lisboa, 15 de Novembro de 2019

— -
*Estaticista Oficial Aposentado - Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal

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