OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Do Dia Mundial do Teatro 2020 26 Mar�o 2020

Neste Ano 2020, celebra-se o quinquagésimo nono Dia Mundial do Teatro, tendo em conta a sua criação e instituição, no já longínquo Ano de 1961. O Evento solene terá lugar, em princípio, como sempre, no dia 27 Março.
Por seu turno, no atinente à Mensagem deste Ano 2020 é o quinquagésimo oitavo, da elaboração das Mensagens, sendo a Primeira Mensagem datada do ano 1962 e foi escrita pelo poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo, actor e encenador de teatro francês, Jean COCTEAU (1889-1963).

Por: Francisco FRAGOSO *

Do Dia Mundial do Teatro 2020

O Dia Mundial do Teatro foi criado em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro (IIT). Este dia é celebrado anualmente a 27 de Março pelos Centros do IIT e a comunidade teatral internacional. Diversos eventos nacionais e internacionais de teatro são organizados para marcar este momento, assaz oportuno e quão necessário!

Vale a pena, sublinhar, com ênfase que um dos eventos mais relevantes desse Dia é a difusão da Mensagem do Dia Mundial do Teatro através da qual, ao convite do IIT, uma figura de envergadura mundial compartilha as suas reflexões sobre o tema do teatro e da cultura da paz. A primeira Mensagem Internacional do Teatro foi redigida por Jean Cocteau, em 1962.

Desde então, anualmente, a 27 Março (data da abertura da temporada do “Teatro das Nações” em 1962 à Paris), o Dia Mundial do Teatro é celebrado sob numerosos modos pelos Centros do IIT – que são, presentemente, mais de 90 através do Mundo. Demais, os teatros, os profissionais do Teatro, os amadores do teatro, as universidades de teatro, as academias e as escolas celebram outrossim este Dia quão memorável, de modo assaz marcante.

Sim, com efeito, anualmente, uma personalidade do teatro ou uma pessoa excepcional de “coeur et d’esprit” é convidada à compartilhar as suas reflexões sobre o teatro e a harmonia internacional. O que se denomina: a Mensagem Internacional é traduzida em mais de 50 idiomas, lida para dezenas de milhares de espectadores precisamente antes das representações em teatros através do mundo; impresso e editado em centenas de jornais diários. Os Colegas no domínio do audiovisual oferecem uma mão fraterna, com mais de uma centena de estações de rádio e de cadeias de televisão, difundindo a Mensagem aos auditores em todos os cantos dos cinco continentes do Globo.

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Um oportuno Apontamento sobre o Instituto Internacional do Teatro (IIT):

O IIT foi criado à iniciativa do primeiro Director geral da UNESCO, o biólogo e filósofo inglês, Sir Julian Huxley (1887-1975), e do dramaturgo e romancista inglês JB Priestley (1894-1984), em 1948, precisamente após a Segunda Guerra Mundial, e no início da guerra fria, quando a cortina de ferro dividiu o Oriente e o Ocidente.

O objectivo dos fundadores do IIT era construir uma organização que estivesse em coerência com os objectivos da UNESCO sobre a cultura, a educação e as artes, e que concentre os seus esforços sobre a melhoria do estatuto de todos os membros das profissões das artes do espectáculo.

Encarava destarte, criar e edificar uma organização que criasse plataformas de permuta internacional e, bem assim, para assumir o assisado compromisso, no âmbito da educação das artes da cena, não só, para os principiantes e os profissionais, assim como, outrossim e, ainda, a utilização das artes da cena para a compreensão recíproca e a paz.

O IIT desenvolveu-se, presentemente como a maior organização no mundo para as artes da cena, computando mais de 90 centros espalhados sobre todos os continentes.

Posto isto, vamos elencar então os objectivos do IIT:

1º - Um eficaz e positivo alargamento da colaboração existente entre as disciplinas e as organizações das artes do espectáculo, simultaneamente ao nível nacional e internacional.
2º - Implantar gabinetes e comités internacionais e favorecer a criação de centros nacionais do IIT em todos os países.
3º - Recolher os documentos, difundir todos os tipos de informações e emitir publicações no domínio das artes da cena.
4º - Cooperar activamente na elaboração do festival “Teatro das Nações”, encorajar e coordenar a organização de congressos teatrais, ateliers e reuniões de peritos, assim como festivais, exposições e concursos, tanto ao nível regional e inter-regional, em cooperação com os seus membros.
5º - Defender o livre desenvolvimento das artes da cena e contribuir na protecção dos direitos dos profissionais do espectáculo.
Para atingir estes egrégios objectivos, acima enunciados, no seio do IIT, os Centros do IIT, os Membros cooperantes e os membros individuais da Organização devem ser guiados pelos princípios do respeito mútuo das tradições nacionais de cada país.

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O autor da Mensagem deste ano 2020 é o autor dramático paquistanês, SHAHID NADEEM (n-1947),

o principal autor dramático paquistanês e que dirige, de modo, assaz brilhante, o célebre teatro AJOKA.

Shahid Nadeem nasceu no ano de 1947, à Sopore no Caxemira. Tornou-se refugiado na idade de um ano, quando a sua família deveu emigrar para o Paquistão (recentemente criado) após a guerra de 1948 entre a Índia e o Paquistão a respeito do estado contestado de Caxemira. Viveu à Lahore, no Paquistão, onde fez a sua licenciatura em psicologia na Universidade do Punjab. Escreveu a sua primeira peça de teatro enquanto estudante universitário, no entanto, se tornou um autor dramático afeiçoado e devotado quando começou à contribuir, desde o seu exílio político à Londres, à criar e produzir peças para o grupo cénico dissidente do Paquistão, Ajoka, criado pela actriz paquistanesa Madeeha Gauhar (1958-2018), uma pioneira do teatro, com quem casou em seguida. Shahid Nadeem escreveu mais de 50 peças em punjabi e em urdu e várias adaptações de peças de Brecht.

Colaborou com a televisão paquistanesa enquanto produtor e membro da direcção. Esteve preso três vezes sob diferentes governos dirigidos pelo exército pela sua oposição ao regime militar e foi escolhido como prisioneiro de consciência pela Amnistia Internacional. Na cruelmente célebre prisão de Mianwali, começou a escrever peças de teatro para o fim de semana, produzidas por e para os prisioneiros. Ulteriormente, trabalhou como coordenador das campanhas internacionais e foi responsável da comunicação Ásia-Pacífico para Amnistia internacional. Foi bolseiro no Getty Research Institute, à International Pen, nos Estados Unidos, e no National Endo’wment for Democracy. É identicamente, membro da rede “Teatro sem fronteiras”.

As peças de Shahid NADEEM foram amplamente interpretadas e publicadas no Paquistão e na Índia. As suas peças foram identicamente interpretadas no mundo inteiro, designadamente, Bulha, no Hammersmith Theatre (Londres, Reino Unido), Tramway (Glasgow, Escócia, Reino Unido) e Helsignor (Dinamarca), Amrika Chalo no Davis Centre for Performing Arts, Georgetwon University, Washington (Estados Unidos), Bala King no Black Box Theatre (Oslo, Noruega), Burqavaganza nos Estados Unidos no Bravo for Women Theatre (San Francisco). Acquittal nos Highways (Santa Mónica) e no Theatre Row (Nova Iorque) e Dara no Lyttleton Theatre London (Reino Unido) e na Universidade de Carolina do Norte, Chapel Hill (Estados Unidos).

As suas peças foram traduzidas para inglês e publicada por Oxford University Press, Nick Hern Publishers e em várias antologias. Recebeu a Medalha do Presidente do Paquistão Pride of Performance em 2009. Dirigiu identicamente peças para a cena e a televisão e organizou festivais de Teatro para a Paz na Índia e no Paquistão. Colaborou nos principais jornais paquistaneses e indianos e no serviço da BBC. Produziu documentários sobre temas culturais, designadamente, sobre o museu de Lahore, os costumes do Punjab, o poeta Iqbal e o pintor Sadeqain.

Enfim, as peças de Sahid NADEEM são muito apreciadas pela sua audácia sobre temas socialmente pertinentes e por vezes, tabus como o extremismo religioso, a violência praticada sobre as mulheres, a discriminação contra as minorias, a liberdade de expressão, o clima, a paz e o sofismo. Várias das suas peças abordam as questões da separação e divisão da Ásia do Sul e da herança cultural comum desta região. Ele combina habilmente os temas sociais e políticos contemporâneos com as formas tradicionais e a herança popular para apresentar um teatro alegre, recreativo e intelectualmente estimulante. A música faz parte integrante das suas criações e produções teatrais.

SHAID NEDEEM ensina a arte da escrita à Ajoka Institute for Performing Arts e no instituto for Art and Culture, à Lahore.

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Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2020,

da autoria do dramaturgo paquistanês SHAID NEDEEM
cujo título é O teatro como santuário:

É uma enorme honra para mim escrever a mensagem do Dia mundial do Teatro 2020. É um sentimento de uma enorme humildade, mas é outrossim apaixonante pensar que o teatro paquistanês e o próprio Paquistão, foram reconhecidos pelo IIT, o organismo mundial do Teatro, mais influente e mais representativo da nossa época. Esta honra é identicamente uma homenagem à Madeecha Gauhar, ícone do teatro e fundadora do teatro Ajoka, identicamente a minha companheira de vida, falecida há dois anos. A equipa do Ajoka percorreu um longo e difícil caminho, literalmente da rua ao teatro. Todavia, é outrossim a história de numerosos grupos de teatro, estou certo. Nunca foi fácil e isento de choques. Foi sempre uma luta.

Sou oriundo de um país de predomínio muçulmano, que conheceu várias ditaduras militares, o horrível assalto dos extremistas religiosos e três guerras com a Índia vizinha, com a qual partilhamos milhares de anos de história e de herança. Presentemente, vivemos sempre no receio de uma guerra total com o nosso vizinho irmão gémeo, até de uma guerra nuclear, visto que os dois países possuem doravante armas nucleares.

Asseveramos, por vezes, zombando: “os maus momentos são bons para o teatro”. Os desafios à relevar não faltam, nem as contradições à expor e os status quo à derrubar. O meu grupo de teatro, Ajoka, e eu próprio caminhamos na corda bamba desde mais de 36 anos. É com efeito, uma corda bamba: manter o equilíbrio entre o divertimento e a educação, entre a pesquisa, confrontações arriscadas com a autoridade, entre o teatro socialmente crítico e o teatro financeiramente viável, entre o facto de atingir as massas e ser a vanguarda. Podemos asseverar que um criador de teatro deve ser um prestidigitador, um mágico.

No Paquistão, existe uma divisão clara entre o sagrado e o profano. Para o profano, não há lugar para as questões religiosas, enquanto para o sagrado, não existe possibilidade de debate aberto ou de novas ideias. De feito, o establishment conservador considera a arte e a cultura fora dos limites para os seus “jogos sagrados”. Deste modo, o terreno de jogo dos artistas foi como uma corrida de obstáculos. Eles devem antes de mais provar que são bons muçulmanos e cidadãos respeitadores da lei, e tentar estabelecer que a dança, a música e o teatro são “autorizados” no Islão. Um grande número de muçulmanos praticantes foram, por conseguinte, reticentes à abraçar as artes da cena, mesmo dos elementos da dança, da música e do teatro que se encontram ancorados na sua vida quotidiana. Enfim, caímos sobre uma subcultura que tinha o potencial de levar o Sagrado e o Profano sobre a mesma cena.

Sob o regime militar no Paquistão nos anos 1980, Ajoka foi lançado por um grupo de jovens artistas que desafiaram a ditadura através de um teatro de dissidência social e politicamente audacioso. Descobriram que os seus sentimentos, a sua cólera, a sua angústia, foram admirável e espantosamente bem expressos por um bardo sufista, que vivia há aproximadamente 300 anos. Tratava-se do grande poeta sufista Bulleh Shah (1680-1757). Ajoka descobriu que podia fazer declarações politicamente explosivas através da sua poesia, desafiando a autoridade política corrompida e o establishment religioso sectário. As autoridades podiam-nos proibir ou nos banir, mas não um poeta sufista venerado e popular como Bulleh Shah. Descobrimos que a sua vida era tão dramática e radical como a sua poesia, o que lhe valera fatnas e desterro enquanto viveu. Escrevi então “Bulha”, uma peça de teatro sobre a vida de Bulleh Shah. Bulha, como é afectuosamente denominado pelas massas de Ásia do Sul, era oriundo de uma tradição de poetas sufistas do Punjab que, pela sua poesia e a sua prática, desafiavam sem medo a autoridade dos imperadores e dos demagogos clericais. Eles escreviam na língua do povo e sobre as aspirações das massas. Na música e na dança, encontraram os meios de realizar uma associação direta entre o homem e Deus, contornando com desdém os intermediários religiosos que os exploravam. Desafiaram as divisões entre os sexos e as classes e observaram o planeta com admiração, como uma manifestação do Todo-Poderoso. O Conselho das artes de Lahore rejeitou o argumento, alegando o motivo que não se tratava de uma peça de teatro, mas de uma simples biografia. Todavia, quando a peça foi encenada e montada num outro lugar, O Goethe Instituto, o público viu, compreendeu e apreciou o simbolismo da vida e da poesia do poeta do povo. Puderam identificar-se, plenamente à sua vida e à sua época e ver os paralelos com a sua própria vida e a sua época.

Um novo tipo de teatro nasceu nesse dia, em 2001. A música de devoção Qawwali, a dança sufista do Dhamal e mesmo a recitação de poesia inspirada, o canto meditativo do Zikir, tornaram-se elementos da peça. Um grupo de shkhis, que se encontrava na cidade para assistir à uma conferência Punjab, veio ver a peça, invadiu a cena no fim, chorando e abraçando os actores. Eles partilhavam a cena pela primeira vez com Punjabis muçulmanos após a divisão da Índia em 1947, que acarretou a divisão do Punjab sobre linhas comuns. Bulleh Shah era-lhes outrossim caro como aos Punjabis muçulmanos, visto que os sofistas transcendem as divisões religiosas ou comunitárias.

Esta primeira memorável foi seguida pela odisseia indiana de Bulleh Shah. Começando por uma digressão inédita na parte indiana do Punjab, “Bulha” foi representada em toda a Índia. Mesmo quando dos momentos de tensão mais graves entre os dois países e em lugares onde o público não conhecia uma única palavra do Punjab, o público apreciava cada momento da peça. Enquanto as portas do diálogo político e da diplomacia se fechavam uma a uma, as portas das salas de teatro e o coração do público indiano permaneciam completamente abertos. Aquando da digressão de Ajoka no Punjab indiano em 2004, após uma representação muito calorosamente acolhida diante de um público rural de milhares de pessoas, um velho homem veio ver o actor interpretando o papel do grande sofista. O velho homem estava acompanhado de um jovem rapaz. “O meu neto encontra-se muito doente; podereis por favor dar-lhe uma bênção”. O actor ficou surpreendido e disse: “Babaji, eu não sou Bulleh Shah, sou apenas um actor que interpreta este papel”. O velho homem pôs-se a chorar e disse: “Por favor, benze o meu neto, eu sei que se curará, se o fizeres”. Propomos ao actor de atender o desejo do velho homem. O actor deu a bênção ao jovem. O velho ficou satisfeito. Antes de partir, proferiu estas palavras: “Meu filho, tu não és um actor, tu és uma reencarnação de Bulleh Shah, o seu Avatar”. De repente, um novo conceito de jogo, de teatro, se nos impôs, em que o actor se torna a reencarnação da personagem que encarna.

No decurso dos 18 anos de digressão de “Bulha” temos verificado uma reacção similar da parte de um público aparentemente não iniciado, para que o espectáculo não fosse unicamente uma experiência recreativa ou intelectualmente estimulante, mas um encontro espiritual comovente. Com efeito, o actor interpretando o papel do mestre sofista de Bulleh Shah foi tão profundamente influenciado pela experiência que ele próprio se transformou poeta sofista e publicou depois duas compilações de poemas. Os actores que participaram na produção partilharam este sentimento desde o início do espectáculo, o espírito de Bulleh Shah encontra-se entre eles e a cena parece ter sido elevado à um nível superior. Um erudito indiano, escrevendo sobre a peça, deu-lhe o título: “Quando o teatro se torna um santuário”.

Sou uma pessoa laica e o meu interesse para o sofisma é principalmente cultural. Interesso-me mais aos aspectos performativos e artísticos dos poetas sofistas do Punjab, mas o meu público, que não forçosamente extremista ou beato, pode ter crenças religiosas sinceras. A exploração de histórias como a de Bulleh Shah, tem disso de tal modo em todas as culturas, pode tornar-se uma ponte entre nós, criadores de teatro e público anónimo mas entusiasta. Em conjunto, pudemos descobrir as dimensões espirituais do teatro e construir pontes entre o passado e o presente, conduzindo à um porvir que é o destino de todas as comunidades; crentes e não-crentes, actores e velhos, e seus netos.

A razão para o qual partilho a história de Bulleh Shah e a nossa exploração de um tipo de teatro Sofista que, quando produzimos na cena, deixamos por vezes conduzir pela nossa filosofia do teatro, o nosso papel de precursores da mudança social, fazendo isso, arrastamos uma grande parte de massas atrás de nós. No nosso compromisso face aos desafios do presente, privamos das possibilidades de uma experiência espiritual profundamente comovente que o teatro pode oferecer.

No mundo do presente em que o sectarismo, o ódio e a violência estão novamente em progressão, as nações parecem opor-se umas às outras, os crentes batem-se contra outros crentes e as comunidades derramam o seu ódio contra outras comunidades ... e durante este tempo, as crianças morrem de malnutrição, as mães durante o parto falecem por falta de cuidados médicos, em tempo oportuno, e as ideologias de ódio florescem. O nosso planeta encontra mergulhado, cada vez e mais, profundamente numa catástrofe climática, ouvimos e entendemos a martelagem dos cascos dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Devemos reconstituir a nossa força espiritual; devemos combater a apatia, a letargia, o pessimismo, a cupidez e o desprezo do mundo no qual vivemos, do planeta no qual vivemos. O teatro possui um papel, um papel nobre, na dinamização e mobilização da humanidade para se relevar da sua queda no abismo. Ele pode elevar a cena, o espaço de representação, em algo de sagrado.

Na Ásia do Sul, os artistas tocam com reverência o piso da cena antes de colocar o pé, uma tradição antiga em que o espiritual e o cultural se mesclam. É tempo de reencontrar esta relação simbólica entre o artista e o público, o passado e o futuro. A criação teatral pode ser um acto sagrado e os actores podem, com efeito, tornar-se os avatares dos papéis que desempenham e interpretam. O teatro eleva a arte de jogar à um nível espiritual superior. O teatro possui o potencial para se transformar num santuário e o santuário um lugar de representação.
(Versão portuguesa de KWAME KONDÉ).

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Vamos rematar esta nossa peça ensaística com a célebre mensagem da lavra do incontornável Jean COCTEAU, na sua versão original (a primeira Mensagem do Dia Mundial do Teatro), em francês, obviamente, que eis:

Il arrive, par le privilège théâtral, ce paradoxe que l’histoire qui se déforme à la longue et que le mythe qui, à la longue, se fortifie, trouvent leur véritable réalité sur les planches.
Il serait sans doute avantageux qu’un fakir vint hypnotiser une salle de théâtre pour la convaincre d’avoir vu un spectacle sublime, mais, hélas, ce fakir n’existe pas et c’est au dramaturge de provoquer, par ses moyens modestes, l’hypnose collective et de faire partager son rêve, car le sommeil et le songe mettent une sorte de génie à la portée de toutes les âmes.
Mais, sans aller si loin, ce phénomène a lieu et il arrive qu’un bloc de spectateurs se désindividualise au bénéfice d’une pensée étrangère qu’il adopte et avec laquelle il collabore. Ce bloc devenant une seule personne d’âme presque enfantine, car le melleur public est encore celui des marionnettes et le nôtre serait du même ordre s’il parvenait à perdre sa résistance orgueilleuse et se trouvait en état de crier, par exemple, à OEdipe: N’épouse pas Jocaste, c’est ta mère!”
La véritable admiration n’est pas celle qui s’exprime par une rencontre d’idées communes. Elle est au contraire le partage d’idées qui ne sont les nôtres au point de nous laisser entendre que nous pourrions en être l’auteur. C’est donc une forme de l’amour, des antagonismes s’épousent.
Même la France, retive à se laisser endormir et qui resiste, à force d’individualisme, au phénomène d’hypnose du spectacle, vient de prouver, au théâtre, au Théâtre des Nations, sa soif et sa faim de se distraire sans la moindre frivolité.
Des troupes du monde entier parviennent à charmer, avec leur répertoire, des publics qu’on s’imaginait incapables d’oublier leur propre idiome et leurs propres intrigues pour s’intéresser à ceux des autres.
La jounée mondiale du théâtre marquera l’évenement de ces noces profondes où le singulier et le pluriel, l’objectif et le subjectif, le conscient et l’inconscient, présentent les monstres prestigieux qui en résultent.
Bien des discordes naissent de l’éloignement des esprits et du mur des langues que le vaste appareil théâtral se propose de traverser.
Les peuples, grâce aux journées mondiales du théâtre, prendront enfin conscience de leurs richesses respectives et collaboreront à une haute entreprise de paix.
Nietzche disait: “Les idées qui changent la face du monde viennent sur les pattes de colombes”. Peut-être est-ce par un moyen qui fut trop souvent limité au simple pretexte de plaire que la jeunesse bénéficiara d’une Sorbonne brillante et vivante, de dialogues en chair et en os, alors que les fatigues de l’étude faisaient perdre aux chefs-d-oeuvre leur violence d’origine e les affaiblissaient.
J’ajoute: la machine aurait, parait-il, porté le coup de grâce au théâtre.
Je n’en crois rien, et, puisque l’Institut International du Théâtre me charge de prendre la parole en son nom, je déclare, comme on le déclarait jadis pour nos rois (en variant un peu la formule): “si le théâtre est mort, vive le théâtre!”.
Jean COCTEAU (1962)

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Sucinto perfil biográfico de Jean COCTEAU

(1889-1963):

Jean Maurice Clement COCTEAU nasceu no dia 5 de Julho 1889, no seio de uma família abastada de Paris. O seu pai, advogado e pintor amador, suicidou-se quando Jean tinha apenas 9 anos, episódio que o marcou profundamente.

A despeito de ter sido um aluno “medíocre” e de não ter terminado o liceu, COCTEAU publicou o seu primeiro livro de poemas aos 19 anos: “A Lâmpada de Aladino”.

No ano de 1915, conhece Pablo Picasso, de quem se torna amigo e com quem chega a trabalhar, por exemplo, no ballet “Parada”, escrito por COCTEAU, com cenários de Picasso e produzido pelo mestre russo Diaghlev.

Jean COCTEAU tornou-se um escritor reconhecido, sendo o autor de peças de teatro como “A Voz Humana” (1930), da ópera “Orphée” (1926) e de romances como “Les Enfants Terribles” (1929). A carreira de COCTEAU estendeu-se outrossim ao cinema, datando o seu primeiro filme, “O Sangue de um Poeta”, da década de 30. Manteve uma vida muito activa até 1953, altura em que a doença o coagiu a abrandar o ritmo. Desde esse momento até o seu passamento, COCTEAU fez experiências e trabalhos em variadas artes gráficas, designadamente frescos.

Jean COCTEAU faleceu de um ataque cardíaco, aos 74 anos de idade, no dia 11 de Outubro de 1963, na sua casa de Milly-la-Forêt, após ter tido conhecimento do falecimento da sua grande amiga, Edith Piaf (1915-1963), ocorrido na véspera, na data de 10 de Outubro de 1963.

Feito em Lisboa, em Março 2020
..

*Médico e Teatrólogo cabo-verdiano

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