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EUA: Inocentados da morte de Malcolm X ao fim de 56 anos 20 Novembro 2021

Muhammad A. Aziz, de 83 anos, ouviu esta semana o tribunal de Manhattan a proferir a sentença que esperava há 56 anos, a de que ele e Khalil Islam, entretanto falecido, foram "erradamente condenados" pelo assassínio em 1965 de Malcolm X. Na quinta-feira declarado livre aos olhos da lei, Aziz exprimiu a sua satisfação ao ver "por fim a verdade que todos conhecemos a ser oficialmente reconhecida".

"Sou um homem de 83 anos que foi vítima do sistema da justiça criminal, e não sei quantos mais anos vou ter para uma vida plena. Mas espero que o mesmo sistema que provocou esse travesti de justiça tome a responsabilidade deste incomensurável dano que me causou nestes 55 anos", expressou Muhammad A. Aziz perante o tribunal de Manhattan nesta quinta-feira, 18.

A decisão do tribunal surgiu ao fim de dois anos de investigação conduzida pelo PGR de Manhattan, Cyrus Vance Jr., que concluiu que dois dos três detidos pelo assassínio em 21 de fevereiro de 1965 de Malcolm Little, o Malcolm X dos direitos civis, foram "erradamente condenados".

O procurador-geral de Manhattan disse em tribunal que apesar de terem "desaparecido não só a maior parte das provas materiais da evidência física mas também as testemunhas, que não puderam ser re-investigadas", os depoimentos de testemunhas ao FBI provam que "nem Aziz nem Islam foram vistos com a arma do crime".

A investigação — desencadeada após o documentário da Netflix "Who Killed Malcolm X?" — apurou ainda que os promotores da acusação descartaram provas que podiam inocentar Aziz e Islam durante o julgamento há mais de meio século. Entre elas, "os depoimentos ao FBI por nove testemunhas que descreveram em pormenor os homens que cometeram o crime, o que atirou. Nada dessa informação chegou a tribunal", concluiu o PGR.

"Só lamento que este tribunal não possa desfazer este erro tremendo", disse a juiz Ellen Biben do Supremo Tribunal Estadual. "É agora inquestionável que este é um caso gritante contra os fundamentos da justiça".


Aziz: ’um processo corrupto familiar aos pretos’

"Aquilo que nos trouxe a este tribunal hoje, e que nunca devia ter acontecido, é o resultado dum processo corrupto a que nós os pretos nos habituámos e continuamos a ver em 2021", disse Aziz.

Uma carta confissão divulgada em 20 de novembro do ano passado pôs inopinadamente a nu o "processo corrupto". Nela, o antigo polícia Raymond Wood confessa que como ’infiltrado’ foi coagido pelos seus superiores do NYPD a atrair membros da segurança de Malcolm X, de modo a cometerem crimes que permitiram ao FBI prendê-los alguns dias antes do tiroteio de 21.2.1965. Como lembrou Reginald Wood Jr., primo de Malcolm, "não havia seguranças para impedir a entrada do atirador no recinto", o Audubon Ballroom.

Aziz inocentado diz: "E conquanto eu não tenha tido de esperar este tribunal, estes magistrados ou este pedaço de papel para saber que sou inocente, estou feliz pela minha família, pelos meus amigos e advogados que trabalharam e me apoiaram todos estes anos e que veem por fim a verdade que todos conhecemos a ser oficialmente reconhecida", rematou Aziz.

Docu-filme "Who Killed Malcolm X?"

O documentário da Netflix lançado em fevereiro de 2020 baseia-se no trabalho do historiador Abdur-Rahman Muhammad, que há mais de trinta anos investiga o assassínio de Malcolm X. Chegou assim aos depoimentos que Talmadge Hayer, o terceiro homem condenado, fez em 1977.

Hayer declarou que os dois homens eram inocentes e apontou os seus cúmplices, Benjamin Thomas, Leon Davis, William X e Wilbur ou Kinly, todos da mesquita da Nation of Islam/ Nação do Islão em Newark.

Fontes: NY Times/CBS News/AP/BBC/innocenceproject.org/. Fotos (AP): Aziz, de verde, com o PGR e a juiz. Aziz com a esposa e filha. Aziz, então Thomas Butler, a ser detido em 26.2.1965 com Khalil Islamm, o outro inocente condenado que morreu em 2009 sem ver a justiça a ser feita.

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