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Elefantes da Gorongosa já são mil, mas marcas da guerra perduram 01 Junho 2022

A reabilitação da Gorongosa, em Moçambique, permitiu elevar de 200 para mil o número de elefantes no parque, mas a guerra civil deixou marcas, tanto na fisionomia como no comportamento dos animais, disse uma cientista.

Elefantes da Gorongosa já são mil, mas marcas da guerra perduram

Dos 200 elefantes – se calhar nem 200 – que sobreviveram à (…) guerra civil, agora eu digo com confiança que temos cerca de mil elefantes na Gorongosa. (…) Contudo, não é só um número, mas nós ainda notamos grandes marcas do passado, no seu comportamento, na fisionomia”, disse à Lusa a ecologista Dominique Gonçalves, que lidera o Elephant Ecology Project no Parque Nacional da Gorongosa.

A população de elefantes na Gorongosa caiu de 2.500 para cerca de 200 animais devido à guerra civil em Moçambique, que durou entre 1981 e 1994, mas desde então o número de elefantes quintuplicou, segundo os números da investigadora, em entrevista à Lusa a propósito da sua intervenção no National Geographic Summit 2022, que decorre hoje em Lisboa.

Gonçalves disse, no entanto, que o impacto da guerra ainda se nota: “Numa grande percentagem dos elefantes da Gorongosa [cerca de 33%], as fêmeas não têm presas. Isso é devido à seleção” que foi feita pela caça furtiva, em que os elefantes com maiores presas eram mortos por causa do marfim.

A jovem cientista explicou que em qualquer população há sempre uma pequena percentagem de indivíduos que não tem presas, mas na Gorongosa esses foram os que sobreviveram a anos de matança, e são os que se estão a reproduzir.

“Isso mostra o quanto a ação humana pode, não só mudar o aspeto de uma espécie, mas também o comportamento”, disse a ecologista, recordando que os paquidermes da Gorongosa “são famosos por causa do comportamento, que alguns chamam agressivo”, mas que Gonçalves prefere chamar “protetor”.

Os elefantes da Gorongosa são muito menos tolerantes a pessoas a veículos do que os animais de outros parques naturais. Reagem com fuga ou ataque, enquanto noutros lugares continuam a sua vida sem reagir aos turistas, explicou.

Dominique Gonçalves lembrou que o Parque Nacional da Gorongosa é uma exceção à tendência global de declínio das populações de elefantes.

No ano passado, o elefante africano da floresta foi listado como criticamente em perigo e o elefante da savana africana como em perigo na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza.

A especialista justificou este êxito, não só com o projeto de restauração do parque em curso desde 2008, quando o Governo de Maputo se uniu à Fundação Carr, mas também com as comunidades residentes em torno do parque, que estão “a ajudar muito a proteger esses elefantes”.

Com uma área de cerca de 4.067 quilómetros quadrados, o Parque Nacional da Gorongosa já albergou uma das mais densas populações de vida selvagem de toda a África, incluindo carnívoros, herbívoros e mais de 500 espécies de aves, mas a guerra civil no país fez desaparecer 95% dos mamíferos de grande porte e os ecossistemas foram alvo de forte pressão.

Localiza-se na província de Sofala, na extremidade sul do Vale do Rift do leste africano, com uma área de cerca de 4.000 quilómetros quadrados.

A Fundação Carr, criada pelo norte-americano Gregory Carr, aliou-se ao Governo de Moçambique para proteger o parque e, em 2008, assinou um contrato de gestão conjunta por 20 anos, entretanto prolongado por mais 25, comprometendo-se então a um investimento de 40 milhões de dólares (30,6 milhões de euros ao câmbio atual).

Dominique Gonçalves, que em 2015 aderiu como investigadora ao Elephant Ecology Project, o qual agora lidera, é uma das oradoras da 4.ª National Geographic Summit, sob o mote “Um dia para mudar os próximos”, que traz hoje a Lisboa “exploradores que usam o poder da ciência, da exploração, da investigação e do ‘storytelling’ para divulgar e proteger as maravilhas do planeta Terra”, segundo a organização.

A Semana com Lusa

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