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Eleição do Bolsonaro no Brasil: José Maria Neves escreve sobre o «Grito de desespero» 05 Novembro 2018

Num post que colocou na sua página de facebook, o ex-Primeiro-ministro de Cabo Verde, que é também um possível concorrente da área da Esquerda às presidenciais de 2021, analisa as últimas eleições no Brasil, em que o candidato da extrema-direita, Jair bolsonaro, derrotou o concorrente do PT, Fernando Haddad. Neves escreve que nos Estados e nos Municípios, o PT partilhou o poder com os outros partidos, metidos de cabeça aos pés na corrupção. «Quase todos foram afastados do poder. Estas eleições foram um grito de revolta contra esse estado de coisas. Os brasileiros estavam de "saco cheio" e à procura de um salvador da pátria e votaram no primeiro que lhes apareceu pela frente. Foi um grito desesperado de socorro». JMN acrescenta, porém, que a democracia produz os seus próprios remédios, esperando que as forças democráticas e progressistas, que estão aí para continuar a luta, «tenham ouvido o grito de socorro do povo brasileiro». Alerta que, embora respeite a escolha democrática dos brasileiros, não pode deixar de expressar as suas «preocupações quanto à crise da democracia e dos sistemas partidários, o que tem escavado o caminho ao extremismo, à violência, ao populismo e à demagogia». Leia, a seguir, a análise, na íntegra, do ex-Primeiro-ministro de Cabo Verde, sobre as recentes eleições no Brasil.

Eleição do Bolsonaro no Brasil: José Maria Neves escreve sobre o «Grito de desespero»

GRITO DE DESESPERO

1. Jair Bolsonaro, adepto confesso da ditadura militar e da tortura, e defensor dos ideais da extrema direita e da democracia iliberal, ganha expressivamente as eleições presidenciais no Brasil, com cerca de 57,8 milhões de votos, e será, assim, a partir de Janeiro de 2019, o 38º Presidente do Brasil. É a escolha livre dos brasileiros, a qual por todos deve ser respeitada.

O Senhor Presidente da República, Dr. Jorge Carlos Fonseca, já felicitou o Presidente Eleito do Brasil, desejando-lhe sucessos no exercício das suas funções. Fez muito bem, já porque Cabo Verde deve respeitar a escolha livre e democrática dos brasileiros, já porque as relações são entre estados e devem ser perenes, independentemente das pessoas que circunstancialmente são eleitas para cargos de relevo nos diferentes estados soberanos.

Nós outros, simples cidadãos, temos o direito de, livremente, expressar as nossas ideias, em conformidade com o nosso ideário político, a partir da análise que fazemos da realidade política contemporânea e do entendimento que temos dos processos político-eleitorais.

Respeitando embora a escolha democrática dos brasileiros, não posso deixar de expressar as minhas preocupações quanto à crise da democracia e dos sistemas partidários, o que tem escavado o caminho ao extremismo, à violência, ao populismo e à demagogia.

2. O cansaço das instituições democráticas, máxime dos partidos moderados de esquerda e de direita, a corrupção, o desemprego, as desigualdades, a insegurança e a violência têm sido corrosivos para o sistema democrático e para os sistemas partidários.

3. No Brasil, uma Federação de 27 Estados e milhares de municípios com governos próprios, o poder é altamente descentralizado. O sistema de governo tem sido caracterizado como "presidencialismo de coalizão". A pulverização de partidos (nas eleições de 2018,, mais de 30 partidos passaram a ter representação parlamentar) leva a que nenhum deles tenha sozinho condições de suportar, no Congresso (Senado e Camara dos Deputados), o Governo do Presidente. A necessidade, pois, de os Presidentes terem que negociar grandes coalizões, para garantirem o apoio do Congresso e poderem, deste modo, governar.

Foi assim com todos os Presidentes eleitos desde a instauração da democracia (1986), e das eleições directas para Presidente da República (Constituição de 1988).

4. Todavia, três grandes partidos dominavam a cena política brasileira: PMDB, PSDB e PT. O primeiro, PMDB, participou e viabilizou governos de Collor de Mello (Itamar Franco, do PMDB, foi Vice de Collor), de Fernando Henrique Cardoso, de Lula da Silva e de Dilma Roussef (Michel Temer era Presidente do PMDB e Vice-Presidente da República, na chapa de Dilma Roussef).

5. O PT ganhara as últimas quatro eleições presidenciais. Nele, e particularmente em Lula da Silva - no Brasil, o sistema de governo é presidencialista, a estatura e a capacidade de liderança do candidato presidencial são, pois, cruciais -, o povo depositara grandes esperanças, enquanto partido de esquerda democrática, portadora da ética e dos valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade, para resgatar o Brasil da corrupção, da insegurança, da fome e da pobreza extrema, das gritantes desigualdades sociais e assimetrias regionais. O PT fez muito, Lula chegou a píncaros de popularidade, no Brasil e no mundo, mas enlameou-se na corrupção e não se mostrou capaz de realizar as grandes mudanças institucionais por que ansiava o povo brasileiro.

Os outros partidos com que partilhou o poder, também foram acusados de corrupção e vários dos seus mais altos dirigentes estão presos, como Lula da Silva.

7. Nos Estados e nos Municípios, o PT partilhou o poder com os outros partidos, metidos de cabeça aos pés na corrupção. Quase todos foram afastados do poder.
8. Estas eleições foram um grito de revolta contra esse estado de coisas. Os brasileiros estavam de "saco cheio" e à procura de um salvador da pátria e votaram no primeiro que lhes apareceu pela frente. Foi um grito desesperado de socorro.
Essas eleições constituíram um grande tsunámi para os partidos e políticos tradicionais. Foram quase todos varridos do mapa. PMDB e PSDB foram humilhados nas presidenciais e fragorosamente derrotados nas legislativas e estaduais. Ainda assim, o único que sobreviveu a esse tsunámi político foi o PT: tem a maior bancada parlamentar (56 Deputados Federais) e o seu candidato, Fernando Haddad, no segundo turno, obteve cerca de 47 milhões de votos. Não foi ele capaz de unir em torno de si as forças democráticas e progressistas e nem estas tiveram condições de se unir ao candidato do PT. Os mandatos do PT tinham deixado feridas profundas.

9. Esperemos os próximos passos do Presidente eleito, Jair Bolsonaro. A democracia produz os seus próprios remédios. As forças democráticas e progressistas estão aí para continuar a luta. Espero que tenham ouvido o grito de socorro do povo brasileiro. José Maria Neves (Post, na sua página de facebook)

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