MUNDO INSÓLITO

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Em defesa da honra? 10 Fevereiro 2022

A declaração dos direitos humanos na França da Revolução incluiu a liberdade de imprensa mas esqueceu, segundo os defensores de Henriette Caillaux, de pôr a tónica na defesa da honra. Duzentos e trinta anos depois, em que ponto estamos?

	Em defesa da honra?

Momentos insólitos numa capital nos últimos 25 anos. Conhecida figura pública acompanhava no Plateau (?) o debate parlamentar via rádio. Ouve algo que lhe toca e em minutos está na Assembleia a responder ao ofensor.

Outro episódio: um jornalista esgrimista do verbo como poucos é confrontado num bar. "Ele põe-se a beber e escreve aquelas tolices", justificou a filha em defesa do pai.

A declaração dos direitos humanos na França da Revolução incluiu a liberdade de imprensa mas esqueceu, segundo os defensores de Henriette Caillaux, de pôr a tónica na defesa da honra.

Um argumento durante o julgamento da “esposa ultrajada”, como relembrou a imprensa francesa por ocasião do centenário do trágico evento. Nesse 16 de março de 1914, a esposa do ministro das Finanças dispara e mata o diretor do Le Figaro, Gaston Calmette.

O jornal quotidiano tinha vindo durante meses a conduzir uma campanha virulenta contra Joseph Caillaux, líder do Partido Radical, “insolente em extremo” (como o descreve um seu contemporâneo socialista).

Caillaux tinha arranjado numerosos inimigos. Na presidência do Conselho, dadas as suas simpatias pela Alemanha. No Ministério das Finanças, por causa do imposto que criou sobre o rendimento. Também na sua vida privada, “digna de uma comédia de vaudeville (pouco moralizadora)”. O seu divórcio para poder casar com Henriette, em 1910, levou a primeira esposa, Berthe Gueydan, a usar a sua correspondência privada para se vingar.

Quando em dezembro de 1913, começa a campanha contra Caillaux orquestrada por Gaston Calmette, essa correspondência privada passa a ser publicada. A primeira publicação é um bilhete dirigido à Henriette e assinado ”Teu Jo”.

Joseph e Henriette perdem o sossego: temem que as demais cartas retidas por Berthe possam vir a ser divulgadas no Le Figaro, porque escritas numa altura em que a sua ligação ainda não era legítima.

Negociata: Congo para a Alemanha, Marrocos para França

A vertente política tem muito também para preocupar o membro do governo: Caillaux receia ter os seus “amigos” políticos a divulgar os «verdes de Agadir”, nome dado aos telegramas trocados entre a embaixada da Alemanha em Paris e a sede de governo em Berlim, os quais transcrevem as suas conversas secretas.

Durante a crise marroquina, em 1911, para evitar uma guerra com a Alemanha, ele tinha secretamente negociado entregar a Berlim uma parte do Congo em troca de ficar a França com as mãos livres em Marrocos. Se isso fosse divulgado, ele seria acusado de traição. E está prestes a sê-lo, pois que Calmette anunciou que ia publicar novos documentos “fulminantes”.

Nessa manhã do drama, Joseph Caillaux tenta convencer o presidente da República, Raymond Poincaré, a exercer a sua influência junto de Barthou, o anterior chefe do governo, a fim de impedir o Le Figaro de "tocar na sua vida privada", segundo os historiadores — mesmo se é o iminente labelo de traidor à pátria o que mais deveria preocupar o governante.

Caillaux acredita que por trás da campanha está Barthou, que ele ajudou a derrubar. Às 11H30 da manhã ao encontrar a esposa, explode: “Se o Calmette publicar uma das minhas cartas, vou arrebentá-lo”. Henriette age primeiro. Compra uma arma, uma pistola automática. Dispara seis vezes.

O processo judicial, que começa em 20 de julho de 1914, apaixona os franceses. É um julgamento altamente político: não é Henriette mas o marido ministro das Finanças, o político eminente que está a ser julgado. Oito dias depois, o tribunal absolve-a.

O questionamento com que se abre este artigo... que resposta tem?

Fontes: Testemunhos in loco/Arquivos/Le Monde/Le Figaro.

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