OPINIÃO

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Em torno da literacia estatística 08 Novembro 2018

Existe ainda um conjunto de elementos necessários para o desenvolvimento da Literacia Estatística, considerando que para compreender, interpretar, avaliar de modo critico e comunicar sobre a informação estatística oficial são envolvidas não só componentes do conhecimento - competências da literacia, conhecimento estatístico, conhecimento matemático, conhecimento em contexto e questões críticas - mas também componentes associadas a convicções e atitudes, e a adoção de uma postura critica face aos resultados. O crescimento de uma Sociedade letrada no conhecimento estatístico passa necessariamente pelo desenvolvimento do ensino da Estatística no contexto da Escola.

Por: Adrião Simões Ferreira da Cunha*

Em torno da literacia estatística

Na atual era da informação a utilização de informação estatística oficial tornou-se uma necessidade para qualquer cidadão no desempenho das suas atividades profissionais e pessoais, abrangendo uma grande diversidade de áreas e assuntos, muitos dos quais estão bem presentes no dia-a-dia de qualquer pessoa.

De facto, qualquer cidadão é de alguma forma consumidor de informação estatística oficial, que já não é só utilizada por especialistas em estudos ou investigações, mas muito utilizada em situações do quotidiano.

A participação ativa em Sociedade exige que os cidadãos tenham um conjunto de conhecimentos básicos de Estatística, exigindo capacidade de interpretar, refletir e criticar as ideias estatísticas. É neste sentido que muitos investigadores, educadores e instituições defendem ser prioridade promover a Literacia Estatística dirigida para todos os cidadãos, cultivando-se o desenvolvimento de uma Sociedade com uma forte cultura estatística.

O papel do Ensino, em especial o ensino básico e secundário, é determinante neste processo e a forma de gradualmente atingir todos os cidadãos, e atualmente em muitos países o ensino da Estatística está contemplado no ensino básico e secundário, mas têm surgido algumas críticas sobre a forma como o ensino da Estatística tem sido conduzido.

O incremento da Literacia Estatística tem sido uma das preocupações dos Institutos Nacionais de Estatística (INE), sendo essencial por um lado para garantir a adequada utilização da informação que produzem, e por outro como forma de garantir que os indivíduos e as empresas estejam sensíveis à importância da sua participação nos inquéritos e nas operações estatísticas que realizam.

Nesse sentido, têm sido desenvolvidas iniciativas, muitas vezes em parcerias, com a comunidade escolar, que visam melhorar a compreensão da Estatística, sensibilizar para a importância e relevância do conhecimento estatístico e motivar o interesse pela utilização da informação estatística oficial.

Nas Sociedades contemporâneas a informação estatística oficial tem um papel determinante na evolução do conhecimento e no acompanhamento das constantes mudanças ao nível politico, social, económico, financeiro, empresarial, ambiental, cultural, entre outros, informação que não só apoia a interpretação e a compreensão dos fenómenos da realidade, como sustenta as ações que possam dai advir no contexto individual e coletivo.

As necessidades crescentes de informação estatística oficial têm proporcionado um aumento da abrangência da informação, sendo atualmente transversal a diversas áreas do conhecimento e da Sociedade.

Se num passado, mesmo que recente, a informação estatística oficial se restringia a públicos especializados, como os investigadores, atualmente com a rápida evolução das tecnologias de informação e comunicação, assim como o reconhecimento do potencial e do poder das estatísticas oficiais no desenvolvimento da Sociedade nas suas diferentes áreas de atuação, pode-se dizer que de alguma forma todos os cidadãos são consumidores de informação estatística oficial.

O consumo da informação estatística oficial está massificado, faz parte das exigências da Sociedade e influencia também parte da rotina diária de muitas pessoas, surgindo em diversos contextos, quer pessoal, quer profissional. Há uma grande diversidade de exemplos que ilustram a importância e as diferentes necessidades na utilização da informação estatística oficial no quotidiano atual dos cidadãos. Destaca-se, por exemplo, a utilização da informação estatística oficial pelos órgãos de comunicação social, que a veiculam pela apresentação de notícias que chegam a uma franja muito significativa da população, com níveis de conhecimentos estatísticos muito diferenciados.

O impacto crescente que este tipo de notícias tem na Sociedade, aliado ao insuficiente conhecimento estatístico dos cidadãos em geral, conduz muitas vezes a que formulem opiniões deturpadas sobre determinadas problemáticas que dominam o mundo, bem como invariavelmente ao alheamento das mesmas. Outro exemplo, com grande impacto no quotidiano dos cidadãos prende-se com o setor da saúde e relaciona-se com a diversidade de informação estatística oficial que necessitam de compreender, principalmente quando são confrontados com a necessidade de tomar decisões e que estão na maioria das situações sujeitos a diferentes fatores de incerteza.

É neste contexto que atualmente saber ?lidar com a informação? e com ela tomar decisões, assim como formar e discutir opiniões (muitas vezes em situações de incerteza) é, mais do que uma vantagem, uma necessidade das Sociedades contemporâneas que se pautam pela competitividade, rigor e exigência.

A complexidade do mundo em que vivemos mostra como cada vez mais é improvável comentar um acontecimento social ou físico sem o recurso à Estatística, pelo que ter conhecimentos de Estatística tornou-se obrigatório para se ter uma participação critica, reflexiva e democrática na Sociedade.

Para o cidadão em geral, a Estatística deve cada vez mais ser considerada uma ferramenta na análise e interpretação de dados, reforçando o seu papel como linguagem de descrição da realidade.

Se por um lado o consumo da informação estatística oficial faz parte do quotidiano dos cidadãos, por outro vários estudos revelam que existem muitas fragilidades ao nível do seu conhecimento, verificadas quer em jovens (mesmo para os que possuem vários anos de escolaridade), quer em adultos. Essas fragilidades referem-se ao nível do conhecimento básico dos conceitos estatísticos, ao nível da capacidade de utilização e de interpretação crítica da informação estatística oficial no contexto da resolução de um problema e também ao nível da capacidade de comunicação sobre questões que envolvam a Estatística. As implicações a este nível condicionam a forma de participar na Sociedade, contribuem para um olhar deturpado do mundo, condicionam o bom desempenho profissional e conduzem à descredibilização da Estatística, afetando o exercício pleno de cidadania.

A utilização generalizada e quotidiana da informação estatística oficial, o reconhecimento do seu potencial, as exigências da Sociedade e as debilidades demonstradas ao nível do conhecimento estatístico tem conduzido nas últimas décadas a uma crescente investigação sobre as questões relacionadas com a Literacia Estatística.

Muitos autores referem a importância do debate e da implementação de medidas que possibilitem melhorar o grau de Literacia Estatística, de modo a construir-se uma Sociedade participativa e pronta para enfrentar os atuais e futuros desafios, salientando que a utilização incorreta desta ciência pode levar a decisões erradas com consequências negativas para o desenvolvimento das outras ciências e para a vida do cidadão comum.

É neste contexto que as investigações sobre as questões em torno da Literacia Estatística têm surgido, em particular sobre a importância e o modo de dotar a população jovem e adulta, com conhecimentos que permitam lidar com os problemas quotidianos que exijam conhecimentos estatísticos.

A este respeito a Literacia Estatística contribui para que os adultos possam estar plenamente conscientes das tendências e dos fenómenos de importância social e pessoal e também contribui para a capacidade das pessoas fazerem escolhas quando confrontadas com situações baseadas em incerteza. Ainda neste âmbito, interroga-se: quem discordaria que os licenciados, para não mencionar os graduados do ensino médio, devam ser capazes de compreender e interpretar corretamente taxas de doença ou de desemprego, os custos comparativos dos carros ou de contratos de arrendamento da habitação, e as tendências na composição da população do país.

Construir uma Sociedade com elevados níveis de Literacia Estatística é uma prioridade e uma necessidade comummente aceite e reconhecida pelos investigadores, pelo que se referenciam algumas das formulações associadas aos conceitos e aos modelos desenvolvidos neste contexto.

Sintetizando algumas abordagens sobre Literacia Estatística, pode-se dizer que consiste na capacidade de lidar com situações que envolvam o conhecimento estatístico, capacidade que abrange diferentes competências, interligadas entre si, como: competência para compreender a informação estatística oficial; competência para a utilizar e interpretar; competência para ser crítico em relação a informação estatística oficial; competência para comunicar sobre a informação estatística oficial.
O desenvolvimento destas competências possibilita que o cidadão comum possa resolver os desafios quotidianos (pessoais e profissionais), que utilizem o conhecimento estatístico com uma atitude consciente, capacitando-o de tomar decisões, formular opiniões, interpretar a realidade, criticar e intervir na Sociedade.
Sobre o desenvolvimento destas competências o objetivo não é dotar o cidadão comum de competências que permitam resolver problemas que exijam um profundo e amplo conhecimento de Estatística, mas sim proporcionar-lhe uma ?cultura estatística? necessária à resolução desses desafios quotidianos.

A Literacia Estatística inclui as competências básicas que podem ser utilizadas para compreender a informação estatística oficial, e que abrangem: a capacidade de organização de dados; a capacidade de construir e representar tabelas de dados; a capacidade de interpretar diferentes representações de dados e ainda incluem o conhecimento e compreensão de conceitos estatísticos, o conhecimento do vocabulário e da simbologia e ainda, o entendimento de probabilidade como medida de incerteza.

Ainda nesta linha de conceptualização sintetiza-se o conceito de Literacia Estatística como sendo a capacidade que nos permite interpretar a informação, avaliar a sua credibilidade, e produzir nova informação, quando necessário. Uma perspetiva mais ampla inclui a capacidade de interpretar a informação estatística oficial como aspeto fundamental da literacia matemática a par da capacidade de utilização dos conhecimentos matemáticos na resolução de problemas da vida quotidiana.

O desenvolvimento da Literacia Estatística estabelece-se em torno de 3 capacidades independentes e definidas de modo hierárquico, representando um nível de pensamento estatístico gradualmente mais sofisticado. Essas capacidades são: compreensão básica da terminologia estatística; compreensão da linguagem estatística e dos conceitos quando estes se inserem num contexto de debate social; atitude crítica que possibilita contradizer afirmações que não possuam fundamento estatístico adequado, e utilizar (se necessário) conceitos ainda mais sofisticados.

Existe ainda um conjunto de elementos necessários para o desenvolvimento da Literacia Estatística, considerando que para compreender, interpretar, avaliar de modo critico e comunicar sobre a informação estatística oficial são envolvidas não só componentes do conhecimento - competências da literacia, conhecimento estatístico, conhecimento matemático, conhecimento em contexto e questões críticas - mas também componentes associadas a convicções e atitudes, e a adoção de uma postura critica face aos resultados.

O crescimento de uma Sociedade letrada no conhecimento estatístico passa necessariamente pelo desenvolvimento do ensino da Estatística no contexto da Escola.

A Literacia Estatística é uma necessidade da Sociedade, sendo através do nível escolar mais elementar a via mais eficaz para atingir progressivamente todos os cidadãos. Portanto, todos os intervenientes no processo educativo são os principais responsáveis para obter uma Literacia Estatística para todos.

Também se salienta o papel fundamental da Escola na formação de uma Sociedade que exige dos seus cidadãos elevados níveis de Literacia Estatística. Assim, a eficácia do ensino da Estatística, em especial ao nível do ensino básico e ao nível do secundário, tem um papel determinante para o aumento da literacia, porque não só culmina com o início da fase adulta dos jovens e a partir da qual se espera uma participação mais ativa em Sociedade, como também a sua finalização e para alguns também o início da sua vida profissional, e para outros o início dos seus estudos de nível superior.

Em qualquer destas circunstâncias, espera-se que o conhecimento e as competências adquiridas no domínio da Estatística ao longo de todo este percurso possibilitem aos jovens cumprir de modo eficaz cada um dos papéis que venham a desempenhar na Sociedade, possibilitando-lhes resolver as situações quotidianas que envolvam esse tipo de conhecimentos.

Neste contexto, considera-se importante expor alguns dos aspetos que têm vindo a ser referenciados na literatura sobre o modo como o ensino da Estatística tem vindo a ser considerado.

Na maioria dos países, o ensino da Estatística no ensino básico e secundário tem uma história relativamente recente, tendo estado inserido no contexto da disciplina de matemática, acompanhando portanto as diferentes reformas e alterações a que esta disciplina, a par do Sistema Educativo, tem estado sujeita, desencadeadas, a maioria das vezes, pelo insucesso dos alunos na sua aprendizagem, a qual se tem associado também uma grande insatisfação e resistência à sua aprendizagem, não negligenciando a influência dos contextos sociais e políticos próprios de cada época, a evolução e desenvolvimento das tecnologias de informação e as diferentes perspetivas sobre as metodologias de ensino desta disciplina.


* Estaticista Oficial Aposentado - Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal

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