OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Embaixador Arnaldo Andrade responde à carta de Grace Beatriz 18 Mar�o 2009

Sou Arnaldo Andrade Ramos, Embaixador de C. Verde em Portugal e ontem tive conhecimento da sua carta aberta, mas uma longa lista de afazeres não me permitiu responder logo. Faço-o hoje logo de manhã, antes de sair de casa, pois há dias agitados, e poderia dar-se o caso de mais tarde não conseguir responder-lhe. Tenho pena que não seja pessoalmente, pois tive sempre a esperança que um dia viesse à embaixada para falarmos seriamente sobre os doentes evacuados de Cabo Verde.

Embaixador Arnaldo Andrade responde à carta de Grace Beatriz

Digo-lhe, se eu estivesse preocupado com uma situação iria ver as pessoas que se encarregam do assunto, para saber informações, dar as minhas ideias e sugestões, anunciar o meu apoio, antes de fazer juízos. Existe sempre o risco de não sabermos o suficiente sobre o assunto, apesar da nossa boa vontade. Se procurar, saberá que este Embaixador recebe sempre as pessoas, não apenas às quintas-feiras. Eu recebo todos os dias, incluindo sábados, mediante marcação, é claro. Como imagina, as solicitações da política externa de Cabo Verde nesta altura são muitas e as ocupações fora da embaixada também. Foi uma longa carta que, como digo, daria uma bela conversa se fosse presencial, e teríamos todo o tempo para esclarecer-nos mutuamente. Não fico desiludido, pois espero ainda que numa próxima vinda a Portugal não deixará de visitar-nos na Embaixada de Cabo Verde. Será minha convidada, quando quiser disponha.

Destaco apenas 3 injustiças que fez e que considero meu dever reparar, com verdade. Porque a verdade liberta (do sufoco da injustiça), como diz a Bíblia.

1º. Maltratou o Bispo D. Arlindo Furtado, um homem com um coração de ouro, que foi meu convidado para as festas de Santa Catarina, de que eu era padrinho (juiz). Quero dizer-lhe que foi muito injusta, pois D. Arlindo esteve 5 dias em Portugal em que não parou. Andou comigo debaixo de uma chuva diluviana a visitar os bairros e os projectos das associações cabo-verdianas, esteve com os jovens na Universidade Católica, celebrou diversas actividades religiosas e, na missa do dia 30 de Novembro (a maior que alguma vez a comunidade cabo-verdiana fez em Portugal), D. Arlindo abençoou os doentes evacuados presentes, levados pela Dra.Teresa da Associação "Girassol"(e eles têm nome minha senhora, eram a Patrícia, o Kelvin, o Ruben e o Airton), e realçou a necessidade de toda a comunidade apoiar os doentes evacuados de Cabo Verde. Que mal lhe fez D. Arlindo Furtado? Não dá para entender.

2º Na sequência da sua carta houve comentários a tentar atingir o Governo e o Primeiro-Ministro. Se tivesse estado na Embaixada tinha-lhe mostrado o projecto de Reforma do Sistema de Evacuação de Doentes que tem no Primeiro-Ministro, José Maria Neves, o mais entusiasta dos promotores. Em Novembro de 2007, apresentei ao Primeiro-Ministro um projecto de Reforma do Sistema de Evacuação de Doentes que existe há 34 anos. A última legislação sobre o assunto data de 1994. JMN mandou imediatamente que os ministérios abrangidos iniciassem o processo. Esta carta ficaria um longo documento se lhe falasse dessa reforma, porque como imagina não é coisa que se resolva num passo de mágica. Se fosse estava já resolvido há 34 anos. E acredite, com toda a certeza, numa simples passagem pelas pensões não fica a conhecer tudo sobre o assunto. Já agora lhe digo que eu conheço essas pensões há mais de 20 anos, e continuo a ir com frequência em visitas anunciadas e não anunciadas. Espero pela sua visita então para lhe falar do que se fez, do que se está a fazer, e do muito que há ainda por fazer.

3º Maltratou a “Girassol” e com isso um grupo de portugueses e cabo-verdianos, com um grande coração, que tiram tempo às suas vidas, para se dedicar aos doentes evacuados. Eu imagino que a ”Girassol” apanhou “pancada” apenas porque colabora no programa de Reforma da Embaixada e teve para isso o apoio da Câmara de Lisboa, que ainda por cima fez-se representar na Festa de Natal dos Doentes. Eu ando na política há muito tempo e sei que o preço a pagar é muitas vezes ser maltratado sem nenhuma razão. Mas os da “Girassol” não. São apenas gente de boa vontade e solidariedade, pelo que não se compreende esta sua raiva contra eles! A VERDADE deve ser dita. Quem me dera ter mais três associações como a “Girassol”! Que vai com os doentes às consultas, matricula as crianças na escola, inscreve os jovens em escolas profissionais, organiza excursões à Fátima, visitas ao Jardim Zoológico, leva-os ao circo, ao teatro, que celebra protocolos com o Banco Alimentar para os apoiar, que recebe donativos em roupas, mobília, etc. e faz muito mais.... durante os 365 dias do ano! E tem o apoio da Embaixada, dos artistas cabo-verdianos residentes em Lisboa. Perguntem à Carla Correia, à Ritinha Lobo e aos outros artistas que estiveram nesta última festa de Natal. Por isso não maltrate a “Girassol” apenas porque é uma concorrente sua nas festas de Natal. Este defeito de dizer mal dos outros em vez de procurarmos ser melhores, não nos ajuda a avançar, acredite!

A minha primeira preocupação nesta resposta à sua carta aberta, como vê, é defender aqueles que acho que maltratou injustamente, e que me têm apoiado na procura de meios para mudar a situação. Como lhe digo, pode vir visitar-me para lhe apresentar o que vai mudar. Ficaria longo dizer tudo numa carta. E lhe explicaria muitas coisas que não entende. Os doentes recebem 65 euros por mês? Sim, pode acontecer. Porquê? Porque temos que aplicar uma lei que diz que o doente tem direito a uma diária de 10,4 euros, dos quais 8,2 euros vai para o alojamento que é o mais barato que se consegue encontrar em Lisboa (por isso tem tão más condições). Faça as contas e veja quanto dá! Vai dizer que é pouco. É verdade, mas digo-lhe que também isso tem permitido vir mais gente para tratamento que doutro modo ficaria, sem alternativa em Cabo Verde. A Embaixada (como qualquer outro organismo do Estado) só pode gastar aquilo que está autorizada. Essa é a regra inviolável do Estado de Direito, essa é a que os funcionários estão instruídos para fazer. Há excepções? Claro que sim, e é por isso que tenho sempre uma grande sala de visitas à espera. Só para ter uma ideia, essa diária de 10 euros (infelizmente tão pouca) multiplicada pela quantidade de doentes em tratamento em Portugal (não se iluda, os 50 que estão nas pensões são uma pequena minoria e não os únicos a passar por muitas dificuldades, acredite) representa no final de cada ano alguns milhões de euros. Sim, alguns milhões de euros, que têm de estar inscritos no Orçamento do Estado de Cabo Verde e transferidos a tempo para a Embaixada. E milhões de euros, em nenhum Estado, não se tiram da cartola, como se fosse um passe de mágica! Se a evacuação de doentes para Portugal não é ainda o que seria desejável, ela representa, contudo, um esforço grande para o Orçamento do Estado de Cabo Verde.

Enfim, posso dizer-lhe que vamos continuar o nosso trabalho de retirar gente das pensões como estamos fazendo desde que aqui cheguei, há dois anos e tal. Sem entrevistas nos jornais como me recomenda, mas sim com trabalho, discreto, real, procurando resultados e não visibilidade política. Porque a diplomacia é um trabalho de discrição e resultados, engana-se quem pensa o contrário. É claro que chega gente de Cabo Verde para tratamento todos os dias e, por isso, é-me difícil dizer-lhe o dia exacto em que deixaremos de ter gente nessas pensões. Será um dia de festa para mim e para os funcionários da Embaixada, pode crer.

Finalmente, pode mandar os jornalistas da televisão holandesa que eu falarei com eles, e até apresento-lhes um cidadão holandês que recebe tratamento como doente evacuado de Cabo Verde (recebe igual aos cabo-verdianos e refila tanto como os nossos), ao abrigo do Acordo de Segurança Social entre Cabo Verde e Holanda.

Fico à espera da sua visita, para uma conversa mais detalhada. Mas até lá, confie que nós vamos continuar o nosso trabalho, à procura de melhorar continuamente as condições de estadia dos doentes evacuados para tratamento em Portugal. E queremos a ajuda fraterna de todos os que quiserem associar-se a esta causa verdadeiramente patriótica. Mas, convenhamos, tem de ser de forma séria e verdadeira, porque o vedetismo não ajuda muito.

A. Andrade Ramos
Embaixador

Notícia relacionada:
Carta Aberta ao Embaixador de Cabo Verde em Portugal

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