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Cuba/Manifestações de protestos: Embaixadora em Cabo Verde denuncia campanha de desestabilização contra Cuba 29 Julho 2021

«Contra Cuba, pôs-se em marcha uma campanha de desestabilização, desenhada, financiada e dirigida pelo Governo dos Estados Unidos da América, com implicação directa da maquinaria política da Florida, utilizando de forma oportunista a situação da pandemia e as sérias dificuldades e limitações que enfrentamos, em consequência, fundamentalmente, do genocídio bloqueio económico, comercial e financeiro, intensificado pelas 243 medidas aplicadas pela administração estadunidense anterior e mantidas pela atual», disse, em entrevista exclusiva ao Asemanaonline, a embaixadora da Cuba acreditada em Cabo Verde. Rosa Wilson Rill responsabiliza os Estados Unidos da América pelas manifestações ocorridas no passado dia 11 no seu país e as mais recentes que aconteceram esta semana em alguns países estrangeiros, mais concretamente nos EUA e em França. A diplomática, que está em Cabo Verde desde dezembro de 2018, denuncia que a situação difícil que a Cuba atravessa neste momento é provocada sobretudo pelo embargo económico imposto pelos EUA contra Havana. «Penso que a Cuba tem que ter um diálogo nacional com a população, como forma de buscar a solução para os problemas internos. Mas não podemos deixar de ver que a base do problema económico crítico em que se vive na Cuba é devido ao bloqueio económico e comercial, que há mais de 60 anos sofre o povo cubano», admite a embaixadora do país de Fidel Castro, informando que «a situação na Cuba é calma» neste momento.

Entrevista conduzida por: Maria Cardoso/Redação

Cuba/Manifestações de protestos: Embaixadora  em Cabo Verde denuncia campanha de desestabilização contra Cuba

A Semana - Nas últimas semanas a Cuba tem sido o palco de manifestações contra e pró ao atual regime. Como está a situação neste momento?

Rosa Wilson Rill - Neste momento, a situação está muito tranquila. Toda população cubana continua fazendo os seus trabalhos de forma normal. Mas na tarde de domingo, 11 de julho, aconteceram várias marchas de protestos em diferentes cidades do país, de forma muito sincronizada e em simultâneo. Um fato que chama atenção das autoridades, visto que fizeram manifestação popular em alguns lugares de forma pacífica, mas em outros lugares não foram pacíficas como querem que o mundo acredite. Estão a fazer o discurso de que todas as manifestações foram pacíficas e que a polícia foi repressiva para com a população. Tudo com o objectivo de colocar o povo contra o presidente cubano. Ou seja, quando pessoas saem às ruas para se manifestarem contra a difícil situação que se vive hoje no país e começam a ter comportamentos violentos - a lançar pedras contra hospitais e lugares de comércio -, não é uma marcha pacífica, o que torna necessária a intervenção da polícia. Penso que Cuba tem que ter um diálogo nacional com a população como forma de buscar soluções para os problemas internos. Mas não podemos deixar de ver que a base do problema económico crítico que se vive na Cuba é devido ao bloqueio económico e comercial que há mais de 60 anos sofre o povo cubano e que complicou ainda mais quando o ex-presidente Trump colocou de forma adicional 243 medidas a esse bloqueio económico que já existia.

Os protestantes têm justificado essas manifestações com a crise económica agravada pela pandemia da covid-19, pelo escassez de alimentos e pela falta de liberdade e democracia no país. O que diz o atual regime sobre esses questionamentos?

- O nosso presidente tem falado, muito sinceramente com todos e para o bem de todos, de que temos de conversar e abrir canais de diálogo entre os cubanos para buscar soluções, visto que Cuba é um país aberto e que tem no centro da sua atenção o bem-estar do seu povo. É um governo que durante 60 anos tem preparado o seu povo na educação, na saúde, na cultura, no desporto para todos e com instituições democráticas participativas, organizacionais e não-governamentais que contribuem para o desenvolvimento social do nosso país. Acredito que temos de melhorar, sermos mais abertos, mais participativos e mudar tudo que tem de ser mudado com a parte do conceito da revolução, trabalhando para que possamos ter as mudanças necessárias.

O presidente cubano tem argumentado que tais manifestações foram orquestradas pelos Estados Unidos da América. Com que fundamento ele diz isso?

- Isso foi sim algo preparado e orquestrado pelos Estados Unidos para destruir Cuba, fazendo com que o governo cubano caia. Isto para mostrar que o nosso país está numa situação de desespero e que precisa de intervenção humanitária. Mas todos sabemos que o objectivo desta tarefa é provocar uma intervenção militar na Cuba para destruir a revolução cubana. Este é o principal objectivo desta suposta manifestação pacífica que aconteceu na Cuba. Como já tinha referido, o anterior presidente americano colocou, de forma adicional mais 243 medidas ao bloqueio económico já existente. Além disso, no meio dessa crise em que o mundo se atravessa devido à pandemia da covid-19, o estado está a tentar buscar uma forma de resolver essa situação de pandemia. Todos os males que hoje estamos sofrendo, é totalmente injusto e malicioso. A Cuba está sendo agredida do ponto de vista de uma guerra económica e comunicacional. Os EUA estão a fomentar uma crise no nosso país. Estamos certo de que temos problemas, mas Cuba não é o único país com problemas no mundo. Existem países com problemas piores do que a Cuba. Temos que zelar pelo nosso povo e ir ao melhoramento, mas querer fabricar uma situação de desespero, dando a entender de que o nosso país precisa de uma intervenção humanitária, sabendo perfeitamente o que significa isso - seria uma intervenção militar. Cuba não tem guerra e não precisa de intervenção humanitária. Para solucionar os problemas internos, precisamos de financiamentos de ajuda económica e que se levante, o mais rápido possível, esse bloqueio injusto contra Cuba.

Afirma que o embargo económico e comercial decretado pelos EUA poderá estar na origem dessa situação em que se vive na Cuba neste momento. Como sustenta essa afirmação?

- Isso não é segredo para ninguém. Todo o mundo sabe. O presidente Biden, durante a sua campanha eleitoral, prometeu que vai fazer com que haja diálogo e entendimento entre os dois países e esperamos que essa promessa seja cumprida. Cuba está disponível para falar e negociar de forma pacífica e civilizada com os EUA para o bem dos nossos povos. Somos vizinhos e não pretendemos mudar de lugar. Por isso, temos de buscar vias de entendimento e melhoramento de relações entre as partes, caso forem necessárias. Os norte-americanos são os únicos povos que não podem viajar livremente rumo à Cuba por motivos políticos. Acredito que o embargo decretado pelos EUA é o principal motivo que originou a situação em que a Cuba vive neste momento. O nosso principal problema é esse embargo económico e comercial decretado contra o nosso país, que não deixa passar remessas, que não deixa a Cuba comercializar livremente com os outros países e que não dá a Cuba acesso ao sistema financeiro internacional. Se a Cuba quiser comprar alguns equipamentos ou medicamentos e até mesmo petróleo, terá de os comprar muito longe e a preços muito elevados: tem de pagar o triplo do custo do produto, que poderia comprar num preço mais acessível em qualquer país vizinho. Isso acaba tornando a nossa situação muito mais complicada. Ou seja, um produto que poderia chegar no nosso país em duas semanas, demora dois a três meses para chegar à Cuba.

Apoio de Cabo Verde contra embargo e possível ajuda de Cuba com vacinas

O que espera da Comunidade Internacional no sentido do levantamento deste embargo, visto que a Assembleia Geral das Nações Unidas já aprovou, desde há muitos anos, uma resolução contra essa medida do governo norte-americano?

- Precisamos de acompanhamento internacional, como está a fazer muito bem a Comunidade Internacional, votando a favor do levantamento de bloqueio à Cuba. Esperamos que o acompanhamento que a Comunidade Internacional nos dá permaneça. De salientar que 184 Países votaram em ONU a favor da resolução cubana contra esse bloqueio imposto pelos EUA. Por isso, esperamos que o levantamento do embargo económico, financeiro e comercial aconteça o mais rapidamente possível.

O que a Cuba espera de Cabo Verde neste momento, na sequência da crise económica e política que o país atravessa atualmente?

- Cabo Verde nos acompanhou, votando durante longos anos a nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, a favor do levantamento desse embargo económico e comercial. Esperamos que, sendo Cabo Verde nosso parceiro tradicional no acompanhamento desse processo, siga e apoie a Cuba nessa luta pelo levantamento do referido embargo decretado pelos EUA.

Como é que avalia a cooperação entre Cuba e Cabo Verde?

A cooperação entre esses dois países é muito forte. Apesar dos problemas que temos, Cuba e Cabo Verde continuam mantendo essa cooperação, com destaque para formação a vários níveis: estudos universitários sobretudo na área de medicina e especialização. Temos um número considerável de médicos e enfermeiros que estão a trabalhar em Cabo Verde, dando apoio na área de saúde e no combate à covid-19.

Cuba já apoiou ou vai apoiar Cabo Verde na luta contra a pandemia da covid-19, visto que já produziu vacinas contra essa doença?

- Neste momento Cuba já produziu duas vacinas, que já estão reconhecidas e vêm sendo aplicadas à população. Quatro milhões de cubanos já tomaram a primeira dose da nossa vacina. Estamos sempre apoiando os países que precisam da nossa ajuda e da nossa cooperação solidária. Estamos à disposição para cooperar com os países que precisam das nossas vacinas. Podemos apoiar Cabo Verde com as nossas vacinas quando a Cuba aumentar a produção dessas vacinas e quando toda população da Cuba estiver vacinada. Isso porque, a esperança é de que até o final deste ano a população cubana esteja totalmente vacinada. Depois podemos ajudar os países que precisam das nossas vacinas, dependendo isso da nossa disponibilidade em produzir vacinas, visto que estamos limitados devido ao bloqueio económico imposto pelos EUA. Mas estamos sempre disponíveis a cooperar com os países que precisam da nossa ajuda.

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