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Guiné Equatorial: População convenceu-se de que ditadura Obiang é indestrutível - escritor no exílio 19 Novembro 2022

O escritor da Guiné Equatorial Juan Tomás Ávila Laurel disse hoje (18/11) que os equato-guineenses estão convencidos de que a ditadura da família Obiang é indestrutível e que as eleições do próximo domingo não têm qualquer significado.

Guiné Equatorial: População convenceu-se de que ditadura Obiang é indestrutível - escritor no exílio

"O que não devia ter acontecido e já aconteceu é que o filho do Presidente já está bem encaminhado. Se não o evitámos, se não podemos voltar atrás e impedir que tenha um cargo público, já está feito", disse à Lusa o escritor, referindo-se ao líder do país, Teodoro Obiang, e ao filho, conhecido como Teodorín.

Juan Tomás Ávila Laurel, opositor ao regime de Malabo e a viver em Espanha desde 2011, não vê qualquer sinal de mudança nas eleições presidenciais na Guiné Equatorial do próximo domingo, que afirma que não terão qualquer "transcendência" e que não merecem atenção por parte da população do país.

Isto apesar de implicarem "a consumação da maldição sobre o país" e que a Guiné Equatorial "conhecerá a terceira fornada de ditadores desde que Macías Nguema Biyogo foi colocado na cadeira suprema pelo poder dominante na Espanha franquista", escreveu esta semana na revista digital espanhola Fronterad Juan Tomás Ávila Laurel, de 56 anos, o escritor equato-guineense mais traduzido.

Para o escritor, o povo da Guiné Equatorial "convenceu-se de que a ditadura de Obiang é indestrutível" e de que só tem acesso ao poder (e ao exército) o grupo étnico "fang" e as pessoas da província Wele Nzas, e daí a indiferença e a falta de perspetiva de uma mudança.

"Estes convencimentos dos guineenses são aquilo que determina o devir político da Guiné Equatorial. Devíamos trabalhar para perceber por é que as pessoas se convencem disto, porque quando te convences de algo não trabalhas para a melhorar", disse à Lusa.

Teodoro Obiang apresenta-se para um sexto mandato nas presidenciais de domingo, eleições que Juan Tomás Ávila Laurel qualifica como uma farsa, apesar de haver mais dois candidatos.

"Se eu fosse político e quisesse mostrar que quero abraçar o caminho da democracia, dificilmente me somaria a umas eleições que sei que são uma farsa, que sei que não são reais", disse à Lusa.

O escritor afirmou que os outros candidatos, alegadamente opositores de Obiang e que são pessoas que vivem na Guiné Equatorial, "acreditam que não podem vencer a ditadura", mas provavelmente acabam por aceitar entrar na farsa das eleições para conseguirem vantagens económicas ou porque estão sob ameaça e sabem quais podem ser as consequências num regime repressor como o que está instituído no país.

A Guiné Equatorial, antiga colónia espanhola, faz parte da União Africana (UA) e da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP), a que aderiu em 2014 com a promessa de abolição da pena de morte - formalizada em setembro passado -, da introdução do português e de maior abertura democrática.

"Eu não vejo que haja esperança nessas organizações", disse Juan Tomás Ávila Laurel à agência Lusa.

O escritor sublinhou que "a maioria dos países que formam a União Africana são ditaduras" e é uma organização que "jamais resolverá os problemas dos africanos".

"Podíamos ter tido alguma esperança na CPLP, mas eu penso que está marcada pela corrupção de alguns dos seus membros e pelo silêncio de outros, democráticos, como Portugal, que não sei se tem peso suficiente", afirmou.

Tomás Ávila Laurel nasceu na ilha de Ano Bom e viveu boa parte da vida na capital, Malabo, até ter sido forçado, em 2011, a abandonar o país após uma greve de fome em protesto contra o regime de Teodoro Obiang.

O Presidente da Guiné Equatorial, no poder desde 1979, há mais tempo do que qualquer outro chefe de Estado em todo o mundo, recandidata-se a um sexto mandato de sete anos pelo Partido Democrático da Guiné Equatorial (PDGE), que nunca obteve menos de 90% dos votos em qualquer eleição até hoje.

Nas anteriores presidenciais, em 2016, a oposição e observadores internacionais acusaram o partido no poder de fraude.

Mais uma vez Obiang enfrenta o seu aliado crónico, Buenaventura Monsuy Asumu, líder do Partido da Coligação Social Democrata (PCSD), que se candidata pela quinta vez às presidenciais, oferecendo ao regime uma simulação de democracia.

E pela primeira vez este ano, e não obstante o partido que dirige - Convergência para a Social Democracia (CPDS) - ter sido fundado no início da década de 90, candidata-se ainda à presidência Andrés Esono Ondo, líder do único partido da oposição legalmente ativo.

Outro partido da oposição, ilegalizado em 2018, Cidadãos pela Inovação (CI) foi alvo de uma ação das forças de segurança em 29 de setembro, e o seu líder - Gabriel Nsé Obiang - foi detido juntamente com 275 apoiantes.

Desde a independência de Espanha em 1968, a Guiné Equatorial é apontado pelas organizações de direitos humanos internacionais como um dos países mais corruptos e repressivos do mundo.

A Semana com Lusa

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